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Algo aconteceu entre o Akshay Kumar e Shirish Kunder durante as gravações de Joker. Não sei o que é porque não estava acompanhando notícias na época, mas sei que as coisas ficaram estranhas e Akki nem mesmo participou da divulgação do filme. Disse que não gostou do resultado. Como fã tanto do Akshay quanto do Shirish, não pude evitar certo desânimo com o filme após os acontecimentos. Afinal, como me animar com um filme renegado pelo protagonista?

Apesar de raramente rir delas, gosto muito das comédias do Akshay. Elas são barulhentas, dinâmicas,  coloridas e tem bons clipes. Posso dizer os mesmos dos filmes do Shirish já lançados, Jaan-E-Mann­ e Tees Maar Khan. Ambos tem um humor meio peculiar, em que até mesmo as piadas mais óbvias tem um leve toque de ironia que considero divertidíssimo. Jaan-E-Mann – que Shirish dirigiu e escreveu - funcionou perfeitamente comigo, misturando comédia pastelão, romance água com açúcar e uma homenagem/paródia a clichês de Bollywood. Já Tees Maar Khan, que ele apenas produziu e escreveu, mergulhou fundo demais na bizarrice e está na lista dos filmes mais insuportáveis a que assisti. Joker é uma pura manifestação do artista Shirish: escrito, dirigido, produzido e editado por ele. Ou seja, é a melhor amostra possível para quem quiser saber com alto grau de certeza se gosta ou não do moço.



Dessa mente pouco convencional saiu uma história de (não) ETs. Akshay é Agastya, cientista da Nasa cuja tarefa é fazer contato com extraterrestres por meio de uma máquina que ele mesmo criou. Seu prazo para consegui-lo expira, mas seu chefe lhe dá mais um mês para tal. É quando recebe uma ligação da Índia, avisando que seu pai está à beira da morte e deseja vê-lo. Agastya volta à Índia com Diva, sua namorada. Esta é interpretada por Sonakshi Sinha, aquela moça tão bela e expressiva que consegue marcar presença até mesmo em masalas dominados por homens. É uma pena que seu papel seja tão pequeno neste filme. Ela mais deu pulinhos que outra coisa e não consegui vê-la realmente atuar, como desejo há tanto tempo.


Agastya veio de Paglapur, algo como “aldeia dos loucos”. Sua aldeia não foi anexada ao mapa da Índia à época da independência, pois houve uma fuga em massa dos habitantes quando os internos do sanatório local se rebelaram e tomaram a cidade. Sendo assim, Paglapur foi construída e mantida por “loucos”. E estes loucos adoram Agastya, que também sentia falta de todos. Ele só não sabia que a saudade deles estava grande a ponto de mentirem sobre a saúde de seu pai para fazê-lo voltar. Sente raiva quando descobre, mas logo perdoa a todos e entende que só fizeram isso para que ele os ajudasse a salvar a aldeia da miséria. Como Paglapur não faz parte da Índia, não recebe recursos para nada. Isto se tornou problema quando começou a faltar água, impedindo a agricultura. Agastya toma para si a missão de colocar Paglapur no mapa.


Tudo isto aconteceu muito rapidamente, o que me desagradou porque não estava assimilando nem essa história de um lugar chamado “Paglapur”, muito menos tive tempo de me comover com seus dramas. O ambiente da cidade é de uma bizarrice inigualável, meus amigos. Shreyas Talpade falando uma língua desconhecida e se sacudindo em galhos de árvore são algumas peculiaridades pagalapurianas. O ambiente é árido e tem ar de abandono, mas os habitantes o fazem ser cheio de vida. Lugar perfeito para criar a fantasia de uma cidade de ETs, foi o que Agastya pensou.


E é assim que os habitantes criam a farsa de que ETs visitam Paglapur. Também foi quando realmente comecei a gostar do filme. A cada esdrúxula fantasia de ET criada por Agastya e cia, mais crescia meu interesse. Zombou-se um tanto da cobertura jornalística, tão sensacionalista nesses casos, e dos repentinos interesses políticos em cidades lucrativas. A última vez em que vi uma paródia da mídia sensacionalista foi em Peepli Live, mas lá era algo mais calcado no real. Em Joker, é tudo uma divertida piada. Não dá para acreditar que qualquer um – principalmente as autoridades dos Estados Unidos – cairia na história dos aldeões, mas também não dá para acreditar em um lugar chamado Paglapur. Me deixei levar por toda aquela loucura, mas não foi apenas isso. Realmente queria saber o que aconteceria, a história em si é envolvente.



As cores deram o tom abandonado e ao mesmo tempo radiante da cidade, porém também falaram de um outro abandono: o 3D. A concepção do filme era maior e me lembro que foi divulgado como o primeiro filme indiano em 3D, porém alguém (provavelmente, quem deu a grana) cortou a idéia bem perto do lançamento, o que diminuiu a magnitude do projeto. O problema é que Joker foi todo filmado para ser visto em 3D. Isto fica claro por alguns efeitos especiais – pessoas se balançando em galhos, vindo em direção à tela -, pelas cores fortes e o excesso de brilho. Acho que meus olhos saíram mais sensíveis da sessão, mas valeu a pena especialmente pelos clipes. Todos são fantásticos e nem tentei me impedir de dançar Sing Raja ou de me encantar com as mágicas luzes de Jugnu. O único que me incomodou, por incrível que pareça, foi o item number da Chitrangda Singh. Não é ruim, mas a letra é meio...boba. Letras de item numbers não costumam ser um manifesto feminista, mas as músicas dos melhores tem ritmos muito bons e sinto vontade de cantar junto. Ficar repetindo "I want just you" não teria graça.


Claramente, este filme poderia ser muito mais do que conseguiu e isto fica gritante a cada cena. Não sei se público e imprensa o descartaram, como fazem com tudo do Shirish, mas isto é bobagem. Os personagens tem uma alegria insana, as piadas são simples, e os clipes, de uma beleza radiante. Akshay, apesar de não acreditar nisto, apresentou uma de suas atuações mais honestas e divertidas. Talvez por ser tranquila, sem grandes gritos. Ele conseguiu fazer de Agastya o líder carismático que dele se esperava. Posso estar esperando demais do futuro de uma história de falsos ETs, porém fiquei com a impressão de que este filme será como Tashan: rejeitado no presente e com status cult a longo prazo. 

É uma pena que tenham deixado de acreditar no filme tão cedo. Gostei de assisti-lo e além de todos os fatores já citados, sua curta duração também faz dele um bom entretenimento. Mas é um filme do Shirish Kunder. Público e crítica nunca foram seus amigos, então alguma coisa no trabalho dele não funciona para a maioria das pessoas. Se quiser dar uma chance a Joker, é bom ter isto – e um pouco de apreço por maluquices - em mente.
Sim, o filme é dela!

Após a notícia do estupro coletivo na Índia, eu não queria nem chegar perto de Bollywood. Não acho que a indústria seja causadora de todos os males da humanidade, porém  me irritava cada vez mais toda aquela perseguição às mulheres que vejo nos filmes. E eu não estava solitária naquele sentimento de crescente afastamento. Pedro, meu bolly-dost que nunca desanima da indústria, também não andava conseguindo assistir a nada. Decidimos ver o filme juntos para tentarmos retornar ao lar.

Foi aí que Aiyyaa nos salvou. Ok, exagero. Foi quando resgatou o carinho que sempre sentimos por Bollywood. Essa comédia louca, divertida e com uma Rani mais animada do que bloco de Carnaval me fez rir, dançar, flutuar a cada segundo de Mahek Bhi e até arrancou uma lagriminha solitária no final. Isso só prova a falta que essa mulher estava fazendo na minha vida na indústria.

Welcome to LaLaLand, Prithviraj!

Ela se vestiu de tudo que é possível.

Mere sapno ki Rani Mukerji interpreta Meenakshi, bibliotecária de uma faculdade de Artes. Enquanto sua mãe tenta casá-la a todo custo, Meenaskhi vive no seu mundo particular, no qual constantemente sonha que é a Madhuri, a Sridevi ou a Juhi Chawla (sim, ela curte muito os anos 90). Influenciada por este mundo tão bollywoodiano, ela sonha em encontrar seu grande amor, coisa que não acha possível obter nos casamentos que sua mãe tenta arranjar. É em seu trabalho que se apaixona à primeira vista por Surya (Prithviraj), artista com uma vida misteriosa e um cheiro hipnotizante. Enquanto dispensa os pretendentes que sua mãe lhe arruma, Meenaskhi segue os passos de Surya por todo canto para tentar conhecê-lo melhor e concretizar seu amor.



Além de já ser ótimo o filme ser guiado pelo ponto de vista da heroína, Meenakshi é fantástica. Ela sabe exatamente o que quer e vai atrás disso, mesmo que seja de modo torto e nada direto, como aprendeu pelos filmes. Ela não puxa conversa, mas segue o herói. Ela não fala com ele, mas inventa uma história escabrosa para tirar informações de sua mãe. Não confessa seus sentimentos abertamente, mas tenta aprender a falar tâmil para que ele a note.  Para uma pessoa razoável, o caminho é como Surya ensinou: se quer saber algo, pergunte. Só que ela não é dessas. Exatamente como os heróis de seus filmes, Meenakshi é perseguidora e não conhece limites. Por que não me incomoda como os heróis stalkeadores? Porque ela foi apresentada como realmente é: louca e sem um pingo de noção. Seus métodos esquisitos de flerte não são considerados exemplos de como se comporta uma pessoa verdadeiramente apaixonada, e sim como fruto da sua esquisita visão de mundo.



E é por ver o mundo de forma tão esquisita que Meenaskhi se envolve nas situações mais improváveis, que trazem o tal humor do filme. Acredito que a discussão maior em torno do filme seja por ele ser ou não engraçado, já que seu humor é simples, pouco (ou nada) apelativo e até bobo. Minha reação? Nunca tinha rido tanto em 2013 quanto na noite em que o assisti. Aliás, é provável que eu nunca tenha rido tanto com uma comédia indiana. Ainda não entendi por que chorei de rir quando o irmão de Meenakshi disse que as drogas são um tipo de cocaína (e é claro que rio ao digitar isto), ou quando Meenakshi achou que o maravilhoso odor de Surya era devido à cocaína. Mas entendi que a maioria das minhas risadas vinha da sensação de que o diretor e o roteiro estavam zombando da minha experiência com romances indianos. A todo momento, Meenakshi olhava para o nada e fazia um discurso dramático sobre seus sofrimentos. Quantas vezes já não vi isso? Só que a vida dela não tinha nada de muito dramático, o que era ressaltado pela súbita interrupção da trilha dramática ao fim de suas falas. Eu estava sempre esperando pelo de sempre: que ela se apaixonasse por seu doce noivo, Madhav, que Surya a notasse em um momento mágico e encantador, que a mãe de Surya a amasse...eram tantas expectativas baseadas no costume. O curso do filme não apenas as contrariava, como também me trollava.

          
Ah, ela tropeçou!
   Que lindos, se olhando amorosamente...*-*

SÓ QUE NÃO

O contraponto à personalidade esfuziante de Meenakshi é Madhav, seu carinhoso e tranquilo pretendente. Ele acaba se apaixonando pela personalidade dócil que a moça tem de mostrar aos pretendentes, o que a desespera. Ele é exatamente o que ela deveria ser e como sua mãe a descreveu em um anúncio de jornal: calmo e tímido. Seria excelente marido para uma mocinha que quisesse se casar acima de tudo, mas Meenakshi queria bem mais que isso. Ela queria beijos no pescoço, danças ensandecidas, passear, pular e se divertir. Para infelicidade de seus pais, Meenakshi tem consciência de seu próprio corpo e sexualidade. Ela sabe o que a atrai e não está disposta a "se adaptar" só para casar.

Nisso que a moça fica pensando quando está noiva, tssssc

Prithviraj fez sua estreia em Bollywood no papel do ~desejado~ Surya. Parecia estreia de atriz do Sul em Bolly: personagem idealizado, poucas falas, mais para fazer vista bonita nos clipes que outra coisa. Eu gostei, até porque não gostei de pouca coisa no filme. Uma dessas coisas foi Mynah, a amiga bibliotecária de Meenakshi. Ela só bebe e pensa no John Abraham. Seria uma alusão àqueles personagens cômicos que não fazem nada além de piadas sexuais? Ou às item girls, que só aparecem nos filmes exatamente para beber e falar de sexo? São hipóteses aleatórias, já que não faço ideia do que significava aquele ser estranho.

Amit Trivedi é um dos meus produtores mais amados e fazia um tempo que não ouvia seu trabalho. Dona Isa não curtiu muito, já eu caí de amores pela trilha, ou melhor, pelos clipes. Todas as canções me pareceram apenas divertidas no áudio e sensacionais no vídeo. A única que me fez sentir flutuando desde o início foi Mahek Bhi. Em cada audição, parece que estou tocando as nuvens com os pés.

Rani Smitha
Piadas simples, roteiro confuso, cores fortes, Rani brilhante, tudo me fez amar Aiyyaa. Apesar de ser um filme cômico que brinca com a ideia de romantismo como comumente é mostrada em Bollywood, ele ainda mantém uma suavidade terna e nos mantém apaixonados por Meenakshi e por seu homem dos sonhos. Talvez Aiyyaa tenha me tirado uma dúvida antiga: talvez o cheiro faça os heróis repentinamente passarem a seguir as heroínas sem parar. Vão dizer que não é uma explicação plausível? Só mesmo uma atriz como a Rani para me fazer rir e acreditar numa coisa dessas. Que ela nunca mais volte a se afastar de nós.
Adoro fim de ano. Época de pensar, rever minhas metas para o ano que se foi e escrever novas. Isto vale tanto para a vida quanto para minha relação com Bollywood.

O cinema hindi tem mudado bastante nos últimos anos. Ano após ano, fica difícil entender se a tendência é em direção a coisas novas ou a fórmulas batidas. Vejamos por 2011. The Dirty Picture, um filme impensável na carreira de uma "mocinha" há 20 anos, fortaleceu a posição da Vidya Balan como atriz que faz personagens femininas fortes que cativam o público. No mesmo ano, Ajay Devgan e Salman Khan fizeram rios de dinheiro com Singham e Bodyguard, filmes sem heroínas fortes e que resgataram o típico herói masala, macho e ainda muito presente nos filmes das indústrias do sul.

Essa mistura de estilos dominando as bilheterias me animou muito, já que se podia encontrar de tudo. Comecei o ano de 2012 animada, vendo de tudo que saía e ansiosa para os lançamentos de final de ano, que são os mais caros e esperados. O tempo foi passando, problemas surgindo, muita coisa triste para resolver e...bem, claro que fui ficando desanimada. Entretanto, não foi apenas minha vida pessoal a responsável pelo desânimo. A certa altura do ano, notei que maioria dos conteúdos que eu esperava parecia algo já havia visto.  Vejam só:



Madhur Bhandarkar, que tem fama de testes de sofá, falando sobre ~mulheres fortes e independentes~. Sentido, cadê? Bebo provavelmente faria alguma coisa como sexo fora do casamento (que drama, gente) e beber, isso seria considerado mega transgressor e um ponto de virada em sua carreira. Não duvido nada que ela espere um National Film Award, assim como a Priyanka ganhou por Fashion (mistérios da vida). Minha sensação é de que eu iria apenas aplaudir a Bebo por ser poderosa, como sempre faço, e fim. Nada de novo.



Shahrukh Khan com quase 50 anos no mesmo papel que fez trocentas vezes aos 25. Quando lembrei que o filme era do Yash Chopra, até a curiosidade começou a morrer. Pensei em Silsila e temi passar 3 horas de vida assistindo a um absurdo justificado por alguma moral romântica ridícula como ~amor é fé, e a fé é para sempre~. Eventualmente assistirei, afinal, Shahrukh romanceando com mera Kat e Anushka-raio-de-sol não é algo descartável. Ah, quase esqueci! Descanse em paz, Yash ji.


Uou, eu estava animada. Bastante coisa! Adoro carros voadores, Rohit Shetty, cores fortes e Abhi na comédia - ou seja, tudo o que o filme prometia. Tive algum tempo livre entre uma aula e outra e pude assistir algo. Foi quando me perguntei: quero mesmo gastar meu tempo com mais um Golmaal? Descartando todas as piadas preconceituosas (i.e, 90% delas), a trilogia Golmaal me faz muito feliz. Só que não preciso de mais um filme quando já vi - e revi - três iguais.


Esse, eu nem sabia do que se tratava, mas era um dos que mais queria assistir no ano. Quando chegou o momento, parecia uma mistura de vários filmes de ação do Salman Khan. Provavelmente fiz um julgamento sem sentido, mas o resultado foi o mesmo das outras situações: desisti temporariamente. O mesmo se aplica a Dabangg 2.


Tenho quase certeza de que vou assisti-lo e adorá-lo, já que é este o efeito dos filmes do Ranbir sobre minha pessoa. Ainda assim, os trailers me remetiam à persona Chaplin do Raj Kapoor, vovô do Ranbir. Associados à presença da Priyanka - cuja atuação anda me irritando -, os pequenos motivos foram se unindo e até hoje estou enrolando.


A série Khiladi é MUITO divertida, mas...chega, né?

Há outros filmes que não vi, mas ainda mantive uma boa expectativa. Alguns, como Talaash, espero que sejam excelentes!


Como ano novo também é essa época gostosa de pensar no que deu certo, vamos falar do que gostei. Menção honrosa para dois não-favoritos que me fizeram passar horas agradáveis sentada no sofá:


Apesar de eu ter desistido gradualmente de 2012, uma parte dele me fez muito feliz mesmo, sendo todos filmes da primeira metade do ano. E cá estão meus filmes mais que favoritos do ano!

Kahaani, Agneepath e Rowdy Rathore: SEUS LINDOS.

Quando vejo meus favoritos, penso que vale a pena ver um mar de coisas chatas para encontrar uma única pérola que seja (brega, sim ou com certeza?). E como a boa amiga que sou, estou pronta para o que Bolly trouxer. Pode chegar, que a casa é sua, 2013!
Kamal Hassan era uma figura misteriosa para mim. Nunca havia sido citado em nenhum texto que eu lia sobre cinema indiano, até que repentinamente descobri não apenas sua existência, mas também que é um dos atores mais queridos e consagrados da Índia. Queria conhecê-lo há algum tempo e escolhi Moondam Pirai para isto porque 1) Sridevi está no filme (é sempre bom ter alguém “de casa” por perto) e 2) Kamal ganhou o prêmio de melhor ator do National Film Award por seu personagem. Quem seria esta maravilha escondida no mundo tâmil?


Moondram Pirai é a história de Bhagyalakshmi (Sridevi), moça que sofre um acidente de carro e desenvolve um estranho problema: sua mentalidade regride e passa a agir como se ainda fosse criança. Numa visita ao psiquiatra, é enganada por um homem, que a leva à uma casa de prostituição. Lá conhece Srinivas (Kamal Hassan), que havia sido levado ao lugar por um amigo. O primeiro contato entre ambos não é harmonioso, porém “Seenu” retorna e consegue levar a moça embora. Ele a leva para morar em sua casa e os dois desenvolvem uma forte relação de carinho, sem imaginarem o quão desesperadamente os pais de Bhagyalaksmi – que ele começa a chamar de Vijji – procuram por ela.

Dois fatores poderiam ter destruído o filme: a atuação da Sridevi como criança e o ritmo lento da história. O primeiro elemento já de cara me incomodou, pois a voz infantil da atriz e alguns maneirismos – movimentos das mãos, principalmente – são exagerados e caricatos. Não parecia uma criança, mas sim uma adulta tentando imitar uma. Acontece que Sridevi tem uma arma secreta muito eficiente para esta situação: os olhos. Seus olhos são grandes e brilhantes, perfeitos para mostrarem o medo ou a alegria de uma criança. Já o segundo fator que poderia ter destruído o filme, o ritmo, é complicado pela história. Há poucos grandes acontecimentos e muito tempo do filme é usado apenas para mostrar o cotidiano de Vijji e Seenu. No início é algo um pouco entediante, mas a dupla é tão adorável e o cachorrinho adotado por eles, tão fofo, que acabei sendo conquistada. 

Foi difícil entender os sentimentos e ações de Seenu. Ele nunca procurou os pais de Vijji, mas também não parecia estar agindo de má-fé, guardando-a somente para si. Aparentava não estar pensando em muita coisa. Apenas a levou para casa e seguiu vivendo, evitando dar algum passo mais decisivo que desfizesse o lar criado por ambos. Ele começou a amá-la, apesar de não tentar nenhuma aproximação para não assustá-la. Não compreendi o surgimento desse amor, já que ela pensava e agia como criança. Talvez ele amasse o que aquela moça tão bonita poderia ser. É fácil um rapaz solitário se apaixonar por alguém que passe a fazer parte de seu convívio diário.

Há alguém especial que deseja acabar com a solidão de Kamal: sua vizinha, interpretada por Silk Smitha. Foi meu primeiro filme da Silk e eu morria de curiosidade por conhecê-la desde The Dirty Picture (2011). Sua personagem corresponde ao estereótipo dos trabalhos da Silk apresentados em TDP: sedutora, cheia de desejo e a única do filme que tem alguma experiência de sexualidade. Ela mostra suas pernas, seu colo, qualquer coisa que servisse para incendiar o público. Em meio a um filme doce e simples, repentinamente aparecem Kamal e Silk dançando com pouca roupa e de modo selvagem. Passarei muito tempo procurando por algo mais surpreendente que isto:

Apenas ISTO.

As músicas não são marcantes, porém são agradáveis. É claro que a mais especial é a dos dois selvagens aí de cima, Ponmeni Urugute . Junto com Amitabh Bachchan saindo de dentro de um ovo, já está na minha lista de Clipes Imperdíveis do Cinema Indiano.

A falta de clareza sobre a condição psiquiárica de Vijji é um dos pontos mais fracos do filme. Não faço ideia se o problema dela é possível de acontecer, mas não me admiraria se fosse mais um dos fantásticos deewaneios do cinema indiano. Não apenas a doença, como também o tratamento de Vijji ficou nebuloso, passando da Psiquiatria tradicional a curandeiros. Ainda assim, o aspecto da relação entre a criança grande e o rapaz gentil, que é o foco por meio do qual a doença nos é apresentada, me agradou. O que se estabelece entre os dois é uma relação de confiança que não tinha nome - não era de pai e filha, entre irmãos ou amantes; era apenas amor. O que faltou foi movimentação, dado que o assunto do filme é interessante e daria margens a reflexões sobre a subjetividade de Vijji, por exemplo. Seria ela capaz de enxergar Seenu como parceiro e crescer mentalmente com isto? Sendo criança, não sentia falta de seus pais e estranhava passar tanto tempo com um desconhecido? O que esperava do futuro? E Seenu, o que planejava fazer após recuperá-la? Em que base se deu o surgimento do seu amor por Vijji, além da convivência? Todos esses são só alguns tópicos que poderiam ter sido abordados e deixado o filme mais rico.



E Kamal Hassan, o Sr. Mistério? Não me decepcionou, mas também não arrebatou. Seu personagem é muito quieto, diferentemente de como o imaginei. Não é a primeira vez que tenho a impressão de que um prêmio foi dado por uma cena específica do filme. E esta cena, no caso de Moondram Pirai, é uma das mais tristes que já vi. Parte o coração e é merecedora de todos os prêmios. Se não por outros elementos, o filme já valeria a pena apenas por ela. E é nela que Kamal consegue demonstrar seu potencial enquanto ator (aqui, para quem não se importa com spoilers).

Não me rendi aos talentos do Kamal com Moondram Pirai, provavelmente por o roteiro não permitir que o filme seja tão interessante quanto poderia. Ele e Sridevi fizeram o melhor que podiam com seus papéis, o que me garantiu umas horinhas de meiguice tamílista - o que não é suficiente, mas ao menos faz o filme ser ''assistível''. E doce, muito doce.
Acho que não gosto de um filme do Shahid Kapoor desde Kaminey. Ou seja, faz três anos que crio expectativas e termino frustada. É comum haver aqueles atores que caem em um projeto ruim após o outro, mas me incomoda ser este o caso do Shahid porque o rapaz é muito talentoso. Dá angústia vê-lo sendo a única parte boa de filmes que nem os roteiristas sabem por que escreveram. E apesar de ter consciência do quanto sou exigente com meus artistas favoritos, digo sem medo de ser infeliz que pelo menos 50% da filmografia do Shahid é um desperdício de tempo, dinheiro e talento.


Quando o projeto de Teri Meri Kahaani foi anunciado, o Shahid e a Priyanka estavam num dos momentos mais insuportáveis de suas vidas: estavam juntos. Ou melhor, quase juntos. Quero dizer, ninguém sabe! Davam entrevistas nas quais declaravam que não falavam sobre vida pessoal, mas depois iam ao Koffee With Karan ficar dando risadinhas um para o outro e dar a entender que tinham alguma coisa. Foi vergonhoso. Pareciam ter 12 anos de idade e uma tonelada de hormônios em ebulição. A última coisa que eu queria ver era um filme com os dois em três diferentes histórias de amor. Já não estavam chatos o suficiente em apenas uma? Dados o histórico não muito bom do Shahid, os filmes meio estranhos dirigidos pelo Kunal Kohli, meu desânimo com a atuação da Priyanka e o trailer com ar mais superficial do que eu esperava, a única coisa mais desanimadora que Teri Meri Kahaani era Mausam — e não é lá tão difícil ser mais animador que Mausam.


Como já disse, três histórias de amor guiam o filme: uma em 1910, outra nos anos 60 e a última, nos tempos atuais. A de 1910 mostra o amor entre Javed, um poeta boêmio e namorador, e Aradhana, filha de um homem sério que luta pela independência da Índia. A dos anos 60 nos traz o romance de Govind, um jovem simples e divertido que vai para Bombaim tentar a vida como guitarrista, e Rukhsar, uma estrela de cinema. Os tempos atuais são embalados pelo romance entre Krish e Radha, universitários indianos estudando na Inglaterra e que vivem a maior parte de seu relacionamento de modo virtual, pelos Facebooks e Twitters da vida.

Tudo começa pela história dos anos 60. O início é legal, com Priyanka fazendo uma diva um pouco mimada, porém simpática, e Shahid parecendo um adorável maluquinho. Entretanto, as coisas pareceram ficar um pouco "plásticas" rapidamente. O cenário contribuiu para isso. Pelo que entendi, foi utilizada computação para recriar a Mumbai dos anos 60, o que tirou a espontaneidade da história. Eles pareciam estar caminhando por um clipe retrô ou pelo cenário de uma peça de teatro, não pela cidade.

A Prachi não é uma gracinha?

Govind torna-se alvo do amor de Mahi (a sempre bonitinha Prachi Desai), que acredita ser correspondida. E não havia como não ser. Em plenos anos 60, Govind segura sua mão, anda com ela para todo canto, cria uma intimidade típica de apaixonados. O amor de Rukhsar por ele ficou mais claro desde o início, não deixa dúvidas. Como Govind tratava a Mahi de um modo parecido, sorrindo e brincando, dá para a gente se enganar e pensar que ele também gostava dela. Ou será que foi apenas comigo? Sou lenta para essas coisas, mas acredito que comportamentos signifiquem algo, e os do Govind pareciam informar à Mahi que ele a amava.

O desenvolvimento e o fechamento dessa história não tiveram muita emoção, então partamos para a próxima: a de 2012. Esta foi ainda mais falsa, mas alguns elementos me fizeram gostar dela. Krish e Radha se conhecem quando esbarram um no outro, trocam de telefones, ela o manda para a cadeia por achar que roubou seu celular e o tira de lá quando descobre que foi um engano. Depois ambos decidem passar o dia juntos, já que é aniversário dele e ela no mínimo tem que compensá-lo por tê-lo feito passar um tempinho na prisão. O que mais encantou nesta história foi o casal ter mantido o romance pela internet, mas o encantamento ter surgido no contato real. Apesar de todo o crescimento tecnológico e de haver tantas histórias de casais que passam anos se comunicando apenas por computador, acredito que não se deva perder de vista a sensação que a pessoa desperta em você quando estão frente a frente. Krish e Radha conseguiram reunir as duas coisas. Como nem tudo são flores, é difícil evitar o sentimento de vergonha alheia quando começa uma espécie de batalha virtual entre Krish e a ex-namorada. Aquele tipo de exposição pode até acontecer, mas essa história de exposição em telão e todo o mundo rindo é tão...falsa. Dá a impressão de que o Kunal estava escrevendo a história, não sabia muito bem o que dizer dos romances modernos e decidiu inventar qualquer coisa sobre ''aquele tal de Facebook, aquele site lá''. Não acho que ele seja um usuário frequente de redes sociais.

Por último, temos a história de 1910. Foi a de que mais gostei — e acho que o Kunal Kohli também, pois pareceu a mais bem cuidada. Shahid interpreta um Javed sem-vergonha, namorador e alienado, enquanto Priyanka traz uma Aradhana (adoro este nome) tranquila, inteligente e divertida. Ela é filha de um homem que luta contra o poder britânico sobre a Índia e por este motivo, nem ela e nem seu pai conseguem levar Javed a sério. Alguns acontecimentos fazem com que Javed seja pintado da cor do açafrão e dê importância à questões políticas que não lhe interessavam. É quando seu romance com Aradhana floresce, para logo ser interrompido.


Os diálogos, figurinos, musicais e até mesmo atuações da história de 1910 foram mais bonitos e exuberantes que os das outras duas histórias. Diálogos que se utilizam de ''batalhas poéticas'' costumam me entediar (à la Fanaa), porém neste filme tiveram um clima divertido e  me agradaram. Shahid e Priyanka pareciam estar se divertindo e bem à vontade em cena. Será o ar livre?

A trilha de Teri Meri Kahaani não é sensacional, mas alguns musicais poderiam ter tido mais brilho. O principal caso disto é Jabse Mere Dil Ko Uff (ótimos vocais de Sonu Nigam), canção divertidíssima e que remete ao melhor dos anos 60, como os musicais do Shammi Kapoor. Para alguém que dança tão bem e com tamanho carisma, Shahid poderia parecer mais inspirado. Quando ouvia a música, imaginava Shahid e Priyanka dançando muito e cores por toda parte. No lugar disto tivemos uma câmera dando voltas pelo salão. É questão de expectativa, pois passei semanas imaginando exatamente como desejava que o clipe fosse. Já Mukhtasar...bem, há gosto para tudo. Até para quatro minutos de Shahid e Priyanka se balançando sem motivo aparente. Sabem como é, clipe pra juventude. O melhor do filme é Humse Pyaar Kar Le Tu. Engraçado, romântico, colorido, alegre, enfim, tudo que a música prometia e um pouco mais. E ainda tem dança com lenços!


Cada história terminar quando já estava me cansando dela foi o trunfo do filme. Conheci aqueles casais de modo superficial, mas foi o suficiente para achá-los adoráveis. Priyanka não me cativou, mas também não desgostei de sua atuação. É que o Shahid Kapoor foi tão brilhante, estonteante e carismático que ela perdeu um pouco de espaço. O filme é dele. Estar perigosamente bonito não é novidade, mas carisma vai além disso. Seu trabalho corporal, expressões faciais e o modo de entregar cada fala fizeram o filme mais prazeroso de assistir, para além das inconsistências de Krish e de pessoas lendo tweets em voz alta (ônus de fazer filmes sobre vida virtual). Não é o romance mais inspirado do ano, mas Teri Meri Kahaani conseguiu me arrancar alguns suspiros.
Ao ver histórias como a de Paan Singh Tomar, fico em um estado de surpresa que me vem ao perceber como o mundo é repleto de pessoas vivendo de tudo. O filme é baseado em uma história real que tinha os elementos para ser simples e se perder em meio a tantas outras, como a minha e talvez a de quem esteja lendo este texto. Entretanto, alguns pequenos e inesperados desvios fizeram com que hoje possamos assistir a um filme sobre aquela vida, com Irrfan Khan como protagonista. A vida é realmente imprevisível.


Paan Singh foi um soldado do Exército indiano que adorava correr. Seu talento logo foi descoberto e ele se tornou atleta do Exército na corrida de obstáculos. Paan Singh ganhou várias medalhas e se tornou campeão nacional muitas vezes. Só que nada disso o ajuda na disputa por terras que mantém com seu primo, Bhanwar Singh (Jahangir Khan). Paan Singh pede ajuda às autoridades por todos os meios possíveis e deixa claro que sua família está sendo ameaçada de morte, mas seus apelos não são ouvidos. É neste momento que desiste de seguir as regras e forma uma gangue de rebeldes juntamente com outros familiares e amigos também ameaçados por Bhanwar Singh. A corrida se transforma e os obstáculos crescem.

Irrfan ♥
O Paan Singh construído pelo Irrfan é um homem com mentalidade tomada pelo militarismo: honra, disciplina e esforço guiam sua conduta. De início achei o personagem um pouco estranho porque parecia abobado, mas depois entendi aquele tom dado pelo Irrfan como característico da extrema simplicidade de Paan Singh. Ele e sua família não eram de trocar muitas palavras, não há nenhum grande discurso seu durante o filme (me lembrei de Vidas Secas). Paan apenas via o que tinha de ser feito e fazia do melhor modo possível, fim da história. Esta objetividade fez dele um líder respeitado, pois conseguiu conduzir bem sua gangue em direção a todos os objetivos planejados. Às vezes parece que membros das Forças Armadas desenvolvem uma "personalidade militar", com aquelas características de honra e disciplina que citei. É um modo de funcionamento que persiste até quando não está servindo em seus postos. Para azar da Justiça, Paan levou este modo de funcionamento até para sua vida de rebelde, o que justifica bastante sua eficiência.

Fora Bhanwar Singh, a esposa de Paan é a única pessoa de sua família a receber maior projeção na história. Mahi Gill fez uma esposa "turrona", mandona, daquele tipo "dura por fora e doce por dentro" que costumamos ver. Suas cenas íntimas com o marido não são repletas de palavras doces e românticas, mas fica claro que ambos se gostam. A esposa é como o marido: fala pouco e age bastante. A Mahi é uma atriz muito boa e vai a passos largos em direção à excelência. Mostrou versatilidade com esta personagem rústica.


A metáfora feita entre a corrida com obstáculos e a vida de rebelde de Paan Singh foi boa, mas discordei do personagem quando este "teve" que matar várias pessoas que traíram sua gangue. Perturbado, Paan tentava convencer a si mesmo e a nós de que não era um assassino. Com ou sem motivo, tirar a vida de outra pessoa é assassinato. E matar aldeões desarmados só enfraquece qualquer justificativa apresentada.

Dois membros da gangue se destacaram mais: o tio Matadeen (Imran Hasnee) e Gopi — interpretado por Nawazuddin Siddiqui, em quem presto muita atenção desde Kahaani (2012). Sua participação é rápida, porém brilhante e essencial para a resolução da história. Já o tio é uma figura paterna simples e sólida para a gangue. Tanto Imran quando Nawazuddin deixaram forte impressão, mesmo com o pouco tempo em cena. Bons atores sabem o que fazer, especialmente quando estão em boas histórias.


Como muitos estavam em polvorosa no Twitter na época da estreia do filme, criei algumas expectativas que Paan Singh Tomar não conseguiu suprir. Talvez eu esteja acostumada com aqueles filmes cheios de discursos e lições de moral, e este tipo de coisa me emocione mais. PST não é apenas sobre corrida, mas sobre o que a corrida significou nos vários pontos da vida daquele homem. Foi um hobby, se transformou em seu trabalho e terminou como a totalidade de sua vida — correr era sobreviver.

O filme foi dedicado a todos os atletas não-reconhecidos do esporte indiano. Nos ajuda a pensar no Brasil, que também não valoriza os atletas que engrandecem nosso nome aos olhos do mundo. É bom saber que ao menos a complicada história da vida de Paan Singh Tomar não vai se perder em alguma página esquecida da história do esporte mundial.
Vocês provavelmente já viram este comercial na TV:


 

A voz maravilhosa é de Mohammed Rafi e a música é  Jaan Pehechan Ho, do filme Gumnaam (1965). Este é o o clipe original:




No clipe, a banda é interpretada pelo grupo Ted Lyons and His Cubs. Eles participaram de vários clipes de filmes de Bollywood durante os anos 60 e vocês podem ler mais sobre eles no blog da Memsaab, que tem um incrível projeto de identificação de artistas da velha Bolly. 


Mas não foi por Gumnaam  ou pela Heineken que conheci Jaan Pehechan Ho. Soube de sua existência quando estava procurando músicas de Bollywood que fossem famosas no Ocidente e descobri que há um filme chamado Ghost World (2001) cuja abertura tem não apenas o clipe original, como também uma garota dançando ao som da música.


   


É fantástico terem descoberto uma música tão divertida para o filme, ainda mais sendo uma cantada pelo Rafi! E vamos todos dançar ao som de Jaan Pehechan Ho, que a vida é curta demais para desperdiçarmos Rafi.


Não consigo imaginar um meio de falar sobre este filme sem entregar a história. Pelo menos não tem como falar tudo o que quero. Da primeira até a última cena, Silsila é altamente discutível. Sendo assim, o alerta de spoilers está funcionando desde já.

Shashi e Jaya: não são uns lindos?

O filme é inicialmente a história de Shekhar (Shashi Kapoor), um piloto apaixonado por sua namorada, Shobha (Jaya Bhaduri). Ele é muito apegado ao irmão mais novo, Amit (Amitabh Bachchan), um jovem escritor. Shekhar só quer se casar quando o irmão também o fizer, e a oportunidade surge quando Amit se apaixona pela bela Chandni (Rekha). O mundo de todos cai quando Shekhar morre em um acidente de avião, deixando Shobha grávida e desolada. Amit assume a responsabilidade por Shobha e se casa com ela, partindo seu próprio coração e o de Chandni. Os dois não conseguem esquecer um do outro e começam a ter um caso, mesmo com ambos estando casados com outras pessoas.

Obs: A foto a seguir não tem nada a ver com o post e também não tinha com o filme, mas não havia como deixá-la de fora. Irmãos adultos tomando banho juntos e fazendo piadas sobre se abaixar para pegar o sabonete não é uma coisa que se veja todo dia. Ainda bem.



Yash Chopra é uma das figuras favoritas aqui do blog. Adoro escrever sobre seus filmes porque nunca consigo passar imune pelas loucuras deles. Há sempre muita confusão e lições de moral estranhas envolvidas por belos musicais e véus flutuando ao vento.

Yash uncle: mestre na arte de tapear morais tortas com belos cenários.

Como qualquer filme sobre infidelidade, Silsila é doloroso de assistir. Você sabe que em algum momento tudo aquilo será descoberto pelas pessoas traídas e passa o filme inteiro apreensivo. Bom, pelo menos comigo é assim. Começando pelo fato de que eu não sabia que o Shashi Kapoor estaria no filme e ao vê-lo, pensei que haveria uma história de amor bizarra em que ele começaria a ficar com a Rekha para se vingar de uma traição da Jaya com o Amitabh. Perversão em alto nível, eu sei. Mas eu precisava organizar aquele elenco todo em minha cabeça. Com toda a espera para ver o que seria do Shashi no filme, jamais imaginei que ele morreria. Poxa, a química com a Jaya estava tão boa! A química com o Amitabh também estava, apesar de eu ter a impressão de que o Shashi fica um tantinho histérico ao fazer papéis em que é muito amigo do Amitabh. Enfim, ele morreu e tudo virou uma loucura. Amit se casou com Shobha por algum sentimento que é uma mistura de obrigação, honra e respeito. E céus, isso foi terrível. Odeio quando uma mulher fica grávida no cinema indiano e fica desesperada porque ninguém vai se casar com ela e sua vida acabou. Neste contexto, podemos interpretar que Amit teve um ato de heroísmo ao impedir que a vida de Shobha fosse destruída?! O quão estúpido e cruel é um meio social que põe uma mulher nesta posição totalmente vulnerável por não ter um homem ao seu lado?

Após o casamento, Amit não parecia estar fazendo nenhum esforço para que aquela união funcionasse. Não que fosse grosso ou desrespeitoso, mas ficar tratando a esposa como se fosse apenas seu enfermeiro e provedor também não ajudava muito. Ela ficava magoada quando ele fazia algo gentil por ela e dizia que era uma obrigação (com a ressalva de que talvez a legenda que tenha dado a entender isto). Como em todo drama bollywoodiano, as coisas sempre podem piorar. Chandni e Amit se reencontram. Yash (já somos íntimos) tentou mostrar alguma espécie de eletricidade jamais perdida entre ambos, mas isto não me convenceu. Chandni é provavelmente um dos papéis mais sem expressão que a Rekha já fez na vida (não que eu tenha visto muita coisa dela). Sabem, aquela ali é a Rekha. Rekha, pelo amor de Helen! Ela tem aqueles olhos hipnotizantes, seu super batom vermelho e toda aquela energia que parece ser liberada a cada passo dado. É muito desperdício pegar isto tudo para fazer uma personagem que apenas fica suspirando por aí. Parece que tem algo dentro dela querendo explodir, mas não consegue. A Rekha é movimento, é poder, é fazer. É desanimador vê-la apenas chorando de saudades do Amit e depois sendo a esposa mais chata do mundo.

De alguma forma tenta-se mostrar que Chandni e Amit se amavam intensamente e que não podem mais resistir à força desse amor todo. E aí entrou meu primeiro problema, o mesmo que tive com Kabhi Alvida Naa Kehna: ninguém realmente tentou dar uma chance aos seus casamentos, exceto por Shobha e Anand (Sanjeev Kumar), o marido de Chandni. Se fosse há uns três anos, eu diria que "ah, mas o amor não deixa a gente pensar" e mais uma centena de frases parecidas, mas hoje não consigo pensar assim. Eles sabiam exatamente o que estavam fazendo e a quem estavam atingindo com suas ações. Posso até aceitar que talvez não conseguissem refletir sobre o quanto poderiam magoar seus cônjuges, mas tinham alguma consciência do que estavam fazendo. A pessoa não raciocina bem o suficiente para concluir que ter um caso não é algo legal, mas pensa muito bem em como marcar centenas de encontros às escondidas e subornar policiais fofoqueiros. Ok, sei que não estou analisando a complexidade de toda a situação, mas é que Silsila também não forneceu material o suficiente para tanto. Costumo achar os filmes do Yash meio pobres em desenvolvimento emocional, já que as coisas costumam ser justificadas com "o amor é tudo" e outras frases do tipo, mas neste filme não enxerguei isto (quer dizer, até a última cena). O ruim é que o filme ficou num meio caminho nebuloso: ao mesmo tempo em que não se utilizava nenhuma frase de efeito boba para justificar todas as cenas, também não houve uma boa explicação da confusão mental dos personagens. Parecia todo o mundo meio perdido, meio ao sabor do vento.


Muito climão, gente.

A melhor pessoa desse filme.
Anand me impressionou, é de certa forma uma personagem masculino até ousado para o cinema indiano. Ele sabia que estava sendo traído, mas estava disposto a perdoar o erro da esposa. Fiquei encantada quando ele disse que considerava sua esposa um ser humano, não uma escrava. Não que escravos não sejam humanos, mas o tratamento dispensado a eles não o é. E era assim que ele evitava agir com a esposa. Apesar de mostrar esta faceta tão legal de um personagem, o filme escorrega feio do outro lado da história ao colocar Shobha cantando "Você é o meu Senhor, sou sua escrava" para o marido. Pensei que fosse ser mostrado o quão ruim é se pôr nesta posição, mas não. Pelo contrário, o final do filme foi totalmente nonsense, absurdo, vazio e tudo o que foi mostrado até então foi repentinamente virado do avesso.  Como se justificou isso? Com a frase "Amor é fé e a fé é para sempre". Sério. E lá vem mais spoilers.

Spoilers Proibidões Amit não amava Shobha e morria de saudades de Chandni, certo? Shobha sentia falta dele e ficava magoada por ele não vê-la como mulher, certo? Sendo assim, que história foi aquela de gravidez? Enfraqueceu muito a ideia que eu tinha do Amit, além da própria reconciliação dele com a esposa. Se antes parecia que ele só estava com ela por obrigação, depois da história do bebê eu passaria a vida achando isso. Fim dos Spoilers Proibidões


"Uma rodada de climão pra todo
o mundo, por minha conta!"

A trilha do filme é sensível e muito bem adaptada a ele. O clipe mais sensacional é Rang Barse, que retrata um Amit bêbado flertando com Chandni diante de todos. O clipe mostra seus cônjuges desconfortáveis com a cena e eu também me senti assim. Muita tensão para um Holi só. Muitos clipes são baseados na poesia do Amit e tem um clima sereno, porém triste. As letras são de Javed Akhtar e já tem vida por si próprias. A trilha é de Shiv-Hari.

Tem um ponto que eu não queria abordar, mas seria falso da minha parte fazer isto, pois foi o que me levou ao filme. Jaya e Amitabh são casados na vida real e dizem que ele e Rekha tinham um caso na época do filme. Sendo assim, o filme mostraria uma tensão existente na vida real entre o trio principal. Bem, são rumores. Mas que rolou climão, rolou.

Nunca espero nada muito espetacular do Yash Chopra (a não ser esteticamente), mas este filme foi mais balde de água fria do que eu imaginava. Parecia que ele estava ousando e se deixando surpreender, para no fim destruir tudo o que havia construído e dar lugar às ideias a que estava acostumado. Quando não estou concordando com as coisas, mas a história é instigante, parece que o filme me fascina ainda mais porque fico tentando me deixar convencer. Silsila me prendeu até os 30 minutos finais e depois foi só decepção. Ainda assim, não consigo não gostar do filme porque pelo menos ele nos coloca para pensar e também nos deixa em constante tensão. Dica mental para minha próxima aventura com Yash: não se deixe enganar, porque ele não vai sair da zona de conforto.
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"DEEWANEANDO"?

Devanear = divagar, imaginar, fantasiar. Deewani = louca, maluca. Deewaneando = pensar aleatória e loucamente sobre cinema indiano.

Meu nome é Carol e sou a maior bollynerd que você vai conhecer! O Deewaneando existe desde 2010 e guarda todo o meu amor pelo cinema indiano, especialmente Bollywood - o cinema hindi. Dos filmes antigos aos mais recentes, aqui e no Bollywoodcast, seguirei devaneando sobre Bollywood.

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