Dilwale (2015)

"O que a Kajol está fazendo neste filme?" foi a pergunta que mais me fiz enquanto assistia a Dilwale. O diretor Rohit Shetty não esconde que faz filmes apenas para entreter. Sua série mais famosa, Golmaal, definiu um estilo que sempre me divertiu muito: cores fortes, piadas horrorosas e carros voando para todo lado enquanto um elenco gigante passa de uma cena louca e mal escrita para outra ainda pior. É previsível, estúpido e vergonhosamente divertido. Um prato cheio para quem aprecia o estilo, mas uma escolha estranha para uma atriz que limitou bastante sua gama de filmes após o nascimento dos filhos. Os últimos filmes de Kajol foram We Are Family e My Name Is Khan, e em ambos pudemos perceber que suas escolhas agora tendiam a ser para filmes em que tivesse bastante espaço em cena, onde houvesse personagens com conteúdo e bagagem nas quais pudesse aplicar as habilidades de atuação que muitas vezes foram desperdiçadas em romances com personagens de pouca importância para o curso central da história. Kajol está num ponto em que pode escolher quando sair de casa para atuar no que bem quiser, fato que dificultou bastante entender por que decidiu voltar após uma pausa de cinco anos para encarar Dilwale. Logo Dilwale.

"Você sabe por que estou aqui?"
Kajol é apresentada na última aventura de Shetty como Meera, mulher que tem um romance mal terminado com Kaali (Shahrukh Khan). Kaali atuava na vida do crime juntamente com seu pai e saiu daquele universo para cuidar de Veer (Varun Dhawan), seu irmão menor. Sua história com Meera foi interrompida de forma traumática e ambos decidiram nunca mais se ver, mas seu desejo é atrapalhado pelo romance de Veer com a jovem Ishita (Kriti Sanon). Não darei spoilers, mas se você tem um mínimo conhecimento de Bollywood já fica fácil imaginar como tudo se desenrola.

Shetty nunca primou pela sutileza. Em cinco minutos de filme aprendemos didaticamente que Kaali é um personagem emocionalmente perturbado, com bom coração e que aprecia imensamente sua família. Os laços afetivos entre personagens masculinos são figurinha carimbada em Bollywood e neste filme são representados pela ligação entre Kaali e Veer. O personagem de Varun Dhawan é o do bobo alegre e provavelmente foi a pior atuação que este rapaz já apresentou em sua vida. Em vários momentos é possível o espectador questionar se a intenção de Varun foi interpretar como se o personagem tivesse algum atraso intelectual. Seus recursos foram muitas bocas abertas, voz estridente e olhos constantemente arregalados. É o tipo de trabalho que me fez pensar que Badlapur foi uma alucinação que tive.

Kriti Sanon teve mais espaço neste post do que no filme
Infelizmente o resto do núcleo cômico não entrega nada muito melhor que Varun. Johnny Lever e Boman Irani, dois atores consagrados no gênero, parecem uma piada repetida muitas vezes - perderam a graça. Sei que é injusto reclamar da mesmice em Johnny Lever, já que seu trabalho de fato é como character actor: um coadjuvante que sempre é posto como alívio cômico ou excêntrico, na mesma linha de atores consagrados como Johnny Walker e Mehmood. Ainda assim, na Bollywood de hoje seu tipo de personagem parece datado. Quanto a Kriti Sanon, realmente não houve muito material para mostrar suas habilidades. Gostei muito de seu desempenho em Heropanti e estava animada para vê-la mais uma vez, mas seu papel aqui resume-se a ser escada para as estripulias de Varun Dhawan. Espero poder vê-la sendo menos desperdiçada no futuro.


Talvez o maior problema deste filme seja a tentativa de um diretor de comédia tentar equilibrar o gênero com um romance mais substancial. Rohit Shetty claramente não tem ideia de como criar ambientes emocionantes para seus momentos românticos, o que o levou a apelar para qualquer clichê disponível, como câmeras lentas, olhares profundos e suspiros. Gerua foi provavelmente um dos piores clipes românticos da carreira de Shahrukh Khan, com cenários artificiais, vestidos esvoaçantes para Kajol e muitas poses. A artificialidade é tão gritante que em alguns momentos parece uma paródia dos clipes românticos de Shahrukh. Infelizmente o clima também predominou nas cenas e diálogos, outro amontado de frases pouco inspiradas. A única coisa que dá um mínimo de credibilidade ao romance é a sintonia inegável entre Kajol e Shahrukh. Apesar de não desgostar da dupla, jamais vi a mesma graça nela que os fãs do casal costumam ver e apenas gostava deles como gosto de qualquer outro casal que o Shahrukh já tenha feito. Mas em Dilwale foi provavelmente a primeira vez que senti o efeito da combinação, pois ficou muito clara a cumplicidade entre ambos, traduzida em facilidade para nos convencer de um amor muito mal explicado pelo roteiro. Se não fosse por eles, seria impossível comprar essa história de amor. Fora isso, não houve muita coisa a aproveitar (talvez os carros voadores, estes sempre me deixam feliz).


Talvez sejam a familiaridade com seu par romântico e a amizade de longa data de seu marido, Ajay Devgn, com o diretor que acabaram fazendo com que Kajol decidisse estar neste filme. Mas acredito que não seja só isso. O roteiro de Dilwale é um dos maiores casos de desperdício de uma boa ideia no cinema indiano. O conceito do ódio entre ex-apaixonados, uma heroína com tanto lugar de fala e espaço em cena quanto o herói e, acima de tudo, um romance entre protagonistas mais velhos funcionariam muito bem com diálogos melhor trabalhados e um diretor mais adequado. No lugar disso recebemos um filme que claramente tenta se firmar em nada mais que o carisma e sucesso de seus protagonistas para vender mais ingressos. Dilwale é ação que não impressiona, romance que pouco emociona e comédia que não faz rir. Certamente Shahrukh Khan e Kajol mereciam mais que isso.

Aconteceu em Bolly





Alô alô, fofoqueiros de plantão! Vamos adicionar um pouco mais de cultura inútil às nossas vidas? Hoje temos uma atriz descontente, um ator ainda mais descontente, noivado desmentido, dinheiro devolvido e muito mais. Descubram o que aconteceu em Bolly!

Not happy

Farhan Akhtar está produzindo a série Inside Edge para a Amazon, na qual Richa Chaddha interpreta uma atriz que é dona de um time de críquete. Mesmo após Farhan negar que ela fosse a fonte de inspiração, a comparação com Preity Zinta foi inevitável por a atriz ser dona do time de críquete Kings XI Punjab. E ela não está nada feliz com a forma como a personagem de Richa é mostrada na série. Preity falou um pouco a respeito do assunto durante o lançamento de um aplicativo voltado para a proteção das mulheres.

"Parte meu coração que uma mulher tenha que passar por tudo isso e eu, com todo meu sucesso, trabalho duro e tudo o mais, também tenha que passar por isso. As pessoas farão programas, certo? Elas farão um programa de TV e dirão 'Oh, é baseado em críquete'. Elas mostrarão a mulher como a vadia! Certo! Elas sempre mostrarão a mulher como a vadia, elas nunca terão a coragem para mostrar outra coisa. Mas é o mais aceito, 'bata na mulher', 'viva dependendo dela'. Esta é a psicologia dos homens."

Preity Zinta e Richa Chadda
 Fonte: Bollywood Life.

É festa!

O IIFA 2017 está com os preparativos finais a todo vapor. A edição deste ano da premiação ocorrerá em Nova York e contará com um tributo aos 25 anos de carreira do produtor musical A.R. Rahman, além de apresentações musicais de Alia Bhatt, Salman Khan, Katrina Kaif e Varun Dhawan. A noite da premiação será apresentada por Karan Johar e Saif Ali Khan - duas das pessoas mais bem-humoradas de Bollywood. No mínimo será divertido! O evento ocorrerá no MetLife Stadium de 13 a 15 de julho.

Fonte: Hindustan Times. 

Nem tão cedo

Sonam Kapoor está namorando Anand Ahuja há pouco tempo e os boatos de que estaria noiva são frequentes. A atriz decidiu pôr fim às especulações pelo Twitter:



"Tanta coisa acontecendo neste mundo, mas a minha vida pessoal é tudo o que vocês querem cobrir... #nãoestounoivamesmo #arrumemumavidaperdedores

Fonte: Miss Malini.

Not happy - o retorno
 
Após os longos três anos de produção e mil adiamentos de Jagga Jasoos, o filme ainda consegue trazer novas polêmicas. O responsável desta vez é Govinda, que fez uma participação no filme que foi cortada da versão final. Em seu Twitter, ele esclareceu o acontecido:

"Eu respeito totalmente a família Kapoor. Fiz o filme porque ele [Ranbir] é filho do meu veterano, então peguei o roteiro. Me disseram que o filme seria narrado na África do Sul  e nem cobrei pela minha participação, nem fiz contratos. Eu estava doente e sob medicação, mas ainda assim viajei para a África do Sul e gravei a minha cena. Houve várias histórias negativas apenas sobre o Govinda e é assim que esse filme foi lembrado durante três anos. Fiz meu trabalho como ator e se o diretor não ficou feliz, a decisão é completamente dele."

A participação cortada de Govinda em Jagga Jasoos
 Ranbir Kapoor veio a público e assumiu a culpa pelo problema.

"Infelizmente a sequência inteira foi cortada; a culpa é nossa, do [Anurag] Basu e minha. Nós iniciamos esse filme prematuramente, sem um roteiro completo. O personagem mudou completamente e o filme estava demorando muito. É muito irresponsável e muito injusto escalar uma grande lenda como o Govinda e não fazer justiça ao seu papel. Nós pedimos desculpas, mas foi a melhor coisa para o filme, então tivemos que tirar aquela sequência."
 
Fontes: DNA India, Miss Malini.

Substituição

Os filmes que seriam estrelados por Fawad Khan tiveram que buscar novos atores após o banimento de paquistaneses na indústria. Um deles seria Raat Baaki, no qual Fawad atuaria ao lado de Katrina Kaif. A produção de Karan Johar substituiu Fawad por Salman Khan e o roteiro está sendo adaptado para adequar-se mais a Salman.

Está aí uma substituição das mais esquisitas.

Fonte: Miss Malini.

Apoio fraterno

Lembram da notícia sobre a Katrina Kaif tornar-se produtora para lançar a carreira da irmã, Isabelle Kaif? Não era verdade. Katrina acredita que seria uma péssima ideia porque ela não é produtora e esse movimento provavelmente faria as pessoas acreditarem que ela mesma produzir foi a única forma de sua irmã conseguir fazer um filme.

Mesmo assim, Kat está ajudando a irmã como pode e enviou as audições de Isabelle para o produtor Aditya Chopra e a diretora de elenco Shanoo Sharma, da Yash Raj Films.


Fonte: India Today.

Finalmente

Segundo o jornal Hindustan Times, finalmente o diretor Guy Ritchie encontrou o ator para viver o personagem Aladdin nos cinemas. O escolhido foi o ator Siddharth Gupta, que estreou em Bollywood com Kuku Mathur Ki Jhand Ho Gayi no ano de 2014. A Disney não confirmou e nem negou a escolha. Será?



Fonte: Hindustan Times.

Ninguém sai perdendo

Tubelight não teve um desempenho bom para Salman Khan. O filme teve uma bilheteria de apenas 114.50 crores, bem menos que Bajrangi Bhaijaan e Sultan, que arrecadaram mais de 300 crores cada um. O ator pagará 55 crores para compensar as perdas financeiras que distribuidores e produtores tiveram com o filme.



Fonte: DNA India

De volta pra casa

Lembram de Shenaz Treasury, atriz que participou do sucesso Delhi Belly? Ela passou alguns anos nos Estados Unidos, onde conseguiu bons trabalhos em novelas, filmes e séries, mas agora voltou à Índia e em breve será vista no filme Kaalakaandi ao lado de Saif Ali Khan e Vivek Oberoi.



Fonte: Hindustan Times.

Reunião

Quem mais está um pouco assustada com a ideia de Shahrukh Khan interpretar um anão no próximo filme do diretor Aanand L. Rai (Tanu Weds Manu)? Provavelmente não Katrina Kaif e Anushka Sharma, suas colegas de cena. O filme ainda sem título falará sobre o amor entre pessoas com deficiências físicas e mentais. O trio de Jab Tak Hai Jaan foi reunido para o filme, mas as duas atrizes não terão cenas juntas porque uma entrará quando a outra sair da vida do personagem de Shahrukh. Anushka interpretará uma moça simples de aldeia que é apaixonada pelo personagem de Shahrukh, que por sua vez será apaixonado por uma atriz interpretada por Katrina.

Não faço ideia do que esperar disso.

Aanand L Rai e Shahrukh Khan
 Fontes: DNA India, DNA India.

O eterno debate

Que Bollywood tem uma séria história com nepotismo, ninguém discute. Mas o assunto ultimamente tem sido tópico quase diariamente, com os atores sendo frequentemente questionados a respeito. O último a responder sobre a questão foi Ranbir Kapoor, que foi sincero e disse que é um produto do nepotismo - afinal, sua família está há 85 anos no cinema. O mais recente lançamento da indústria foi seu primo Aadar Jain, que em breve fará sua estreia.

Ranbir e Aadar Jain
Todo o debate sobre nepotismo começou quando Kangana Ranaut acusou Karan Johar de promover o nepotismo durante entrevista no talk show Koffee With Karan. Logo depois Alia Bhatt e Varun Dhawan, ambos filhos de diretores, declararam que eles também têm que trabalhar duro. Varun chegou a dizer que pensa que o nepotismo não existe e Alia declarou:

"Acho que um filho da indústria pode conseguir seu primeiro filme devido ao nepotismo. Mas constantemente conseguir filmes apenas por você pertencer a uma família do cinema não é possível. Não quero citar nomes, mas houve muitos exemplos de filhos e filhas da indústria que vieram e se foram sem conseguir nada." 

Kangana acredita que eles não consigam ver seus privilégios:

"Esses filhos de Bollywood sabem que leva quase 10 anos para construir um público e conseguir uma crítica? Esses filhos da indústria já começam de um ponto onde têm tudo e não estão cientes do fato de que para uma pessoa de fora, pode levar uma vida inteira para chegar àquele ponto de início."


"Eu consegui uma crítica após batalhar por 10 anos e ninguém se importava se eu estava viva ou morta antes de eu me tornar uma estrela. Uma pessoa têm que conquistar suas críticas, então você é privilegiado. Deixe-me pôr deste modo, não é culpa sua. Mas ao mesmo tempo, é uma democracia e não podemos deixar que as pessoas sejam segregadas dessa maneira extrema. Temos que garantir que todos tenham oportunidades iguais."

De que lado você está? Eu concordo com cada palavra da Kangana. 

Fontes: Masala, Times of India

Decisão tomada

Após boatos de que estrearia nos cinemas em um filme produzido por Karan Johar ao lado de Hrithik Roshan, finalmente Sara Ali Khan decidiu sobre seu primeiro filme. A estreia da filha de Saif e Amrita Singh será com o ator Sushant Singh Rajput no thriller Kedarnath, dirigido por Abhishek Kapoor. Sara terá um papel sem glamour. É esperar para ver se teremos um novo talento!



Fonte: Mid-Day.

Aniversário!

Kajol completou 25 anos de carreira e lembrou de como a indústria era diferente antigamente.

"Acho que nem fazíamos contratos naquela época. Havia apenas uma folha que assinávamos ao final de cada filme ou na época do lançamento, e isso se você pedisse. Houve filmes que fizemos sem contratos, apenas na base do aperto de mãos ou por sermos amigos, e não voltávamos a pensar nisso. Fizemos alguns filmes de graça, e sei que hoje em dia isso é chocante. Não cobrávamos um centavo e fazíamos o filme porque os produtores estavam tendo dificuldades para fazer o filme."

Com Kamal Sadanah em seu primeiro filme, Bekhudi
"A maioria dos atores fazia turnos de dia e noite para completar dois filmes ao mesmo tempo - pulando de um set para o outro. Era caótico, mas era divertido [ela ri]. Isto não é porque nos entendíamos melhor com os diretores ou éramos mais compreensivos naquela época. Isto é porque as pessoas agora perceberam que você não consegue fazer tudo. Naquela época, todo filme ia bem. Não acho que havia nada que você pudesse chamar de um grande fracasso. Eram uma época  e um lugar diferentes e todos assistiam a tudo porque não havia outra forma de entretenimento. Agora as pessoas são mais conscientes sobre o que estão fazendo e o que estão dizendo, dentro e fora da tela."

Outra grande mudança é a raridade dos multi-starrers hoje em dia, que eram filmes com muitas grandes estrelas no elenco.

"Ninguém tem mais tanta confiança na outra pessoa para fazer um multi-starrer. É por isso que estou dizendo que definitivamente ocorreram boas mudanças, mas também há mudanças não tão boas. Naquela época, todos eram amigos e se conheciam. Éramos todos companheiros. Conhecíamos as famílias, esposas e filhos uns dos outros. Agora, repentinamente é tudo sobre eu, mim, e eu mesmo...muito mais sobre "eu" como uma marca. Vou trabalhar com outra pessoa? Isso afetará o valor da minha marca? A outra pessoa irá me ofuscar? Então, sim, há muitas inseguranças e considerações a levar em conta agora."
 
A atriz também refletiu sobre mudanças no papel das mulheres na indústria.

"Se falarmos sobre empoderamento feminino, há uma grande diferença na indústria hoje. Temos mulheres em outras funções além de apenas heroínas. Isso por si só mostra o quão progressivo nosso país se tornou. Sempre acreditei que Bollywood tem sido uma das indústrias mais progressivas do mundo. Nós não temos divisões. Nós de fato damos trabalho à pessoas que são talentosas. Temos diretoras mulheres. Há mulheres cuidando das câmeras, funcionárias da produção que são mulheres. Isso é um trabalho difícil que provavelmente faria os homens olharem e falarem 'Sério? Produção?'. Tudo isso é algo pelo qual nós, enquanto indústria, temos que nos orgulhar".

O multi-starrer Kabhi Khushi Kabhie Gham
 Fonte: DNA India.

E por hoje é só. Até a próxima!

10 títulos de filmes de Bollywood inspirados em canções

A música é talvez a principal característica do cinema hindi. Ouvir as canções de nossos filmes favoritos nos transporta imediatamente às cenas vividas pelos personagens e ouvir uma trilha sonora é uma das melhores formas de criar expectativas para um lançamento. Bollywood tem orgulho de celebrar suas músicas e em muitos filmes podemos ver sequências com referências a canções antigas do cinema, mas as homenagens muitas vezes podem chegar até mesmo ao título da obra.

Ao longo dos anos e do contato com cinema antigo, fui notando que várias canções eram títulos de filmes mais recentes. Hoje trago a vocês alguns desses filmes e suas respectivas músicas originais, convidando-os a também celebrar as inspirações do cinema clássico.

1) Jab Tak Hai Jaan (2012)


O último filme do diretor Yash Chopra trouxe pela primeira vez um romance entre Shahrukh Khan e Katrina Kaif para as telas. O nome do filme veio da canção Haan Jab Tak Hai Jaan do clássico Sholay (1975), cujo clipe mostra o momento em que Basanti (Hema Malini) dança sem parar, até mesmo sobre cacos de vidro, para impedir que o vilão Gabbar Singh mate seu amado Veeru (Dharmendra).


2) Bachna Ae Haseeno (2008)


Rishi Kapoor dançou animadamente a canção em seu filme de 1977, Hum Kisise Kum Naheen, e não poderia imaginar que seu próprio filho reencenaria o número de dança anos 31 depois. A reedição contou com o áudio original de Kishore Kumar para o refrão da canção e manteve seu ritmo animado.


3) Jaane Tu...Ya Jaane Na (2008)



O filme de estreia de Imran Khan em Bollywood teve seu nome retirado do refrão da canção Tera Mujhse Hai Pehle Ka Naata Koi, do filme Aa Gale Lag Jaa (1973). Talvez o clipe mais fofo desta lista, é uma canção familiar apresentada pelo adorável Master Tito - a criança menos irritante de um filme indiano. E é sempre bom ter um pouco de Shashi Kapor em nosso dia-a-dia.


4) Yeh Jawaani Hai Deewani (2012)



Ranbir claramente gosta de homenagear seus familiares. Neste caso, o nome do filme veio da canção Yeh Jawani Hai Diwani do filme Jawani Diwani (1972). Seu tio Randhir Kapoor faz par com Jaya Bachchan e a persegue loucamente mesmo sendo rejeitado no animado clipe.


5) Dilwale Dulhania Le Jayenge (1995)


O clássico romântico que alçou Kajol e Shahrukh Khan ao status de superstars absolutos de Bollywood teve seu nome inspirado pela canção Le Jayenge, Le Jayenge do filme Chor Machaye Shor (1974), estrelado pelos belos Shashi Kapoor e Mumtaz. Quem sugeriu o título foi Kirron Kher, esposa de Anupam Kher - que interpretou o pai de Shahrukh Khan na história.


6) Ae Dil Hai Mushkil (2016)


O drama romântico de Karan Johar teve seu nome retirado de um lugar inesperado. Vem logo do primeiro verso da canção Yeh Hai Bombay Meri Jaan, parte do filme C.I.D. (1956). O musical é interpretado por Johnny Walker, um dos mais famosos atores cômicos da década de 50. Nele podemos ver cenas de uma antiga Bombay, quando ainda não era Mumbai.


7) Dum Maaro Dum (2011)


A icônica canção Dum Maaro Dum pertence ao filme Hare Rama Hare Krishna (1971) e apresentava o mundo dos jovens hippies e sua inserção precoce no mundo das drogas. Nada mais adequado ao filme de 2011, que tratou do tráfico de drogas em Goa. Uma nova versão da música foi inserida no filme e nem ela ou o clipe estrelado por Deepika Padukone agradaram ao pública ou à crítica, que consideraram que a nova versão não conseguiu fazer jus ao clássico cantado por Asha Bhosle.



8) Ek Main Aur Ekk Tu (2012)



A família Kapoor realmente gosta de homenagear seus membros, mas desta vez a missão ficou a cargo de Kareena. O título de seu filme foi retirado da canção de mesmo nome do filme Khel Khel Main (1975), que apresenta seus tios Rishi Kapoor e Neetu Singh romanceando ao som da canção que eles consideram ser a música do casal.



9) Om Shanti Om (2007)



No filme de Shahrukh Khan já podemos ver no início o próprio Rishi Kapoor interpretando a clássica canção do thriller Karz (1980). Semelhante ao visual que vimos na canção Bachna Ae Haseeno, percebemos que Rishi Kapoor estava em uma grande fase de roupas brilhosas. Nada contra.


10) Kabhi Alvida Naa Kehna (2006)


O drama conjugal de Karan Johar teve seu longo título inspirado pelo refrão da canção Chalte Chalte Mere do filme Chalte Chalte (1976). O clipe é um musical simples estrelado por Simi Garewal e Vishal Anand, mas a canção foi clássica o suficiente para nomear um dos filmes mais controversos da carreira de Shahrukh Khan.

Estes foram apenas alguns títulos das dezenas de filmes de Bollywood que prestam homenagem às canções clássicas do cinema indiano. Surpreendeu-se ou lembrou de mais algum? Deixe nos comentários!

Raees (2017)

Shahrukh Khan tem seguido caminhos inesperados em tempos recentes e, após anos de muitos romances, inovou ao escolher papéis diferentes e desafiadores. O primeiro passo foi dado em Fan, um dos melhores e mais subestimados filmes de 2016 - sobre o qual estou devendo uma resenha. Nele, pudemos ver novas nuances do trabalho de Shahrukh e confesso que foi o filme que me lembrou da existência de um ator por trás da persona do herói. Após isso tivemos o sensível Dear Zindagi, que trouxe o superstar como um brilhante coadjuvante após tantos anos sendo a parte mais importante de seus filmes. Ver os dois trabalhos em sequência despertou o imenso carinho que tenho por Shahrukh, ator responsável pelo amor que até hoje me liga ao cinema indiano. Nunca fui muito boa com a palavra "incondicional". Não consigo ser fã incondicional de alguém. Preciso de trabalhos que mantenham a minha admiração, de atuações que me tirem o fôlego e sentir que aquelas quase três horas valeram a pena porque você estava lá, querido artista. Voltei a sentir um pouco disso com Fan e Dear Zindagi. Mas o sentimento realmente explodiu com força em mim após ver Raees.

 
Shahrukh Khan dá a vida ao personagem-título desse drama de ação que se passa em alguma década antiga e não informada, mas que acredito ser por volta dos anos 70. Raees é criado sozinho pela mãe no Gujarat, estado em que a lei seca divide espaço com a produção e comércio ilegal de bebidas. O negócio é tão naturalizado que crianças são utilizadas para avisar sobre batidas policiais aos gângsters e o pequeno Raees está inserido neste cenário desde o início da sua vida, quando entrega bebidas escondidas em sua mochila da escola para Jairag (Atul Kulkarni). O garoto cresce trabalhando para Jairag e conhece os lados mais sombrios da atividade quando decide ser independente e abrir o próprio negócio.

O Raees da infância (Shubham Chintamani) nos é apresentado como uma criança inteligente, insolente e determinada a fazer o que for necessário para alcançar um objetivo - como roubar os óculos da estátua de Gandhi quando sua mãe não tem dinheiro para mandar confeccionar os seus. E é nesta fase que o rapaz já institui que jamais se deixará ser humilhado por quem quer que seja, ao atacar um adulto que ousou zombar dele por usar óculos. A passagem da infância de Raees para a vida adulta é feita de forma brilhante numa cena que mostra o personagem praticando um ritual muçulmano de autoflagelação. Ao chicotear repetidamente suas costas ensanguentadas com uma expressão intensa, não precisamos de nenhuma fala para sabermos o tipo de filme que veremos. E é após esse brilhante momento de transição que conhecemos outros traços do personagem. Raees não é um gângster simples de se compreender. Tem valores morais e um senso de comunidade fortemente imbuídos em sua personalidade, mas não hesita em tomar atitudes como subornar policiais para manter seu negócio de bebidas em funcionamento ou espancar brutalmente àqueles que o chamam de quatro-olhos. Tanto o filme quanto o personagem são claramente inspirados nos filmes de ação de Bollywood dos anos 70, especialmente os do Amitabh Bachchan, como Deewar e Trishul. Mas o que torna o personagem profundamente interessante é não se acomodar confortavelmente no tipo de personagem que esse gênero de filmes deixou marcado na cultura popular. Raees não é um homem que parece estar sempre no controle e que já sabe o que fazer em todas as situações, como se tivesse nascido para o crime. Apesar da firmeza em suas decisões, sua forma de agir como contrabandista vai sendo moldada de acordo com as experiências que vivencia no meio. A primeira vez em que tem de matar para proteger seu negócio não ocorre sem momentos de dúvida e um forte sentimento de culpa. É este elemento de hesitação que é mostrado durante todo o filme e não em um grande arrependimento final, como ocorreu em outros obras, que traz um frescor ao contrabandista. Ele jamais duvidou que seu negócio fosse tão legítimo quanto qualquer outro, afinal foi isso que sua mãe lhe ensinou, porém ela também lhe disse que o limite era prejudicar o outro. Cada vez que se depara com obstáculos inerentes à atividade criminal que não dependem apenas de sua inteligência, Raees não passa por ele sem oscilar e questionar um pouco a pessoa em que está se transformando.


A construção psicológica de Raees é mais instigante do que ocorre em outros filmes de ação hindi, mas o lado violento do gângster segue perfeitamente a cartilha dos anos 70. Há pelo menos três sequências longas em que ele consegue vencer todos os oponentes de um recinto sem nenhuma ajuda externa. Pode causar estranhamento a algum desavisado que não conheça filmes indianos, porém não há novidade nesse exagero para nós, criados a leite com Dabangg. Ainda assim, não deixa de ser engraçado vê-lo assumindo uma alma ninja em qualquer momento de necessidade. Não fosse Shahrukh Khan o rei do estilo, nada disso convenceria. O ator construiu muito bem um certo ar de imponência e perigo necessário ao personagem e que dispensava o excesso do efeito câmera lenta em que Rahul Dholakia apostou. Todas as entradas, socos e movimentos bruscos de Raees foram alvos do efeito, o que tirou parte do dinamismo dessas cenas. 

É sempre um prazer imenso ver Nawazuddin Siddiqui em ação. Talvez ele seja o melhor ator em atividade na indústria (você pode ler mais elogios exagerados aqui) e estou muito feliz por ele vir sendo posto em papéis de coadjuvante com bom espaço em cena em filmes de grande projeção. O cinema paralelo é muito legal, porém é muito satisfatório saber que os públicos de todos os lugares da Índia têm acesso ao seu talento por meio dos filmes de grandes estrelas como Shahrukh e Salman Khan. Seu personagem é o policial Majmudar, o único ponto honesto de um sistema totalmente comprado pelos contrabandistas do Gujarat. Apesar de as intenções do personagem serem louváveis e Nawaz não dever nada em termos de atuação, o roteiro pouco coeso do filme acaba tirando sua força. Raees vai passando de um objetivo a outro durante a história e não se tem uma ideia clara do que ele deseja fazer ou ser e nem do quão grande ele é como gângster em comparação a outros. É como se fôssemos vendo várias crônicas em sequência sobre a vida de Raees: quando ele usou rotas marítimas, quando ele decidiu criar uma colônia, quando ele casou, quando decidiu enfrentar políticos. Não parece haver um fio condutor entre as histórias e esta ausência acaba tendo efeito sobre a jornada de Majmudar: por que Raees é tão importante para ele? Não há outros grandes contrabandistas a se perseguir?


Outro ponto que contribui para pouca coesão da história é a confusão temporal. Mahira Khan interpreta o interesse amoroso de Raees, a jovem Aasiya. Num curto espaço de tempo eles se casam, ela engravida, o negócio dele cresce monstruosamente, ela jamais aparece grávida, um bebê nasce, mil eventos se desenrolam e o bebê mal cresce. Muitos eventos parecem ocorrer em pouco tempo, o que enfraquece a ideia do negócio de Raees ter se tornado um império - será que tudo isso teria acontecido no espaço de nove meses? Por falar em Mahira, foi tão adorável vê-la estreando nas terras bollywoodianas quanto era acompanhar suas entusiasmadas entrevistas revelando como ela e a mãe são grandes fãs do Shahrukh. É triste dizer, mas sua Aasiya é quase dispensável. Ela apóia o marido, tem plena consciência de suas atividades de trabalho (o que é raro nas esposas desse tipo de personagem) e faz o que é possível para auxiliá-lo a manter seu poder e prestígio frente à comunidade. Mas é tudo tão pouco, tão não aprofundado, que sua participação decepciona. Nunca a considerei uma atriz de grande expressividade pelo que vi na série Humsafar, mas sua presença em cena costuma no mínimo ser eficaz. Em Raees, fica a impressão de que sua participação serve para embelezar os números musicais - o que ela faz muito bem, especialmente na belíssima Udi Udi Jaye, parte de uma boa trilha cujos ótimos musicais parecem forçadamente encaixados nos diversos contextos do filme. É uma pena que não tinha tido mais espaço, porém considero acertada sua decisão de trabalhar com um ator com a magnitude de Shahrukh Khan, pois mesmo com o recente impedimento de atores paquistaneses trabalharem na indústria, a visibilidade que terá no mercado internacional e no próprio Paquistão é imensa.


O resultado geral de Raees é um filme que se torna muito cansativo pela pouca coesão do roteiro e câmera lenta em demasia, mas que consegue segurar o interesse do espectador durante a maior parte do tempo devido à presença destruidora de um Shahrukh Khan inspirado e visceral como há muito não víamos. Mesmo com seu histrionismo habitual - que não incomoda em nada aos fãs - , há belos momentos de atuação encantadores de assistir, especialmente nas cenas finais. Pode haver uma grande injustiça nessa percepção, mas creio que Raees seja um filme essencialmente dominado pelo talento de Shahrukh Khan como protagonista e não tanto pela história em si. Se esse foi um sinal do tipo de personagem que veremos dele no futuro, já reservarei meu lugar na primeira fila.

Bollycast # 2 : As mudanças em Bollywood


O seu podcast sobre Bollywood voltou! Na segunda edição do Bollycast, a Isa do Mania de Bolly e eu (Carol) comentamos sobre as mudanças dos últimos anos em Bollwyood: novos filmes, releituras de gêneros e mulheres arrasando. Alguns dos assuntos comentados foram:

- Beijos em Bollywood
- Atrizes: mudando tudo.
- Atores: ainda apegados aos seus papéis antigos?
- O que diabos aconteceu com as músicas?

Não deixem de comentar suas ideias e impressões sobre os assuntos abordados. Do que você mais gosta ou não gosta nas mudanças mostradas em Bolly nos últimos anos?

Filmes citados:

7 Khoon Maaf
Bajirao Mastani
Band Baaja Baarat
Dear Zindagi
Dev.D
Devdas
Dhoom 2
Dilwale
Dilwale Dulhania Le Jayenge (DLLJ)
Fanaa
Heroine
Highway
Hum Saath-Saath Hain
Ishqiya
Jab Tak Hai Jaan
Laaga Chunari Mein Daag
Mohabbatein
Neerja
Ra.One
Raja Hindustani
Student Of The Year
The Dirty Picture
Wake Up Sid
We Are Family

Clipes citados (com links)

Munni Badnaam Hui
Saree Ke Fall Sa
Mhare Hiwda

Faça o download do podcast clicando clicando aqui ou clique no play para ouvir.

Bollywood e a máfia indiana



Um homem imponente, de vestes impecavelmente brancas e dirigindo uma imponente Mercedes: Haji Mastan é considerado o primeiro elo da cadeia que até hoje une Bollywood ao crime organizado. Mastan era visto como um ícone pelos meninos pobres de periferia, que sonhavam em ser como o famoso contrabandista. Sua primeira ligação com a indústria do cinema surgiu através do surpreendente caminho do romance. Fã ardoroso de Madhubala, Mastan ficou impressionado com a semelhança da jovem Sona com a falecida atriz. O romance teve início e o contrabandista passou a investir nos filmes de sua amada, que posteriormente se tornaria esposa. A partir de então era comum vê-lo em festas da indústria  nos anos 70 acompanhado pelos grandes atores e produtores do seu tempo, como Dilip Kumar, Raj Kapoor e Dharmendra.

Haji Mastan e Sona

Apesar de criminoso, Haji Mastan não era um homem temido e diz-se que jamais matou uma pessoa. O contrabandista mantinha relações elegantes e respeitosas com outros grandes líderes criminosos de sua época, como Karim Lala e Varadarajan Mudaliar. Tamanha tranquilidade não caracterizou as futuras relações entre a máfia indiana e Bollywood, graças ao sucessor de Mastan. Dawood Ibrahim foi o homem que mudou drasticamente o nível de violência do submundo com sua poderosa organização criminosa, a D-Company. Seu império criminoso nos anos 80 e 90 foi marcado por assassinatos implacáveis e busca de extrema lealdade por parte de seus capangas. Um erro governamental foi responsável pela escalada do poder da D-Company e do crime organizado em geral: uma regulação governamental impediu que o cinema fosse financiado por meios legítimos. Sem mais poder contar com empréstimos bancários, os produtores de filme passaram a buscar desesperadamente por fontes alternativas de financiamento.

Dawood Ibrahim ao lado de Anil Kapoor
Bollywood provou-se um lugar proveitoso para a máfia, pois serviu como um meio de lavagem de dinheiro. Além do investimento na produção de filmes em si, também é possível lucrar com os direitos de distribuição internacionais, com a pirataria e com a extorsão - atividade que mais prejudicou e até hoje assombra as estrelas de Bollywood. Uma das primeiras e mais significativas vítimas da expansão do crime organizado foi o produtor musical Gulshan Kumar, assassinado com dezesseis tiros em plena luz do dia quando saía de um templo em Juhu no ano de 1997. Seu crime foi recusar-se a gravar canções de Nadeem Saifee, que possuía ligações com Dawood Ibrahim e planejou o assassinato do produtor.

Com o aumento do poder sobre a indústria cinematográfica, a máfia indiana expandiu seu controle até mesmo para o conteúdo produzido. Dawood Ibrahim ordenou que muçulmanos não fossem apresentados de forma negativa em nenhum filme, chegando ao ponto de Kamal Hassan ter que alterar cenas de um filme sobre um conflito histórico entre hindus e muçulmanos para obedecer à regra, mesmo às custas de o roteiro ficar historicamente incorreto. Assim como outros de sua geração, Madhuri Dixit e Govinda já foram levados a estúdios para gravar cenas sob a mira de armas. A relação entre as estrelas e o submundo é tão perigosa quanto instável: ao mesmo tempo em que sofrem constantes extorsões, os artistas também são vistos frequentemente nas luxuosas festas dadas por criminosos ao redor do mundo.

Muitas atrizes se beneficiaram de suas conexões criminosas. Talvez o caso de amor mais famoso seja o de Monica Bedi com Abu Salem. Casos de amor não eram incomuns na vida de Salem, porém sua paixão por Monica foi tão intensa que o levou a fazer sérias ameaças a produtores e diretores para que a jovem atriz tivesse uma chance. E ele o conseguiu, levando-a a uma estreia tímida no filme Jaanam Samjha Karo (1999). Após isso, também conseguiu que ela estrelasse o filme Jodi No 1 ao lado de Sanjay Dutt - que estava irritado e queria sair do filme por ser par de uma atriz desconhecida, mas cuja opinião magicamente mudou após receber algumas ligações. Um dos romances que chegou mais longe foi o da atriz Mamta Kulkarni com o traficante internacional Vikram Goswami, chegando ao ponto de a atriz ser detida por tráfico de drogas.

Abu Salem e Monica Bedi
Mas não são apenas as atrizes que se beneficiam de suas ligações perigosas. Sanjay Dutt é o ator cujas relações com a máfia indiana mais foram especuladas até hoje. O ator foi preso em 1993 após terem sido encontradas em sua casa armas utilizadas nas explosões de Mumbai, a série de atentados a bomba mais destrutivas da história da Índia. As armas foram deixadas em sua casa por Abu Salem, criminoso ligado ao poderoso Dawood Ibrahim. Sanjay alegou que as armas estavam em sua casa para a proteção de sua família, porém foi acusado de terrorismo e passou alguns poucos anos na prisão. Ao mesmo tempo em que foi prejudicado por ela, Sanjay também soube usar suas conexões com a máfia para obter vantagens. Em 2004 foram expostas gravações de conversas telefônicas nas quais Dutt passa relatos das atividades de Bollywood para Chhota Shakeel, contando que Hrithik Roshan ligou para uma atriz - supostamente, Karisma Kapoor - e a insultou. Shakeel diz que Hrithik não durará muitos dias.

Sanjay Dutt preso em 1993

A venda de direitos de distribuição de filmes representou uma das atividades mais disputadas violentamente por criminosos. O blockbuster Lagaan (2001) é até hoje um dos maiores sucessos internacionais de Bollywood, especialmente por sua indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. As cifras milionárias chamaram a atenção da temida D-Company, que encontrou uma inesperada recusa dos produtores do filme a vender seus direitos. Para resolver a questão, a organização enviou uma equipe para matar o ator Aamir Khan, o diretor Ashutosh Gowariker e o produtor e distribuidor Jhamu Sughand. Felizmente a missão fracassou e os assassinos contratados foram presos em Bandra. O diretor e produtor Rakesh Roshan não teve a mesma sorte quando negou os direitos internacionais de Kaho Naa...Pyaar Hai (2001), filme de estreia de seu filho Hrithik, ao extorsionista Ali Budesh. Em 2001, dois membros de sua gangue deram dois tiros no produtor enquanto ele saía de sua casa. O ataque não teve a intenção de matá-lo, mas apenas de mostrar que ele não estava protegido.

A atriz Mandakini com Dawood Ibrahim
Há vezes em que o perigo mora mais próximo do que se imagina. Em 2001 o comerciante de diamantes e financiador de filmes Bharat Shah produziu o filme Chori Chori Chupke Chupke, estrelado por Salman Khan, Preity Zinta e Rani Mukerji. Os atores do filme receberam inúmeras ligações extorsivas vindas da máfia. O escândalo estourou e Bharat Shah foi a julgamento por suas ligações com o crime, especialmente com Chhota Shakeel, que teria financiado parte do filme. O produtor do filme, Nazim Rizvi, e seu assistente Abdul Rahim Allahbaksh Khan foram sentenciados a seis anos de prisão por facilitarem o acesso dos mafiosos às estrelas. Preity Zinta foi a única artista que não retirou seu depoimento quanto a ter recebido ligações extorsivas, tornando necessária sua entrada no programa de proteção a testemunhas. Atores como Salman Khan e Shahrukh Khan retiraram seus depoimentos. O ato de bravura fez a atriz ser nacionalmente apreciada.

O governo indiano concedeu o status de indústria à Bollywood no ano de 2001, o que significou a possibilidade de obter financiamentos por meios legítimos. Este movimento foi um dos grandes responsáveis pela queda da influência da máfia que dominou a indústria com pulso firme nos anos 90, além do maior número de investigações policiais e prisões. Não é mais tão comum ver atores trabalhando sob a mira de revólveres ou pessoas sendo baleadas à luz do dia, porém o laço entre Bollywood e o crime não será desfeito tão facilmente após tantos anos de dinheiro fácil por meio de extorsões. Ainda surgem notícias na imprensa sobre ameaças a artistas e outras figuras do meio. Na época do lançamento de Happy New Year (2014), estrelado por Shahrukh Khan, o produtor Karim Morani viu sua casa em Mumbai ser alvo de um tiroteio perpetrado por três homens em motocicletas. Eles teriam sido enviados por um mafioso como resposta à recusa de Morani em vender os direitos internacionais do filme, que ainda nem havia sido lançado. No lugar do tiroteio foi deixado um bilhete com os dizeres "SRK será o próximo".

Chhota Shakeel
Para uma indústria cujos filmes são baseados em valores familiares e em ideias ingênuas de amor e fraternidade, Bollywood manteve um flerte perigosamente longo com o submundo do crime indiano. Uma relação iniciada por necessidade financeira foi responsável por anos de ameaças, extorsões e assassinatos. A mesma mão que forneceu ajuda voltou-se contra a indústria para estrangulá-la. Não podemos imaginar quanto tempo levará para que esta relação baseada no medo tenha fim - talvez não seja realista esperar que algo assim de fato acabe. A única certeza é a de que os olhos do espectador que assiste a um filme esperando entretenimento e lições de vida nunca mais são os mesmos após saber tudo o que acontece em torno de um filme de Bollywood.