Deewaneando
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Hoje estréia aqui no blog a coluna Bollyfãs, que trará entrevistas com fãs do cinema indiano aqui no Brasil.

A primeira entrevistada é uma das mais antigas bollyfãs que conheço. Carioca, Isabela Lundeen tem 21 anos e acompanha o cinema indiano desde muito cedo. Além de escrever sobre o assunto, Isa vez ou outra legenda filmes.

Isa comanda o blog Mania de Bolly, além de ser co-autora do Kabhi Kabhie...Bollywood e do Cinema Indiano. Vocês podem encontrá-la comentando sobre as roupas do Ranveer Singh e outros temas na página do Facebook do Mania de Bolly.

Deewaneando: Isa, quando começou a se formar o sólido grupo de fãs de cinema indiano no Brasil, você era uma das poucas que já assistia os filmes há mais tempo. Como você conheceu o cinema indiano?

Isa: Então, eu tinha doze anos e nenhum conhecimento de cinema indiano além de Chori Chori Hum Gori Se (aquela música que se tornou viral por ter aparecido num filme ocidental, ela mesma), que eu sinceramente não associava a nada. Até que um belo dia minha mãe trouxe o filme Asoka para assistir em casa, já que uma conhecida havia indicado por se tratar do budismo. 

O filme terminou e ficamos imaginando que lição budista poderíamos tirar depois de tanto tiro, porrada e bomba com o Shahrukh, mas eu, que nem estava lá assistindo ao filme, fiquei de certa forma encantada. Havia algo diferente ali. E muito novo a nós duas (eu e minha mãe), tanto é que estranhamos muito as músicas, por exemplo, e alguns item numbers. Mas, no geral, nos encantamos. 

A iniciativa de baixar as músicas do filme não foi nem minha, foi dela, e com isso cheguei ao Youtube, pai de todos. No Youtube, fui começando a descobrir, pelos relacionados, músicas indianas de outros filmes e me apaixonando pouco a pouco por tudo aquilo. 

Anos depois, eu tinha assistido a no máximo mais dois filmes indianos - e a duras penas, porque era difícil encontrá-los em algum lugar. Até que cheguei à comunidade no orkut, que ajudou a tornar tudo mais acessível.


Deewaneando: Do que você gosta e desgosta no cinema indiano? Quais artistas e filmes lhe interessam?

Isa: Eu gosto, adoro, amo a sensação gostosa que só os filmes indianos podem trazer. As músicas, os momentos musicais, os clipes, os cenários. É tudo muito único, que até hoje não encontrei em nenhum outro lugar. Toda essa combinação de momentos sempre tornou o cinema indiano muito especial. Sem dúvidas, sou muito fã do trabalho do cinema indiano enquanto arte e poesia, principalmente no que diz respeito à música. Mas também sou mais que capaz de admirar o quanto a indústria anda crescendo e deixando de lado muitos clipes sem sentido e tornando as histórias um pouco mais coesas no todo. 

Gosto muito dos atores também. Não sei por quê, eles acabam se tornando seu mundinho particular. Aqueles indivíduos por quem você se interessa e sabe por que são especiais. Ou então aquele outro com quem você se surpreende por ser talentoso não só em dançar, rs.

Já falar do que não gosto é fácil também. O cinema indiano é o cinema do exagero. Às vezes, cai muitíssimo bem, para o romance, para o drama, para a comédia. Mas, também, às vezes, é inusitado até demais, ao ponto de ser entediante. Por esse motivo, não sou muito fã de masalas, por exemplo, ou filmes dos anos 80.

Confesso que gosto de muitos artistas porque não tem como não gostar! Mas certamente filmes com os seguintes vão me despertar a curiosidade: Vidya Balan, Farhan Akhtar, Rani Mukerji, Ranveer Singh, Ranbir Kapoor, Aamir Khan (nem sempre e nem tanto, mas sei que ele é genial), Madhuri Dixit e Amitabh Bachchan depois de mais velho. Claro que também tenho um carinho especial pelo Shahrukh - mas duvido um pouco da escolha de filmes do pobre homem ao longo da carreira.

Quanto a filmes, gosto muito de ver coisas... diferentes. O cinema indiano, justo pela abundância de filmes por ano, acaba se tornando muito igual, muitas vezes. Quando surge algo que, ao meu ver, é diferente, eu adoro. Filmes como 3 Idiots (tem como não amar?), Kahani, Talaash, Band Baaja Baaraat... Consigo ver a beleza dos clássicos (e adoro muitos), mas o apelo do novo é muito instigante pra mim.

Deewaneando: Voltando à comunidade do Orkut, como foi esse encontro com outros fãs?

Isa: Foi muito bom. Antes, era só eu a gostar. Eu e os indianos do Youtube, rs. E isso restringia as pessoas com quem eu podia conversar sobre cinema indiano demais. Com a comunidade, pude encontrar pessoas que conhecessem o cinema indiano, gostassem de atores, filmes e músicas em comum ou não. Ou seja, trouxe uma troca muito gostosa, de opiniões e gostos diferentes, de pontos de vista. Também de momentos de "tietagem" com nossos indianos que só nós conhecíamos e achamos lindos. Com nossas atrizes também. Enfim, foi muito importante encontrar um espaço com pessoas que gostassem do que eu gostava e que me acolheram tão bem. Não me sentia mais sozinha no meu gosto pelo cinema indiano e também aprendi muitas coisas novas, juntos trocamos muitas informações, notícias... Sinto falta de toda a integração com bastante gente como era no Orkut, mas até hoje procuro manter contato com os fãs como eu: afinal, quem mais vai me entender?

Deewaneando: Você tem um filho, o Dimitri (9 meses). Ele parece adorar uma bagunça. Já tem músicas favoritas?

Isa: Ih... Em relação ao Dimitri está difícil. Ele não quer sair da Galinha Pintadinha! Não sei também como vou fazer pra introduzir filmes indianos pra ele, visto que todos necessitam de legendas, mas ainda vou conseguir. Por enquanto, já cantei muito Jiya Jale pra ele - não me pergunte por quê, nem eu saberia explicar - e músicas de Devdas pra ele dormir. Ele estranhava bastante a voz da Shreya Ghoshal quando menorzinho, acho que por ser um pouco estridente.



Deewaneando: Já pensou em qual filme seria bom para ele começar?



Isa: Que pergunta difícil! Não poderia ser nenhum filme muito sério, ou que contivesse muito tiroteio, sangue, drama. Algo leve e engraçado, talvez... Algo como Rab Ne Bana Di Jodi ou o próprio 3 Idiots (que filme versátil!).

Deewaneando: Já são 7 anos como fã. O que mudou na forma como você assiste e entende o cinema indiano?

Isa: Tudo. Em primeiro lugar, a paciência. No começo, conseguia assistir de tudo e sempre queria mais. Hoje, dependendo do contexto, do tipo de filme, não consigo sair da primeira hora. Como vi o crescimento e amadurecimento de muitos atores famosos, começo a querer que todos sigam o mesmo patamar. 

Em segundo lugar, comecei a ter um senso crítico um pouco mais apurado pra certas questões que estão sempre logo ali nos espreitando em muitos filmes, como o machismo, que é gritante em muitos filmes. Por mais que seja uma questão cultural, não consigo deixar de refletir em cima disso.

Em terceiro e último lugar, justamente por causa dos motivos anteriores, por saber da capacidade do cinema indiano e dos atores e atrizes, não consigo assistir a todos os tipos de filmes mais. Ou assisto e não gosto. E por aí vai. Isso sem contar com os filmes dos quais só aproveito a trilha sonora, porque o filme em si...

Deewaneando: E que filmes foram esses que andaram decepcionando você?

Isa: Eu não vou responder em nomes, mas sim em épocas e atores: filmes mais antigos de atores como Shahrukh Khan, Aamir, Kareena Kapoor, enfim, deu pra entender a ideia, são bem chatinhos. Alguns regionais também parece que empacaram no tempo.

Deewaneando: Tem algum “prazer culposo” no cinema indiano? O que a faz sentir-se uma deewani?

Isa: Tenho alguns. Principalmente aqueles clipes que você procura não abrir na frente de ninguém porque você sabe que são bizarros demais (vide Amitabh vestido de mulher ou Akshay Kumar dançando de cigano). Também adoro filmes com interação com crianças, tipo Ta Ra Rum Pum e Thoda Pyar Thoda Magic (confesso que Rani Mukerji + Saif Ali Khan + crianças é uma combinação irresistível). 

O que me faz sentir uma deewani: o fato de ter entrado num restaurante, em plena Hollywood, dançando e cantando só porque ouvi Nazrein Milli tocando. Se isso não é ser deewani, não sei o que poderia ser.

Deewaneando: Nos dê quatro indicações de filmes: para conhecer o cinema indiano, para se evitar, para se apaixonar e outro para transformar sua visão sobre ele.

Isa: Pra conhecer: 3 Idiots. Sempre. Para se apaixonar: aposto em 3 Idiots de novo, e em Om Shanti Om. Para transformar sua visão sobre ele: pra quem acha que cinema indiano é só música sem conteúdo, filmes como Lage Raho Munna Bhai. Pra se evitar: até ser muito fã, passe longe dos filmes do Akshay Kumar ou dos masalas mais pesados como Singham e Dabangg.

Deewaneando: Agora manda um recado.

Isa: Queria mandar um beijo pra Helen. E pro Aamir. E pra minha mãe.

Para finalizar, meu nosso momento favorito: Koffee With Carol!


Melhor ator ou atriz? Ranveer Singh. Me julguem.

Pior ator ou atriz? São tantos...Preity Zinta.

O filme que todos amam, mas você odeia: Ram-Leela.

Um clipe: Tu Cheez Badi Hai Mast.

Defina as seguintes pessoas em uma palavra:

Aamir Khan: Malang
Parineeti Chopra: Versátil
Ranveer Singh: Futuro (marido)
Deepika Padukone: Sortuda
Shahrukh Khan: Passado
Kajol: Louca
Salman Khan: Masala
Sonam Kapoor: Morcego

O que você encontraria no quarto de...

Ranbir Kapoor? Alguma mulher aleatória.
Ranveer Singh? Euzinha.  Mentira, um guarda-roupa muito bizarro!
Kareena Kapoor? Ai... Sapatos, muitos sapatos. Ela tem cara de quem curte um sapato.
Aamir Khan? Um quarto bem confortável no qual ele possa, realmente, descansar e não pensar em trabalho!
Sonakshi Sinha? Vários itens de patricinha: esmaltes, maquiagens, tudo e um pouco mais.
Sanjay Dutt? Drogas.

Um artista de quem sente falta? Madhuri Dixit (em bons filmes).

Um artista que não faz falta nenhuma? São tantos também... Acho que a Kajol. (Sendo crucificada em 3, 2, 1...)

Um artista que você pegaria, outro com quem você casaria e um que você mataria? Pegaria: Randeep Hooda (culpa da Jo). Casaria: Ranveer Singh. Mataria: Uday Chopra.
Imtiaz Ali é possivelmente um dos diretores mais sensíveis do cinema comercial atual. O tratamento que dá às suas histórias mostra a preocupação com o desenvolvimento de seus personagens, que geralmente passam por várias mudanças ao longo das narrativas. Como qualquer ser humano, eles se decepcionam, apaixonam, desapaixonam, sofrem e se descobrem. É fácil se identificar com suas jornadas. 


Tive medo de não acontecer a mesma identificação quando li a sinopse de Highway. Parecia a história de alguém se descobrindo enquanto desenvolvia uma horrorosa síndrome de Estocolmo. Para me afastar do medo, lembrei de como me senti bem após cada filme do Imtiaz. Mesmo quando o filme não me agrada, saio com a sensação de que toda a equipe se empenhou muito para me apresentar os personagens. Com isto em mente, guardei o pensamento “não é só um filme sobre síndrome de Estocolmo” e encarei a obra.

Highway conta a história de Veera Tripathi (Alia Bhatt), uma jovem rica que é sequestrada na véspera de seu casamento. Ela é levada pelo bando de Mahabir Bhati (Randeep Honda), um jovem rude que tem verdadeiro ódio dos ricos. Enquanto tentam obter o dinheiro do resgate, os bandidos carregam a vítima em seu caminhão numa viagem pela Índia que acaba sendo transformadora tanto para eles quanto para Veera.

Filmes sobre viagens costumam usar a metáfora da jornada por uma estrada para representar a autodescoberta dos personagens. A ousadia do roteiro de Highway está em permitir que esse processo seja feito durante o drama de um seqüestro. O filme correu o risco de romantizar um crime e não ouso afirmar que isso não tenha sido feito. Entretanto, esse risco foi aliviado pela história de Veera. Ela não era apenas uma garota rica em busca de novas aventuras para acabar com o tédio do seu mundo de glamour. Sua história tem forte carga dramática e sua vida familiar de fato é aprisionante. Nada que possa ferir a imagem da família pode ser dito em voz alta, mesmo que isso custe a saúde mental de seus membros. O silêncio é a norma. Ter tanta dor como pano de fundo pode não justificar totalmente, porém ao menos auxilia a entender por que a jovem fica tão confortável com os bandidos. Eles têm falas sinceras. Com eles, nada é falso ou forçado e Veera sente que pode se soltar.


Além da atitude dos bandidos, as paisagens naturais da Índia também são responsáveis por transmitir a mudança em Veera. Não entendo absolutamente nada de cinema, mas algo no modo como foram capturadas as cenas de Veera ao ar livre parecia nos levar a entender que ela estava se libertando ao se unir à natureza. As cenas em sua casa eram sufocantes. Ao ar livre, ela passou a fazer parte de algo maior que a libertou. É impressionante ver Alia Bhatt conduzindo a transição da personagem com tanto cuidado. Este foi apenas seu segundo filme e o amadurecimento desde Student Of The Year provavelmente foi resultado do bom trabalho do diretor em livrá-la dos maneirismos típicos dos filmes mais populares e glamourosos e deixá-la em contato com suas emoções reais.

Descobrir o potencial de Randeep Hooda como ator foi outro presente. Ele sempre esteve escondido em papéis secundários e finalmente conseguiu mostrar que pode segurar um filme como protagonista. Mahabir é um personagem que pode causar desconforto. Seu ódio pelos ricos vem da exploração que sua mãe sofreu por parte deles durante toda a vida. Mahabir sabe que eles não se importam com pessoas como ele e também decide não se importar com suas vidas. Ver o que levou uma pessoa à vida do crime nos obriga a não fazer julgamentos fáceis. “Bandido” não é o suficiente para descrevê-lo. É apenas uma de tantas palavras possíveis para falar de um ser humano complexo. O próprio Mahabir tenta ser simplista e se definir como um bandido sem emoções, mas não consegue evitar de se encantar pelo entusiasmo bobo de Veera. Ele sabe que ela é ingênua e enxerga nas pessoas qualidades que talvez não estejam presentes, mas o que o assusta é pensar que talvez seja como ela o vê. Randeep foi hábil ao expressar o medo que isso causou em Mahabir. Ter alguém vendo através da sua “casca” e expondo sua vulnerabilidade pode voltar a trazer a dor que tanto se lutou para extinguir. Ter esperança é arriscar se decepcionar.


A trilha também é protagonista. Patakha Guddi é essencial no acompanhamento do processo de libertação de Veera, mostrando seu reencontro com a alegria. Gosto do ritmo dançante e ao mesmo tempo grandioso. A outra estrela da trilha é Maahi Ve, que traz de volta uma das vozes mais calmas e doces de Bollywood: a de A.R. Rahman, que também assina a trilha.


Qualquer pessoa que já passou por uma grande transformação ou que sente esta necessidade em sua vida pode se identificar com Highway. Apesar do uso de uma vítima de seqüestro para relatar essa transformação ser problemático, a história pregressa de Veera e sua vida familiar me fizeram dar crédito ao seu sofrimento. O trabalho sincero e visceral de Alia Bhatt e Randeep Hooda fez jus a uma história tão difícil. Com a permissão que todo amante de cinema indiano tem para ser brega, digo que é um filme tão bom porque toca o coração. A jornada de Veera e Mahabir fala sobre abraçar tudo o que há de bom e ruim em si mesmo e na própria história para ter a coragem de transformar o seu destino e assim, escolher novos caminhos. 

Profundo desde as dramáticas cenas iniciais até o delicado final, o filme é impecável e, ao menos para mim, inspirador. Há obras que nos fazem lembrar o poder que a arte tem de perturbar nossas emoções e afetar nossa forma de encarar o mundo. Highway é um dos melhores exemplos disso.
1. YOUTUBE



Já passou da hora de alguém fazer um canal no Youtube sobre cinema indiano aqui no Brasil. Infelizmente detesto vlogs e sempre vou preferir ler textos a ver vídeos, porém o mundo está mudando e a força do Youtube é muito grande. Tenho certeza de que se alguém bem legal produzir conteúdo de qualidade sobre cinema indiano para brasileiros, o negócio vai bombar com uma rapidez meteórica e haverá mais curiosos para conhecer esse universo.

2. CRÍTICA DE CINEMA ESPECIALIZADA



Eu e outras pessoas gostamos de escrever sobre os filmes, seus personagens e outras coisas que amamos, mas não há ninguém que entenda da parte técnica do cinema escrevendo sobre cinema indiano. A lógica do cinema indiano é bem diferente das dos outros tipos de cinema e nós perdemos muito em não saber como a parte técnica contribuiu para contar a história.


3. DISCUSSÃO SAUDÁVEL



Os fãs de cinema indiano reclamam bastante sobre a falta de grupos onde os filmes sejam de fato discutidos, para além do corpo desse ou daquele ator gato. Minha solução é sempre a mesma: criem seus próprios grupos e sejam rígidos nas regras. O que pode começar com meia dúzia de gatos pingados sem saber para onde ir pode se transformar num ambiente rico em discussões e ideias novas sobre as mesmas obras. Qualidade é sempre melhor que quantidade. Não se importem de serem chamados de pseudointelectuais: aposto que vai valer a pena.

4. LEGENDERS

Só quem legendou conhece o sentimento de finalizar uma legenda.

Vejo pouquíssimas pessoas dispostas a legendar os filmes desde que comecei a acompanhar a área. O que vemos em nichos mais famosos, como os grupos que legendam séries, é uma competição tão grande que acaba levando à disputa tanto pela qualidade das traduções quanto pela rapidez dos lançamentos. Se houvesse mais legenders, o processo de revisão ganharia importância e raramente veríamos traduções ao pé da letra. Sem contar que os legenders atuais ficariam bem menos exaustos por carregarem o mundo nas costas.

5. LIVROS e BLOGS


Sou bollynerd e não tenho mais vergonha de assumir isso. Consegui pela internet vários livros sobre a história do cinema indiano e sempre compartilho com quem me pede (pode pedir em deewaneando@gmail.com), porém a língua inglesa sempre será uma barreira para muitas pessoas terem acesso a esse conhecimento. Há muitos livros divertidos e fáceis de ler que oferecem um bom panorama dos filmes mais importantes e podem ajudar tanto os iniciantes quanto os que querem se aprofundar na área. O alcance que isso teria caso estivessem em português seria fenomenal.

Como nem todo o mundo gosta de encarar livros, os blogs seriam uma boa opção. O Ibirá fez um trabalho fantástico compartilhando conhecimento durante anos no Cinema Indiano, mas não pôde continuá-lo. Infelizmente seu papel de divulgador de informações ainda não foi preenchido e não temos quem nos ensine sobre o funcionamento da indústria, apesar de termos avançado imensamente no acesso aos filmes. Alguém se habilita?

Um extraterrestre é incumbido de explorar a Terra e conhecer os seres humanos. O controle remoto que o levaria de volta ao seu planeta é roubado assim que chega aqui. Ao procurar seu objeto, a todo o momento é informado de que só Deus pode ajudá-lo. Assim é iniciada sua busca por Deus para que possa voltar para casa. A história parece loucura pura. E é mesmo. Seja bem-vindo ao peculiar universo de P.K!.

Falar de religião não é fácil. Falar de religião na Índia é risco de morte. Em P.K., o risco é contornado ao tratar do assunto pelo olhar do E.T. Se o personagem fosse humano, talvez suas críticas fossem vistas de forma mais agressiva. Aamir Khan construiu seu P.K. com a curiosidade da criança aliada à capacidade analítica do adulto. Isso deu ao seu personagem um poderoso olhar antropológico: ele desmonta cada objeto, rito ou situação em suas mínimas partes. A diferença é que P.K. não apenas observa e relata. Ele busca sentido por trás de todas essas coisas e a missão fica especialmente difícil quando se entra no espinhoso e diversificado campo da religião.



A falta de sentido no que observa nas manifestações religiosas das diferentes crenças é apresentada com muito humor – e aí está o trunfo do filme. Ao tentar agradar a Deus, P.K.fica confuso: o hindu gosta de coco como oferenda, a igreja cristã diz que ele gosta de vinho e esse mesmo vinho é desprezado pelos muçulmanos. A primeira metade do filme é dedicada quase inteiramente a mostrar as confusões criadas quando você tenta se aproximar de Deus por meio de uma religião sem saber quais são as suas regras. Tenho rido mais das comédias indianas ultimamente, mas nada será capaz de me fazer engasgar de rir como aconteceu na cena em que ele leva oferendas hindus ao altar de Jesus Cristo ou quando persegue um ator vestido de Shiva pensando ter encontrado Deus.

A segunda metade do filme tem um foco maior em criticar diretamente os intermediários entre os fiéis e Deus. P.K. os intitula como “gerentes” de Deus e percebe que há profunda incoerência entre os pedidos dos fiéis e as respostas dadas por Deus através de seus gerentes. Faz algum sentido Deus aconselhar seu fiel a caminhar durante dias até um templo distante quando ele pergunta o que fazer para ajudar sua esposa doente? Pois é, P.K. também acha as respostas de Deus muito estranhas e hipotetiza que os gerentes estão recebendo mensagens erradas, como acontece quando ligamos para um número por engano. A repórter Jaggu (Anushka Sharma) percebe o poder dos questionamentos de P.K. e decide ampliá-lo colocando-o na TV. Uma onda nacional de denúncias a líderes religiosos se segue. À esta altura, a mensagem do filme é sobre a importância do pensamento crítico para não ser manipulado por exploradores da fé. Mensagem passada num filme indiano, porém sua universalidade é impressionante. Quantas vezes já não vimos essa discussão aqui no Brasil?


A cada ano que passa aumenta minha admiração pelo Aamir Khan. Sempre me impressionei mais com suas escolhas de filme do que com sua atuação. Seu apaixonante E.T. mudou minha visão. A alternância entre a comédia, drama e crítica social é tão suave que nem percebemos. P.K. é o esquisitinho que é impossível não amar. O restante do elenco também fez seu trabalho com competência. Anushka Sharma pode alterar o que quiser na boca (sim, Anu. Nós percebemos.), que nenhum procedimento estético diminui sua expressividade. É excelente atriz e nos faz comprar qualquer personagem. Fiquei feliz ao vê-la atuando com Aaamir e Boman Irani – que está bem bonito, por sinal. Uma atriz com seu talento merece estar perto dos grandes.

Bollywoodiano que é, o filme não poderia passar sem músicas. Meu destaque principal vai para Love Is A Waste Of Time, a adorável música sobre a inocência da descoberta do primeiro amor. Apelidei-a de "Zoobi Doobi Revival" pela enorme semelhança com o musical romântico do filme anterior de Rajkumar Hirani, 3 Idiots. Tharki Chokro é provavelmente um dos musicais mais engraçados que vocês verão e contrasta com a tristeza de Bhagwan Hai Kahan Re Tu. Esta última foi uma boa oportunidade para me lembrar da bela voz de Sonu Nigam.


Muito se tem discutido, em textos e até documentários, sobre a responsabilidade do humor. P.K. me fez perceber que o humor é uma das mais fortes armas que temos tanto para analisar quanto para transformar a sociedade. O assunto tratado com humor talvez nos deixe mais abertos a pensar do que um discurso sério e chato. Considerando as verdadeiras batalhas religiosas travadas na Índia, podemos concluir que Rajkumar Hirani fez um filme ousado e também necessário, um dos melhores da década. Não se espante ao sair do filme perdido em risos, lágrimas e pensamentos mais profundos do que você esperava ter com uma comédia que se inicia com um E.T. correndo nu.
Romance, ação, drama, cult, masala, terror, novo, antigo: o Deewaneando tem resenhas sobre diversos tipos de filmes. Clique sobre o nome do filme para ler a resenha escolhida.

A


Aag (1948)
Agent Vinod (2012)
Agneepath (2012)
Aiyyaa (2012)
Ajab Prem Ki Ghazab Kahani (2009)
Always Kabhi Kabhi (2011)
Amar Akbar Anthony (1977)
Anamika (1973)
Anari (1959)
Aradhana (1969)
Arth (1982)
Astitva (2000)


B

Bachna Ae Haseeno (2008)
Badlapur (2015)
Bajrangi Bhaijaan (2015)
Band Baaja Baaraat (2010)
Bandini (1963)

C

Chak De! India (2007)
Chandni (1989)
Chennai Express (2013)
C.I.D. (1956)


D

Deewaar (1975)
Devdas (2002)
Dil Dhadakne Do (2015)
Dr. Kotnis Ki Amar Kahani (1946)

E

Ek Main Aur Ekk Tu (2012)
Ek Phool Do Mali (1969)


F
Fanaa (2006)
Fire (1996)

G

Goliyon Ki Rasleela: Ram-Leela (2013)

H

Hamari Adhuri Kahani (2015)
Heroine (2012)
Highway (2014)

I

I Hate Luv Storys (2010)
Iti Mrinalini (2010)

J

Jab Tak Hai Jaan (2012)
Jawani Diwani (1972)
Joker (2012)
Junglee (1961)
Junoon (1979)

K

Kal Ho Naa Ho (2003)
Kala Bazaar (1960)
Karz (1980)
Khoobsurat (2014)
Konchem Ishtam Konchem Kashtam (2009)

L

Ladies vs Ricky Bahl (2011)
Lootera (2013)
Luv Ka The End (2011)


M

Mahal (1949)
Main Bhi Ladki Hoon (1964)
Mankatha (2011)
Mausam (2011)
Mera Saaya (1966)
Mere Huzoor (1968)
Moondram Pirai (1982)

N

Namastey London (2007)
Naseeb (1981)

O

Om Shanti Om (2007)


P

Paan Singh Tomar (2012)
Parineeta (1953)
Patiala House (2011)
Phir Bhi Dil Hai Hindustani (2000)
Piku (2015)
P.K (2014)

R

Ragini MMS (2011)
Ram Aur Shyam (1967)
Rangeela (1995)
Run (2004)


S

Saathi (1968)
Sahib Bibi Aur Ghulam (1962)
Sangam (1964)
Seeta Aur Geeta (1972)
Shikshanachya Aaicha Gho (2010)
Silsila (1981)
Sujata (1959)
Suraj (1966)

T

Taxi Driver (1954)
Tees Maar Khan (2010)
Tere Naal Love Ho Gaya (2012)
Teri Meri Kahaani (2012)
Thoda Pyaar Thoda Magic (2008)

V

Veer-Zaara (2004)

W

Wanted (2009)
Well Done Abba (2009)

Y

Yaadon Ki Baaraat (1973)
Yeh Vaada Raha (1982)

Z


Zindagi Na Milegi Dobara (2011)
Khoobsurat é uma daquelas milhares de comédias românticas que Bollywood lança todo ano e só assistimos quando não há nada de mais interessante na fila. Sonam Kapoor, um paquistanês desconhecido, produção da Disney...nada na lista de características do filme tem o menor apelo para mim. Na verdade, o fator Sonam é um repelente.


Após alguns meses afastada de Bollywood, queria ver algo fácil e doce. Decidi conhecer a história de Milli Chakravarty (Sonam Kapoor), fisioterapeuta recrutada para tratar o rei Shekhar Singh Rathore (Aamir Raza Hussain). A personalidade extremamente extrovertida da jovem enlouquece o cotidiano da tradicional e austera família Rathore, mas de alguma forma o sério príncipe Vikram (Fawad Khan) começa a se apaixonar por ela.


Para surpresa geral da nação, fui positivamente surpreendida pelo trabalho de Sonam. Parecia estar confortável com todos os colegas de cena, o que não aconteceu em seus outros filmes e sempre me incomodou. Minha impressão em seus filmes era de que os atores que faziam seus pais, namorados e amigos estavam em um lugar diferente do dela. Em Khoobsurat teve química especialmente com Kirron Kher, que interpretou sua mãe e com Aamir Raza Hussain, o rei ranzinza. Com o príncipe, brincou e abusou da atração entre os dois. É uma boa surpresa para quem se acostumou a vê-la indiferente aos seus pares.

O mau-humor do rei é responsável por demonstrar as características de Milli que devem encantar o público. O paciente é infeliz devido ao acidente de carro que matou seu filho mais velho há dez anos. A perda do primogênito lhe tira a vontade de viver e faz com que Milli seja a quadragésima fisioterapeuta a tentar tratá-lo. Seu diferencial é dar atenção ao lado emocional do paciente, então ela faz de tudo para alegrá-lo. Pedir ao príncipe para interceder junto ao pai, fazer corridas com sua cadeira de rodas e tomar vinhos com o rei são algumas de suas ferramentas terapêuticas. Sua constante animação poderia ser fortemente irritante, mas não foi. Sonam é uma atriz de pouca energia e isso acabou reduzindo a intensidade de Milli, tornando-a simpática. As atuações marcantes ficaram a cargo do elenco de apoio. Ratna Pathak esteve especialmente competente como a rainha obrigada a assumir sozinha o comando da família após o afastamento do marido. A personagem fica incomodada com a presença de Milli e é responsável pela disciplina do castelo. Conseguir a empatia do espectador apesar desses traços é mérito da atriz.


Nunca havia visto uma heroína no papel de fisioterapeuta e é grande a atenção dada ao lado profissional de Milli. Geralmente os filmes indianos apresentam profissionais femininas de forma superficial. Uma médica tem no máximo algumas cenas de jaleco ou uma professora é mostrada brevemente em sala de aula enquanto o herói a observa. Em Khoobsurat vemos Milli lidar com aparelhos, montar exercícios e a todo momento reafirmar seu compromisso profissional com os pacientes. Espero que seja mantida a tendência de mostrar mulheres como profissionais dedicadas e competentes.

Apesar de todo filme da Sonam ser uma nova oportunidade para descobrir se ela evoluiu, desta vez também havia curiosidade em conhecer seu par romântico. Fawad Khan é um ator famoso nas telenovelas paquistanesas e fez sua estreia no cinema indiano. O príncipe Vikram não é um personagem carismático e suas qualidades estão em atos pequenos, como atender ao pedido de Milli para tentar convencer o pai a fazer exercícios, salvá-la de um sequestro e permitir que ela o influencie a ser mais solidário numa negociação empresarial. Ele não muda por causa de Milli e também não exige que ela faça isso por ele. Muito pelo contrário; Vikram logo percebe que suas personalidades e papéis sociais são diferentes demais para que consigam ficar juntos e desiste de seu amor rapidamente. Fiquei especialmente satisfeita por não haver cenas de Milli falhando em adaptar-se ao novo mundo, clássicas neste tipo de filme. Fawad não teve muito espaço para mostrar diferentes nuances de seu trabalho, mas ao menos conseguiu convencer de que fazia parte da realeza. Não foi encantador, mas certamente estava agradável.

Cenário e figurino deram o tom do ambiente e dos personagens. Milli recebeu roupas e acessórios coloridos e confortáveis, o que contribuiu para expressar sua espontaneidade, assim como os figurinos elegantes da rainha Nirmala reforçaram sua imagem real. O castelo também foi adequado ao status social da família e à sua extrema formalidade. Foram utilizados tons sóbrios, iluminação escura e decoração tradicional. Foi um ótimo contraponto ao visual exuberante e juvenil de Milli.


A força de Khoobsurat está em sua convencionalidade. A proposta de adicionar o toque indiano ao conto de fadas tradicional da Disney foi cumprida e a ausência de novidades não é um problema quando o habitual é bem executado. Os romances da Disney são feitos para trazer um sorriso ao rosto com uma mistura pouco elaborada de romance, comédia e pequenas doses de drama. E, para todos os efeitos, este filme consegue fazer sorrir.

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Tenho o costume de anunciar já no início dos textos quando não gosto do trabalho de um diretor. Pode parecer antipático, porém minha intenção é deixar claro para o leitor que tudo o que virá a seguir é altamente influenciado por uma visão que há muito estabeleci sobre aquele artista. Esta visão geralmente não é inflexível, mas tem lá suas conseqüências. Feita a introdução, declaro que detesto Sanjay Leela Bhansali desde o primeiro filme. É mais forte que eu. Não gosto da opulência, do predomínio da forma sobre o conteúdo e do excesso de simbolismos.


Como toda versão de Romeu e Julieta, nesta também temos o intenso ódio entre duas famílias. Os Capuletos e Montecchios são substituídos pelos Sanera e Rajadi. A duas famílias são responsáveis por contrabando, tráfico e tudo o que há de pior na aldeia de Ranjaar. Leela (Deepika Padukone) é a menina dos olhos da família Sanera. É protegida como um diamante pelo irmão e pela mãe, a poderosa Dhankor (Supriya Pathak). Na casa Rajadi está Ram (Ranveer Singh), o divertido par de Leela. O rapaz é contra o mortal ódio entre os dois clãs e apregoa que todos os problemas sejam resolvidos pacificamente. Ram e Leela são ousados, sensuais e apaixonam-se loucamente. O amor é tão intenso que suas individualidades vão se perdendo, um não consegue pensar na vida sem o outro e fundem-se em um só ser: Ram-Leela. 

As referências ao Twitter e a celulares indicam que a história se passa no presente, porém a sensação transmitida é a de existir um ponto suspenso no espaço e no tempo e que é nele que tudo acontece. Ranjaar é um lugar afastado do mundo, onde nada além da rivalidade entre os dois clãs importa. Os belos cenários e figurinos de Bhansali estão presentes, apesar de passarem longe de quase cegar o espectador, como é de costume. O brilho foi guardado para os musicais, e o ambiente cotidiano de Ranjaar tem um toque escuro e rústico, coerente com o clima à margem da lei que predomina na aldeia. Este peso do cenário também está presente no romance. Ram e Leela são mais terrenos que os habituais amantes etéreos do diretor. Eles se acariciam, mordem, apertam e beijam. É como se tentassem tornar-se uma só pele. Foi o romance mais sexualmente explícito que já vi de Bhansali, que aproveitou a cumplicidade entre Ranveer e Deepika para criar cenas atrevidas. E esses dois foram além da sensualidade na construção dos personagens.

Deepika ofereceu ao público uma Leela segura e ciente de seus desejos. Seus grandes olhos foram bastante destacados e registraram inicialmente a alegria juvenil de Leela, depois transformada em dor. É óbvio seu amadurecimento artístico e muitas vezes me surpreendi hipnotizada por suas falas, olhares e gestos. Entretanto, minha maior surpresa foi com a atuação de Ranveer Singh. Costumava vê-lo apenas como um ator histérico e bem malandro — características pessoais bem aproveitadas na primeira fase de Ram, quando ainda era apenas um jovem sedutor e despreocupado, interessado somente em ver pornografia e caçar garotas. Ram é egocêntrico e obcecado pela própria masculinidade, como o típico jovem estúpido. Como apontado por minha amiga Joseli, sua vaidade é representada pela figura do pavão. É em sua transformação para apaixonado amargurado que está a beleza do trabalho de Ranveer, que conseguiu expressar o desespero que se apodera de Ram ao ser separado de Leela. Quando as crenças e expectativas do menino são todas destruídas, ele finalmente compreende a existência de forças mais fortes que o seu desejo. Não basta desejar a paz para que os homens a façam e nem querer o amor para que ele seja permitido. As circunstâncias obrigam o menino mimado a sair de cena para dar lugar ao homem atormentado, que é levado a agir de acordo com princípios que não são seus.

"Parece um filezinho de borboleta" - MÃE, minha.

O casal é a força do filme, mas não o carregou sozinho. Dhankor, a mãe de Leela, é uma das melhores personagens criadas para atrizes veteranas de que me lembro. É não apenas uma mãe autoritária, como também administradora incansável dos negócios sujos do clã Sanera. Não hesita em passar por cima do obstáculo que for para concretizar seus planos e, como se não bastasse, é amedrontadora — que o diga Ram, o vaidoso, recebendo de presente um pavão morto. A presença de Supriya Pathak em qualquer cena era sinal de que ela seria dominada por seu talento. Utilizando um tom sutilmente ameaçador, conseguiu criar uma vilã gângster como geralmente só atores homens tem a oportunidade de fazer. Foi uma atuação magistral.

Não chamarei as canções de ponto alto do filme, pois ele tem muitos. Elas encaixam-se perfeitamente na história e acompanham a mudança de romance para tragédia. A canção mais representativa do Ram na fase ousadia & alegria é a fantástica Tattad Tattad. Ranveer rebola, faz uma mulher desmaiar ao arrancar a camisa e coça a cabeça repetidamente. Provavelmente a intenção era ser sexy, mas minha reação é sempre rir, levantar e imitar o Ram. Reação parecida me provoca Ishqyaun Dhishqyaun, marca do romance inconseqüente de Ram e Leela. O casal é mostrado se divertindo com o fato de seu amor ser perigoso e quase mortal. Há ainda outros destaques na trilha, sendo Nagada Sang Dhol o maior deles. Shreya Ghoshal (queridinha do blog) cantou com um vigor que foi também transmitido pelo vídeo, que é grandioso e espetacular como todo bom vídeo do senhor Bhansali. Considero-o tão clássico quanto Dola Re Dola ou Nimbooda.


Não permitir que a opulência sufocasse a história foi o grande trunfo do filme. A estética é colocada a serviço da história e o espectador torce pela felicidade do casal, a despeito de quão conhecido seja o final de Romeu e Julieta. Isto mostra que foi conseguido um afastamento da história original, sendo ela reinventada a tal ponto pelos novos personagens que o espectador se permite esquecer qualquer conhecimento prévio. Com tantos pontos positivos, esse Romeu e Julieta com muitos tiros e sangue já garantiu seu posto de melhor romance trágico dos últimos anos.
Refletir com um mínimo de objetividade sobre os filmes que mais nos movem não é fácil. É por isso que escrever sobre meus filmes favoritos é uma das tarefas que mais procrastino. O efeito a longo prazo é o blog não ter textos sobre alguns dos títulos mais significativos para a minha relação com o cinema indiano. Decidi me esforçar um pouquinho para tirar esse atraso e deste esforço veio a lembrança de um pequeno e fantástico filme dos anos 80. Yeh Vaada Raha não foi sucesso na Índia, mas acabei descobrindo que é um dos filmes indianos mais conhecidos e amados na Nigéria. É um dos mistérios como o da paixão dos portugueses por Aa Gale Lag Jaa, mas não nos foquemos nisto, já que o filme já tem assunto o suficiente para discussão. Há muitas reviravoltas na história, então colocarei um aviso quando comentar sobre esses pontos de virada.

Yeh Vaada Raha é o romance entre Vikram (Rishi Kapoor) e Sunita (Poonam Dhillon). Ele se apaixona perdidamente por ela ao vê-la em um templo e não descansa até reencontrá-la e conquistá-la. Os dois vivem em pleno idílio amoroso até o momento em que Vikram apresenta Sunita à sua mãe (Raakhee), que não aceita ter uma jovem pobre como nora. Os dois decidem enfrentá-la para viver seu amor, quando então suas vidas são transformadas por uma tragédia.


Sendo um filme de grandes reviravoltas, não seria de espantar caso o romance principal fosse apresentado apressadamente para logo dar lugar às surpresas da história. O diretor Kapil Kapoor teve a sensibilidade de não subestimar a importância da construção do amor entre os protagonistas. Apesar de Vikram ter-se apaixonado à primeira vista por Sunita, o namoro de ambos foi bem explorado em cena. Os ambientes escolhidos foram a casa de Sunita, onde cenas noturnas mostram o crescimento da intimidade e cumplicidade do casal, e também as belas montanhas de Kashmir por onde o casal corre, brinca e interpreta as canções românticas que tão bem capturam sua juventude. As cenas de brincadeiras e conversas bobas entre os namorados fazem com que o espectador acredite no casal e torça para que permaneça unido. Esta experiência é fundamental para manter o interesse na segunda parte do filme, momento no qual Vikram e Sunita passam a maior parte do tempo separados. 

Rishi e Poonam fizeram um ótimo trabalho com o já conhecido material do romance. Estavam à vontade um com o outro e conseguiram manter a jovialidade do casal mesmo durante as juras de amor eterno que caracterizam os romances indianos. A deliciosa trilha de R.D. Burman foi ideal para o clima proposto, com destaque para a meiga Yeh Vaada Raha. Esta me fez gastar alguns minutos tentando imitar o bater de mãos do casal, mas não discutamos isto (já que não deu muito certo).


A partir de agora, vou contar pontos importantes da história. Alerta de spoiler!

As coisas ficam bem doidas - para dizer o mínimo - e Sunita tem o rosto destruído após um acidente de carro. A mãe de Vikram o faz pensar que a noiva morreu e o rapaz fica desolado. Sunita, por sua vez, ganha um novo rosto pelas mãos de Dr. Mehra (Shammi Kapoor). O simpático cirurgião a adota como filha e a incentiva a procurar Vikram após sua recuperação. Pai e filha se deparam com a notícia do noivado de Vikram com outra mulher e Sunita sente raiva ao pensar que ele a esqueceu. Ela mal imagina que sua mãe forçou o noivado e que o rapaz vive apenas pela lembrança da noiva perdida.

O tom do filme é drasticamente alterado. De dois jovens alegres e apaixonados, a doce Sunita passa a ser uma moça triste e rancorosa, enquanto o enérgico Vikram torna-se um homem amargurado e perturbado pelas lembranças. Tina Munim teve sucesso ao fazer a difícil transformação de uma personagem que não havia interpretado antes. Construiu sua Sunita com certo ar arrogante que não havia antes e que foi exigido pela história, porém manteve nas cenas iniciais o quê de fragilidade que Poonam Dillhon emprestou à personagem. A interação com Rishi Kapoor teve carga emocional mais forte que a da primeira parte, mas Tina soube imprimir um tom que não destoasse completamente do esperado para Sunita. Apesar de estar usando roupas diferentes, ter outro rosto e ser mais desafiadora que antes, a perturbação de Sunita com a presença de Vikram denunciava que aquela era a mesma jovem que há tão pouco tempo planejava passar toda sua vida com ele.

Don't cry for me, Rishi Kapoor ♪
Rishi Kapoor estava perfeito. Sim, claro que há exagero em minhas palavras, porém isso é o melhor que posso fazer quando se trata do meu ator favorito no meu romance favorito dele. Não há no cinema hindi quem romanceie tão bem quanto Rishi Kapoor. Ninguém sabe olhar para uma heroína como ele, especialmente durante as canções. Sua interpretação também se manteve boa na fase deprimida de Vikram, tendo sido interessante vê-lo contracenar com Raakhee. A “mãe vilã” é um estereótipo dos romances, porém Raakhee trouxe a diferença ao fazê-la séria e sólida como uma típica matriarca. Não houve caras e bocas enquanto ela propunha idéias escusas à Sunita. A mãe de Vikram é uma mulher que se habituou a resolver problemas objetivamente e não seria diferente com a vida amorosa do filho.

1 sentimento: medo.

A história surpreendente e meiga unida a atuações honestas e uma música-título divertida é o que faz de Yeh Vaada Raha um dos meus romances favoritos. Há elementos dispensáveis (como a perseguição de Vikram a Sunita, bem no comecinho), mas o produto final ganhou mais pontos. Uma história tão louca poderia ter se perdido facilmente com a mudança de tom da obra e o êxito em utilizar o absurdo para cativar o espectador indica o valor desse pequeno filme, que me é tão querido. Se tudo isso não for suficiente para convencer, apenas se pergunte quantos filmes dos anos 80 podem ser defendidos com tanto carinho.
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"DEEWANEANDO"?

Devanear = divagar, imaginar, fantasiar. Deewani = louca, maluca. Deewaneando = pensar aleatória e loucamente sobre cinema indiano.

Meu nome é Carol e sou a maior bollynerd que você vai conhecer! O Deewaneando existe desde 2010 e guarda todo o meu amor pelo cinema indiano, especialmente Bollywood - o cinema hindi. Dos filmes antigos aos mais recentes, aqui e no Bollywoodcast, seguirei devaneando sobre Bollywood.

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