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Eu não era muito fã do Shammi Kapoor. Falei aqui que um dia explicaria o "Pacto Shammi" e a hora chegou. Pois bem, o Pacto Shammi foi um acordo que eu havia feito com o Shammi enquanto assistia a Kashmir Ki Kali (1964), se não me engano. Ele me irritava com todos aqueles pulos, caras e bocas, mas ainda assim eu conseguia sair bem de seus filmes porque me concentrava só nas coisas boas dele: o modo sensacional como cantava as músicas do Rafi, seu dinamismo, seu jeito engraçado. Eu não o deixava me incomodar e ele não me incomodava. Entretanto, comecei este relato dizendo que eu não era fã dele, no passado. Junglee chegou na minha vida e não trouxe nada de diferente do que eu já havia visto do Shammi ji, mas foi isto que modificou tudo. Vi que seria sempre daquele jeito e que isto não era necessariamente ruim. Então finalmente entendi a função do Shammi Kapoor na minha vida: me fazer sorrir. Nossa relação não funcionava enquanto eu cobrava que ele me emocionasse e tomasse conta de todos os meus sentidos, como tão bem faz seu sobrinho Rishi. Enquanto isto, aquele homem alto de olhos verdes estava tentando me colocar para dançar e eu não percebia. Eu só precisava me divertir.

Para mim é importante tentar passar como me sinto em relação a atores que vejo tão constantemente. Esta breve explicação sobre o Shammi na minha vida foi mais importante ainda porque ele faleceu há pouco tempo. Como foi o primeiro falecimento que "presenciei" no cinema indiano, me deixou um pouco impressionada. Espero que ele tenha tido uma boa vida e fico feliz por fazer parte do grupo de pessoas que tem acesso a seu trabalho.

Agora...

YAAAAAAHOO!


Junglee é um filme bem simples, divertido e o melhor de tudo: muito colorido! Não consigo resistir às cores, então esta postagem terá tantas imagens que será como se eu estivesse revendo o filme.

Shekhar (Shammi) tem uma mamãe muito controladora, interpretada pela minha querida Lalita Pawar. Viúva e fiel à memória do marido, ela não deixa de manter sua família na linha e cumprindo à regra que ele impôs em vida: em sua família, ninguém deve sorrir. Sorrir é para os fracos! Por sorte, seu mal-humorado filho segue muito bem a tradição paterna.


Lalitinha: muito digna.


Entretanto, toda família tem seu ovo podre (?). Mala (Shashikala), irmã de Shekhar, adora sorrir e aproveitar a vida. E, absurdo dos absurdos, tem até um namorado! Ela e Jeevan (Anoop Kumar) namoram escondidos da família de Mala. Um dia, um amigo da família que também trabalha na empresa vê os dois juntos e avisa a Shekhar e sua mãe que Mala está se "desviando". Shekhar ia a Kashmir resolver algumas coisas (que não sei quais são), para depois voltar e resolver seu casamento com uma princesa de uma linhagem real falida, mas deste último detalhe Shekhar e sua mãe não sabem. Todos decidem que levar Mala para Kashmir é um bom caminho. Pobre Mala!

Andando com sua carinha fechada e seu biquinho constante por Kashmir, Shekhar conhece Rajkumari (Saira Banu), uma mocinha espevitada que parece curtir implicar com Shekhar. Raj está em processo de abandonar a infância e abraçar a mocidade, o que é mostrado no clipe Ja Ja Ja Mere Bachpan. Música doce da mocinha? Só pode ser cantada pela Lata Mangeshkar.

Querem entender por que adoro ver filmes antigos que se passam em Kashmir ?


Olhem esta paisagem!

Querem entender o que era ser uma diva nos anos 60?


Pode não ser a melhor, mas é linda demais.

Há alguns acontecimentos que fazem Mala e Raj ficarem amigas. Raj e Shekhar acabam ficando presos em uma cabana durante uma tempestade de neve. É claro que não acontece nada físico entre eles, afinal isto é um filme indiano dos anos 60 (ok, aconteceu em Aradhana, mas eles estavam casados). E por ser um filme indiano, os dois se apaixonam. Shekhar aceita a felicidade e sai sorrindo, pulando e cantando. Fica doido mesmo, bem como o Shammi sabe fazer. Como Shekhar vai apresentar seu novo jeito de ser para a sua rígida mãe? Como irá livrar-se do noivado desejado por seu pai para ficar com Raj? Como Mala resolverá seus problemas? Irá Raj parar de cantar para cabras em Kashmir? Vejam Junglee para saber!

O filme me divertiu o tempo todo, inclusive nas poucas cenas dramáticas. É interessante que mesmo no meio de tudo isto a Lalita Pawar ainda tenha conseguido manter uma sólida imagem de mulher séria. Realmente via-se sua tensão, austeridade e resistência à mudanças. Já a vi em vários papéis iguais e também em filmes do Shammi, mas toda vez é uma bela experiência.

Saira Banu estava em sua estreia nos filmes, tendo apenas 17 anos. Isto foi o suficiente para eu perdoá-la por ser tão...sem-graça? Em todas as danças e muitas cenas me pareceu que ela não sabia o que estava fazendo. Em vários momentos tinha tanta intensidade nas expressões quanto uma boneca de cera. Talvez tenha sido a descoberta de que era tão nova, mas de uns tempos para cá comecei a achá-la adorável no filme. A própria música de adeus à infância começou a fazer mais sentido, já que ela estava passando de garotinha à diva do cinema. Meu momento favorito dela no filme é a música Kashmir Ki Kali, clipe no qual parece uma flor tanto ou mais bela do que aquelas que a rodeiam. Reparem em como ela não sabia dançar bem (não sei se melhorou mais tarde, foi meu primeiro filme dela). Vi até mesmo uma dificuldade em dar leveza e graça aos movimentos como atrizes mais experientes conseguem. Além do fato de eu adorar a paisagem e finalmente ver uma garota implicando com um rapaz , esta questão de ainda não saber calcular muito bem cada movimento e ainda assim ser tão encantadora me faze adorar o vídeo. Confesso que pausei o filme para dançar junto com ela, apesar de não ser nem de longe a música mais animada da trilha.

Pararam para refletir que ele tinha 30 anos e ela, 17?


O Shammi é louco. Quando se busca sobre ele na internet é comum encontrar o termo "Elvis indiano" porque seu visual e habilidades de dança foram baseados nos do cantor, mas há nele um certo ar desengonçado que não encontro não Elvis (não que eu o conheça muito). Pelo pouco que já vi do Elvis, ele parecia ter mais controle de seus movimentos, enquanto o Shammi é realmente selvagem. Isto fica claro na música principal do filme e marca registrada do Shammi, Yahoo. Tal como uma doce vovó, a todo momento me perguntava  se o menino não ia se machucar ao se jogar tão fortemente na neve. E a Saira lá, de bucha.


Quando se imagina que  criatura não possa ser mais louca do que isto, vem melhor: item number com a diva mor, Helen. Suku Suku é um espetáculo para os olhos. Gosto do vídeo, me divirto com a música e a Helen está lindíssima, mas prefiro items em que ela "canta" também. Deste modo, posso brincar de incorporá-la ao ouvir a música!

No fim tive mais uma surpresa: um musical que me fez apaixonar pelo Shammi, no sentido mocinha ama o herói romântico. Ehsaan Tera Hoga, lindamente cantada pelo mais lindo ainda Mohammed Rafi. Shammi, o canastrão. Saira, a boneca de cera. Carol, a sem sentido.

E Helen ji, A dama.


Dirigido por Subodh Mukerjee, eu chamaria Junglee  de comédia romântica porque a gente consegue rir e suspirar também. Atualmente é o primeiro filme de que recordo quando penso em entretenimento nos anos 60 e poucos trabalharam as cores tão bem (e tão cedo). É meio pastelão? Certamente. Mas isto só deixa tudo ainda mais adorável. Tem uma inocência nas cenas, no roteiro simples e na vontade de agradar. Até o momento posso dizer com certeza que é meu filme favorito do Shammi!
O último dos filmes de arte sobre o qual falei foi Junoon, e só eu sei o quanto aquela postagem foi trabalhosa. Eu descobria novas coisas enquanto escrevia, mudava de opinião durante o texto, parecia que estava revendo o filme a cada linha. No resultado final não transpareceu o quanto aquele filme me perseguiu, encantou e cansou mentalmente. Esperava ter a mesma reação com Arth, acreditei até que me atingiria mais fortemente. Afinal, seria um filme centrado na Shabana Azmi, atriz para a qual não tenho bons adjetivos o suficiente para descrever. Fiquei impressionada, mas não fui tão arrebatada quanto esperava ser.


Diz-se que o filme, dirigido por Mahesh Bhatt, conta muito da relação extra-conjugal que ele mantinha com a Parveen Babi. Há algum tempo li que ela tinha esquizofrenia e quase tudo o que encontro me faz acreditar que tenha tido uma vida conturbada. No filme, Mahesh seria o personagem Inder Malhotra (Kulbhushan Kharbanda), um diretor de cinema casado com Pooja (Shabana Azmi) e que a deixa após começar a se envolver com a atriz Kavita Sanyal (Smita Patil), que seria a Parveen.

O que me incomodou no começo do filme foi sentir uma certa falta de naturalidade em cena, não sei por quê. A Shabana é sempre ótima, mas eu não estava suportando ver o Kulbhushan e a Smita. Fiquei comparando muito com Junoon e refletindo sobre o quanto eu queria que Arth houvesse sido dirigido pelo Shyam Benegal, para sentir aquela fluidez tão boa dos filmes dele. Entretanto, provavelmente muito da emoção de várias cenas venha do fato de o diretor colocar sua vida no filme. Talvez tivesse que ser ele mesmo.


Vou começar pelo mais fácil: Pooja e a posição da mulher. Logo no começo do filme há uma cena dela com sua empregada na qual Pooja diz que não suportaria a situação da mulher, que era espancada pelo marido e tinha de aguentar a amante dele. Pouco tempo depois a vemos basicamente implorando para que o seu marido volte, se contradizendo. Não consegui sentir raiva. Ela era uma mulher na Índia que só sabia como ser esposa, não se via como pessoa autônoma separada do seu marido. Na verdade, suas cenas se rebaixando aumentaram minha empatia para com Pooja. Consigo me ligar mais a personagens que vez ou outra voltam em sua palavra, porque acredito que a vida seja deste mesmo modo, em que é muito fácil falar até nos depararmos com as circunstâncias que antes eram apenas hipóteses. O que ela faria caso se separasse? Ela não é nenhuma integrante de Sex And The City para sair construindo carreira, seu meio social  não é o mesmo. Repentinamente ela estava ali, olhando ao redor e vendo destruído tudo aquilo que considerava como base na vida. É difícil não saber por onde começar, mas não saber nem o que começar é pior ainda.

Só que eventualmente, ela começa. Primeiro sai da casa que Inder havia colocado em seu nome, logo que descobre ter sido financiada por Kavita. Muda-se para um dormitório feminino, encontra um emprego. Diferentemente de outros filmes nos quais os personagens tem mudanças bruscas, Arth tem uma honestidade na transformação. Tudo acontece a seu tempo, um passo de cada vez. Durante o tempo de filme realmente senti que estava ali com a Pooja, vivendo seu tempo. Ela havia passado muito tempo vivendo em função de outra pessoa e dentro de uma instituição que reprimia qualquer possibilidade de surgimento de uma individualidade. Até descobrir quem era, ia levar um tempo mesmo. Enquanto isto, a perda de si ia acontecendo com Kavita, lá do outro lado da história. Seus problemas mentais se intensificaram pela culpa sentida por ter "roubado" o marido de Pooja e "destruído" uma família. Isto me lembra uma expressão que não suporto, "destruidora de lares". Se o marido não está comprometido com sua família, ele de algum modo vai desmembrá-la, seja arrumando outra mulher ou não. Quem desfaz os laços é ele, não a amante. Só que tentam colocar na nossa cabeça que a culpa é sempre nossa, no fim as mulheres acabam lutando umas contra as outras. A Kavita, sua mãe e a Pooja passaram um bom tempo do filme dizendo que a culpa por tudo o que estava acontecendo era dela, inclusive há uma linda cena da Pooja ao telefone com a Kavita pedindo para devolver seu marido. É como se o poder de fazer ou desfazer tudo aquilo fosse dela, enquanto o Inder seria apenas um pobre homem desviado do seu caminho.


Apesar de traída por Inder, Pooja não desacredita das pessoas e dá abertura para uma amizade com Raj (Raj Kiran), um músico simpático que logo se apaixona por ela. A relação deles é um dos pontos altos do filme. Como muitos filmes indianos, espera-se que aquele homem entre para salvar o dia e proteger a Pooja, mas o que acontece passa longe disto. O roteiro logo nos faz lembrar que aquela ali é uma história de autoconhecimento e que o caminho para ele é difícil, um pouco distante do romantismo todo de outros filmes. Há uma honestidade admirável nisto.

Há umas poucas coisas de que não gostei: os ataques exagerados da Kavita, a confusão que era sua condição médica, e a tristeza que dá pensar que a Parveen pode ter passado por tudo aquilo.

Arth é um dos filmes indianos mais especiais que já vi. Para quem ama ver um retrato honesto sobre a mulher indiana, como eu, é um prato cheio. É todo sobre liberdade, se conhecer e surpreender-se com a força que pode encontrar dentro de si. As questões que ele levantou há 30 anos ainda soam como novidade se colocadas em um filme de hoje. Foi pensando nisto que me encantei com a coragem do Mahesh, da Shabana, da Smita e de todos os envolvidos na história. Houve até um apelo para que o final fosse modificado na época, mas Shabana e Mahesh foram totalmente contra. Eles acreditaram nesta história e lutaram por ela, e fico grata por o terem feito. Não são muitos os filmes que no final me fazem sentir que aprendi ali algo importante que vou levar comigo por toda a vida. Obrigada, Pooja.

Fotos demais das mulheres e nada do homem? Sim.  Afinal, 
quem é que importa nisto aqui? Sorria, Pooja mais linda, que
nesse sorriso  devem ter sorrido muitas mulheres indianas!



Este é um vídeo de uma série que pode ser encontrada no Youtube, na qual os atores contam qual filme mudou sua vida e os motivos. A Shabana fala de Arth. Não tem tradução ou legenda, mas ela fala em inglês e dá para entender. Vale a pena.
Rio de Janeiro, março de 2009. Primeira semana de aula dos calouros do Instituto de Psicologia. A programação do dia era uma aula inaugural com uma professora convidada da PUC. Eu nervosa, sem saber se deveria anotar ou não. "Se anotar, podem me achar esnobe. Se não, podem me achar relapsa". Ninguém anotava nada, então desisti. Nada do que a professora falava me interessava, até que fez uma pergunta:

- Quem viu Quem Quer Ser Um Milionário?

Eu não havia visto e ainda não sonhava em conhecer nada nem parecido com cinema indiano, mas sabia que estava fazendo muito sucesso e fiquei curiosa para ver como seria inserido na aula. A única coisa que guardei de tudo o que ela disse foi que para um irmão poder ser o "bonzinho", o outro tinha que assumir o posto de "mauzinho". Foi uma mensagem muito forte para os meus 17 anos, já que eu até então pensava que bom e mau fossem apenas questões de caráter, uma linha reta com dois pólos. Assistindo a Deewaar, claramente fonte inspiradora de QQUSM?, aquela aula logo me voltou à mente. Vijay (Amitabh Bachchan), o irmão mau. Ravi (Shashi Kapoor), o irmão bom. Sumitra Devi (Nirupa Roy), elemento que não tem correlato no filme, a mãe por quem aqueles filhos fariam qualquer coisa. E um forte amor unindo os três, apesar das diferenças.

Parece que este filme foi o verdadeiro início da persona do angry young man do Amitabh Bachchan, criada pelo duo Salim-Javed para o filme Zanjeer (1973), sobre o qual tenho preguiça de escrever. Vou traduzir como jovem homem bravo porque o Ibirá o fez aqui. É um tipo de personagem repetido por ele em vários filmes: um jovem sério e sisudo de bom coração que em algum momento não hesita em fazer justiça com as próprias mãos. O Vijay é a manifestação mais forte do tipo e logo em sua infância é mostrado o motivo de tanta amargura: seu pai foi injustamente acusado de desonestidade e a família passou a viver em um inferno no qual não hesitaram nem em tatuar "Meu pai é um ladrão" no braço de uma criança. Como se já não bastasse, o pai entrou nu momento Mother India e abandonou a família por não suportar a pressão. Ao compartilhar de todo o sofrimento da mãe para manter a família, Vijay amadurece antes do tempo e acaba se tornando cínico em relação à vida. Ainda assim, aquela ponta de bondade que precisa existir para caracteriza o jovem homem bravo (não me acostumo com isso) continua presente. Uma imagem emblemática do filme que demonstra isto muito bem é Vijay nunca entrar no templo, já que sua vida permite-lhe sentir que não deve gratidão nenhuma a Deus. Entretanto, mesmo esta raiva não exclui o fato de que é um bom filho que acompanha a mãe e o irmão ao templo.

O genro dos sonhos.

A persona do Amitabh é fortalecida pelo contraste oferecido por Shashi Kapoor e seu doce Ravi. Honesto, agradável e simpático, pode ser definido como "tudo o que o Vijay não é". Porém, ele não seria nada disto se não fosse pelo irmão "mau", Quando pequeno, Vijay decidiu trabalhar para ajudar a mãe a permitir que pelo menos Ravi pudesse estudar. Graças a isto, Ravi pôde viver a infância que toda criança deveria ter, com escola e amiguinhos. Para esta vida de tranquila inocência pode acontecer, tinha de haver alguém por trás encarando a parte não tão bonita assim das coisas.

Há três mulheres exercendo papéis importantes no filme. Leena (Neetu Singh) é a namorada de Ravi que com ele vive o tal mundo de algodão doce que o Vijay não pôde ter, com musicais apaixonados, promessas de casamento e brincadeirinhas. É por meio dela e de seu pai que Ravi tem a ideia de tornar-se policial. É uma pena que apareça tão pouco, parecia estar ali só para dar graça aos musicais e mais leveza ao filme. Anita (Parveen Babi) é o oposto: teve uma vida de sofrimento, o que a fez identificar-se com Vijay e logo se apaixonar por ele. O interessante é que Vijay não se interessou por ela de primeira e Anita teve que investir, uma situação normalmente impensável para mocinhas. Na Wiki da Parveen está escrito que ela trouxe uma nova heroína para o cinema indiano: independente, bebe, fuma, vai para a cama com o homem que ama quando quer, tem consciência de seu corpo. É chato que a isso tenham adicionado o sonho de se casar, mas a gente não pode ter tudo nesta vida. Acima de todas está Sumitra Devi, a mãe. E esta merece um parágrafo próprio.

O papel da mãe é fundamental no cinema indiano, mas o da mãe-deusa é o mais importante de todos. Ela é colocada como uma fortaleza que passa por todas as provações com dignidade. Detesto isto. Acho peso demais para uma pessoa esta posição divina, e é quase cruel limitarem seu papel a cuidar e amar os filhos antes de você poder decidir isto. Não acredito que a mãe-deusa vá desaparecer tão cedo, porém não me lembro de exemplos recentes. Isto é bom.

Com ou seu amor pela mãe-deusa e entre os irmãos, um acaba ficando contra o outro. Ravi, o policial honesto e Vijay, o bandido que acredita apenas estar jogando o jogo da sociedade do melhor jeito possível. O que torna tudo mais difícil é Ravir só ser quem é graças a Vijay, mas gosto da ideia de  que nem a gratidão deve nos fazer esquecer do que consideramos bom. Outra ideia legal é que os mais novos também podem ter algo para ensinar aos mais velhos (é um filme indiano, isto não é pouca coisa).

Deewaar é um filme mais emocionante do que eu poderia imaginar e tem um final muito forte e bonito. O drama é enorme e o número de cenas e falas que provavelmente são icônicas também o é, mas agora que descobri que foi dirigido pelo Yash Chopra, faz sentido. Senti que provavelmente nunca verei uma demonstração melhor do que seja o jovem homem bravo ("angry young man" grita na minha mente) e o filme é claramente dominado pelo Amitabh Bachchan e seu perturbado Vijay. Um daqueles clássicos que merece este título...e com todo o louvor.
Amante dos clássicos como sou, aqui estou fazendo minha segunda lista das músicas de filmes antigos que mais ouvi e gostei em 2011. Diferentemente da lista de canções atuais, esta foi muito fácil de montar. Foi só pegar os filmes antigos que vi neste ano, que logo pensei nas minhas canções preferidas. Para minha surpresa, dois filmes dominaram a lista, o que reforça meu amor por suas trilhas. E para quem lê isto aqui, todas as músicas já foram citadas em outros posts.

10) Chanda Hai Tu, Mera Suraj Hai Tu de Aradhana (1969)

Falei há pouco tempo sobre Aradhana e meu encantamento com esta música. Com uma letra doce e sensível, para mim é muito difícil não me apaixonar por músicas de mãe para filho. Além de ser uma das gravações em que a voz da Lata está mais bonita, a ternura com que a Sharmila olha para a criança no vídeo é adorável. Não importa se entenderem hindi ou não: quando tiver filhos, aprenderei a cantar esta música para que eles cresçam com a lembrança.



9) Logon Na Maron Ise  de Anamika (1973)

Asha Bhosle, minha diva! Foi em Anamika que percebi o quão graciosa e espirituosa era a Jaya Bachchan quando mais nova, e esta música é a que melhor este espírito alegre. Sinto que a Asha era melhor que a Lata para canções alegres, vide item numbers da Helen.



8) Har Dil Jo Pyar Karega de Sangam (1964)

Esta música nem me chamou muito a atenção enquanto estava vendo o filme, mas não foram poucas as vezes em que me peguei girando pela casa e fingindo que eu era o Raj Kapoor, totalmente cego ao clima rolando entre os personagens da Vyjayanthi e do Rajendra. A alegria dele é tão fofa! É engraçado como a gente se acostuma a pensar na voz do Mukesh como pertencendo ao Raj.



7) Parda Hai Parda de Amar Akbar Anthony (1977)

Rishi Kapoor. Neetu Singh. Amitabh Bachchan ocasionalmente fazendo gracinhas. Mohammed Rafi. Céus, como a voz do Rafi faz falta em Bollywood!



6) Bahon Mein Chale Aao de Anamika (1973)

O que mais gosto neste clipe é o tom de brincadeira, a sensação de que a Anamika e o Devendra estão num mundo próprio na madrugada, mundo este que deve ser mantido em segredo. E mesmo que a Jaya esteja pedindo a ele para ir para os seus braços, ela mais uma vez consegue ser totalmente fofa. O sorriso dela não é lindo demais?

Obs: estão reclamando muito da tradução nos comentários, então desconsiderem.



5) Mujhe Kuch Kehna Hai de Bobby (1973)

Parece que gosto muito de músicas fofas. Esta é especial por ter um casal realmente jovem cantando sobre o amor adolescente, então passa um pouco mais de realidade aos sonhos de Raj Kapoor. Gosto do ritmo ora animado, ora mais calmo e da letra tão inocente. Por sinal, acho que foi a primeira vez que ouvi uma música com o Shailendra Singh como cantor principal.

Infelizmente, é como eu estava dizendo ao Pedro esses dias: comigo, não iria funcionar. Se quero muito dizer algo, a outra pessoa também quer e ela diz "você primeiro", já falei antes da outra perceber que eu tinha estragado a brincadeira. Não poderia atuar nos filmes do Raj, tsc.




4) Bol Radha Bol Sangam Hoga Ke Nahi de Sangam (1964)

Sangam e Raj Kapoor outra vez enchendo a lista. Esta música gruda como chiclete na cabeça e o clipe é basicamente sobre como o Sunder é tão insuportável que persegue a Radha até no rio (reparem que ela não parece feliz). Mas vicia, tanto que tive de ir atrás  só porque estava tão fixa na minha cabeça que a única solução para arrancá-la de lá me pareceu ser ouvir até não aguentar mais. Ouvi muito e ainda estou aguentando.



3) Anhoni Ko Honi de Amar Akbar Anthony (1977)

Este clipe me faz perceber o quão estranho é o meu senso de humor. Não rio de quase nada que os filmes indianos dizem ser engraçado, mas não aguentei quando vi Vinod, Rishi e Amitabh disfarçados e fazendo altas dancinhas. O Amit com aquela cara de quem está zombando da gente, o Rishi rebolando vestido de velhinh, o Vinod com uma expressão cômica que não consigo ligar a ele — que é meu símbolo sexual da velha Bolly. Além do clipe ser esta alegria toda que tanto me agrada, o ritmo da música é muito gostoso. Eterna favorita!



2) Yeh Mera Prem Patra Padh Kar de Sangam (1964)

Como explicar o quanto amo esta música? As lágrimas (tão irritantes) que vem sempre que ela começa? A vontade que sinto de deitar quietinha a toda vez que ela começa, porque é bonita demais para não receber minha total atenção? Os suspiros ao lembrar do Rajendra e suas flores a cada palavra cantada pelo Rafi? Não tem como. Parecia que cada sentido meu tinha sido tomado por ela quando vi o clipe. Para mim, é simplesmente uma das canções mais bonitas de toda a história de Bollywood, e uma das maiores pérolas do Rafi. Apenas apreciem, não sei nem por que estou falando tanto.



1) Humko Tumse de Amar Akbar Anthony (1977)

A luta entre ela e Yeh Mera Prem foi grande, mas acabei escolhendo-a por número de execuções (valeu, Last. Fm!). O que tem de especial? Bem, três casais lindos declarando amor ad eternum. Como falei no post de AAA, tem o casal novo hiperativo que dança sobre trens, o meio-termo que faz suas gracinhas na carruagem e o maduro que fica em casa mesmo. Parece pouco, mas definitivamente não é. Para mim, é um dos clipes mais completos de Bolly e faz o que poucos vem conseguindo, que é transmitir o estado de espírito em que se encontram os personagens do filme. Como em todo bom masala, as coisas acontecem meio rápido em AAA. Então, nada melhor que uma canção para mostrar que os três casais estavam apaixonados! Só que isto não é apenas dito, é também visto pelo modo como cada casal interage.

Linda, divertida, romântica sem ser boba, completa: esta é a minha Humko Tumse. Primeiro lugar!



Ps: Placar final - Amar Akbar Anthony (3), Sangam (3) e Anamika (2)!
A última lista de músicas favoritas que fiz para o blog foi há um ano, e só de músicas antigas (já virá o próximo). Desta vez, vou listar dez músicas que ouvi bastante em 2011, todas de filmes do ano. Evitei usa a palavra "favoritas" no título do post porque este não foi um ano em que eu tenha me apaixonado por muitas músicas. Foi até difícil pensar em dez. Quase todas podem ser encaixadas na categoria "gosto bastante", mas amor mesmo aconteceu pouco. Nem reclamo muito dos rumos que Bolly anda tomando, mas ó...tem que ver issaê.

Menções honrosas: Mit Jaaye Gham (Dum Maaro Dum) e Ooh La La (The Dirty Picture)

Amantes da boa música, não me matem pela presença de Mit Jaaye Gham, versão de 2011 que assassinou Dum Maaro Dum, uma das músicas mais clássicas da Asha Bhosle. Minha relação com a música é positiva porque quando vi que o Pritam ia fazer um remix de um clássico e que este se tornaria um item number da Deepika, tive certeza de que coisa boa não iria sair. Daí vi, ri e me apeguei à música. Não consigo levar a sério.

E eu gosto da Anushka Manchanda.



Agora, Ooh La La. Comecei a ouvir a trilha de The Dirty Picture há poucos dias e logo caí de amores (como todo o resto do mundo) pela faixa. Como não vejo clipes antes dos filmes, só espero que seja muito bom. De todo modo, tá viva, tá brilhante, tá retrô, tá disco! Sinto que virá muita coisa boa depois desta música.



Obs: é tão estranho postar um vídeo que não conheço. E nem verei tão cedo.

Agora, vamos à lista!

10) Yeh Saali Zindagi (Yeh Saali Zindagi)

Quando vejo esta música aqui, ganho mais certeza de que sou brega. Lembro de ficar chorando tristemente pensando no personagem do Imran Khan no filme e em como ele mesmo não queria ser tão adorável quanto acabou sendo. O que mais gosto na canção são os vocais fortes do trio Sunidhi, Shilpa Rao (que adoro desde Dev.D) e Kunal Ganjawala. Os três tem vozes doces, especialmente o Kunal, que logo são quebradas pelo refrão mais pesado. Não é uma música que eu consiga ouvir todos os dias porque cansa facilmente, mas gostei já na primeira vez. Enfim, uma bela canção de um filme que deveria ser mais visto.



9) Madhubala (Mere Brother Ki Dulhan)

A música mais animada e mais brilhante da trilha de MBKD! Me apeguei facilmente e logo já estava fazendo coreografias pela casa. Todos amam a voz do Ali Zafar nela, mas, sinceramente...sempre imagino que seria melhor com outra pessoa — Sukhwinder Singh, para ser específica. Tenho uma certa birra com o vídeo porque imaginava que haveria a Katrina vestida de Madhubala correndo e brincando por aí, mas os produtores de Bollywood não apostam em nada do que sugiro. Tudo bem, sempre serei grata ao filme por deixar claro o potencial da Kat.



8) Tai Tai Phish (Chillar Party). 


Eu já ouvia bastante, mas nos três últimos dias inventei até uns passos estranhos para ela (meus pobres ombros reclamam). Uma das músicas mais legais do ano e o primeiro item number do Ranbir Kapoor, tão divertido e maluquinho quanto ele! Adoro a batida, o Ranbir se divertindo e dançando daquele jeito que diverte tanto (lembrei de Small Town Girl) e a criançada curtindo.




7) Ik Tu Hi Tu Hi (Mausam)

Oh, céus, provavelmente a música mais doce da lista. Foi a primeira de que gostei na trilha de Mausam e encaixa-se perfeitamente no clima do filme: suave, romântica, até dramática. É bem o tipo de música para quem acredita que há aquela pessoa a quem você pertence e que pertence a você, ambos sendo únicos um para o outro. Ou seja...nada a ver comigo *trollface*



6) Sajh Dhaj Ke (Mausam)

Preciso colar o post de Mausam aqui para dar as razões? SHAHID KAPOOR NO PUNJAB, GENTE! E adoro a letra, que fica zombando do NRI que só via defeitos no nosso amado Punjab. Divertida, engraçada, coreografia e dançarinos sensacionais, belas cores, tudo de melhor de Bollywood! É, me animei agora. E adoro quando o Shahid faz playback do Mika Singh.



5) Laung Da Lashkara (Patiala House)

Basicamente toda a descrição de cima. Só troque o Shahid pelo Akshay e adicione a Anushka Sharma, que adoro. Foi a primeira música de que gostei no ano, pela alegria e clima familiar. Só as luzes muito fortes do clipe que me irritam um pouco, mas não há incômodo que não seja aliviado com um rap da Hard Kaur.



4) Sadi Gali (Tanu Weds Manu)

Certo, não tinha notado que eu estava tão viciada em músicas/clipes com clima punjabi. De todo modo, esta é a melhor de todas. Não entendo de vozes tradicionais, mas a do Lehmber Hussainpuri me parece ser tão punjabi (Wikipedia confirmando)! Talvez por isto seja a minha canção favorita do ano dentre todas com clima punjabi: a voz dele é a que mais me transporta para lá.



Obs: li aqui que esta canção havia sigo gravada por ele antes de ser incluída no filme, então não foi criada tendo em mente a história. Isto me consola, já que não tenho a menor lembrança dos clipes do filme...só lembro de morrer pelo Madhavan a cada segundo.

3) Dua (No One Killed Jessica)

Legendei No One Killed Jessica bem no início do ano e chorei ao traduzir cada linha de Dua. Além da beleza da letra, a mensagem de união e solidariedade que o clipe transmite me toca muito. A sério: fico arrepiada a cada vez que ouço. Um dos melhores trabalhos do Amit Trivedi, meu ídolo. E NOKJ é um filme que me inspirou a ser uma pessoa melhor.



2) Aitbaar (No One Killed Jessica)

Enquanto Dua traz uma doce tristeza, Aitbaar me lembra a frustração, indignação, decepção e garra. Esta música me faz sentir uma estranha força, talvez sugerida pelo próprio vocal. Gosto de toda a trilha de NOKJ e já tinha minhas preferidas quando repentinamente me peguei ouvindo Aitbaar todo dia, toda hora. E tanto cresceu no meu conceito que está no 2º lugar. Esta posso chamar de favorita, e com muito orgulho. Grande, gigante Amit Trivedi! Um dos maiores presentes que a Índia me deu nos últimos tempos foi o talento dele.



1) Character Dheela (Ready)

É muita falta de vergonha minha coroar um item number de um filme do Salman Khan como minha música do ano depois de duas músicas do Amit Trivedi em sequência, mas devo honrar o nome deste blog e confessar minha loucura. Sou fascinada, encantada, quase desesperada por Character Dheela. Quando estava vendo o filme, logo levantei para dançar e quase não consegui prestar atenção ao clipe de tanto que me divertia.

Queria me sentir ofendida com o Salman Khan sentado enquanto é rodeado por mulheres rebolativas, mas nem isto consigo quando esta bendita música começa a tocar. Logo eu, que reclamo tanto dessa mania de inglês em tudo que é música, que me incomodo com essas tentativas de rap, que detesto o Salman Khan, logo eu...amo uma música que contém a frase "the way your body move, tik tik tik tak"! Bom, aprendi uma lição: posso ler o quanto quiser e teorizar de tudo, mas no fim, sorrio mesmo para o que me diverte mais. E que as moças cheias de curvas dominem. Arrasa, Zarine!


A melhor coisa que fiz em relação à Mausam foi baixar as expectativas. Filme do Shahid Kapoor, meu noivo? Ok. Dirigido por Pankaj Kapoor, pai do Shahid e meu sogrão por consequência? Ok. Pôsteres mais lindos do mundo? Ok. O nome é uma das minhas palavras favoritas em hindi, que significa ''estação''? Ok. As coisas se passam no Punjab, que sempre me faz feliz? Ok. Mas a heroína era a Sonam Kapoor. Sonam fucking Kapoor, man (este blog está baixando o nível, eu sei)! Desde quando Sonam sabe ser uma boa heroína? Motivo mais do que suficiente para não esperar muito.

Só que gostei. Achei uma graça! É um filme adorável, doce e esteticamente bem cuidado como poucos andam sendo. Vou contar logo a história, antes que continue desfilando elogios cheios de açúcar. Harry (Shahid Kapoor), um piloto da Força Aérea Indiana, vive anos de encontros e desencontros com Aayat (Sonam Kapoor), uma moça Kashmiri por quem se apaixonou à primeira vista. A sinopse parece simples, e por mais que o Pankaj quisesse mostrar que era diferente, ela realmente não tem nada demais. E aí está o maior problema de Mausam: o filme não aceitou que não era uma história de amor imortal, como nos foi vendido. Deveriam tê-lo promovido apenas como uma história de amor, que até podia ser muito forte, mas não tinha acontecimentos lá tão interessantes. A minha sorte é que tenho pavor de spoilers e campanhas de marketing, então não vi quase nada de Mausam antes de estreia, a não ser por um dos trailers, a promo de Rabba Main Toh Gaya Oye e algumas fotos.


A primeira parte do filme é um sonho. O Harry do Shahid é alegre, cheio de vida, mas de um modo não falso. Apesar de ter olhado para ele e rido ao notar que ainda consegue se passar por alguém de 20 anos mesmo tendo 30, finalmente a idade do Shahid está transparecendo. Notei uma maturidade no olhar e nos gestos, uma tranquilidade que já vinha se desenvolvendo desde 2009 (estou com Kaminey na cabeça). Voltando ao Harry, é o herói chocolate em pessoa: adorável, apaixonando-se perdidamente por nada além da beleza da moça, brincalhão. Fiquei preocupada como o desenrolar das coisas a partir da entrada da Sonam. Quando ela abrisse a boca e começasse a fazer as vezes de heroína, meu sonho punjabi poderia vir água abaixo. Mas aí o Pankaj foi meu melhor amigo e usou a estratégia mais clássica: fez a heroína distante, aquela garota que o herói fica olhando de longe, enamorado. Já que o maior mérito da Sonam é ser bonita e parecer frágil, foi perfeito. Um era o oposto do outro, então ambos se completavam. Céus, me senti vendo um filme dos anos 60. Os dois se correspondendo por bilhetes mesmo  estando frente a frente, Harry correndo para os lugares nos quais sabia que ela passaria, suspirando, cantando enquanto a olhava, tudo uma beleza. Ah, Punjab. Quem não te conhece, como eu, que te compre e te ame pelos filmes.


Segunda parte. Harry e Aayat tem um desencontro lá no começo e reencontram-se anos depois, na Escócia. Ele, um belo piloto de bigode da Força Aérea Indiana. Ela, vendendo ingressos para concertos de orquestra (não entendi bem qual foi o rumo da vida dela). Até começou bem: ela o viu primeiro e começou a correr para vê-lo de longe, assim como ele havia feito na primeira parte do filme. Tudo de uma sweeteza admirável. Entretanto, os problemas logo começaram. O principal foi, para a minha surpresa, a atuação do Shahid. O que tinha acontecido com o Harry? Está certo que havia passado sete anos e ele agora era um homem adulto, mas o personagem ficou antipático. Todo sisudo, não parecia haver um mínimo de conexão com a pessoa da primeira parte. A Sonam mal havia se mostrado na primeira parte e ainda assim conseguiu estabelecer alguma similaridade entre a Aayat do antes e a do depois. Porém, que fique claro que não estou dizendo que ele começou a atuar mal, muito pelo contrário, está cada vez melhor. Só acho que a mudança foi um pouco inesperada.

Este momento do filme é um pouco mais intenso porque os personagens ficam fisicamente mais próximos um do outro, é quando o romance entre eles deixa de ser algo idealizado.Só que o destino os separa de novo e aí a coisa realmente começa a ficar chata. É muito sofrimento desnecessário! A história se desenrola de 1992 até hoje, então chega um momento em que você começa a se perguntar como eles conseguiram se separar tanto, o porquê de a comunicação ser tão difícil. Ninguém tinha uma lista telefônica por perto, ou a Aayat não poderia ter rodado a Aeronáutica toda atrás do Harry? Até pensei em comunicação online, mas logo me lembrei de que pelo menos eu demorei muito a ter acesso à internet, as coisas não eram assim tão fáceis nos anos 90 e começo dos 2000. De todo modo, para tirar este tipo de pensamento da reta, o filme poderia ter se passado nos anos 50 ou 60, sei lá. Ninguém ali parecia muito ligado ao que estava acontecendo em seu tempo, mesmo que alguns eventos reais tenham sido incluídos na história. Jogando os personagens em outra época, todos os desencontros seriam mais justificáveis.

Enfim, só sei que eu estava entediada, mas não muito incomodada com o desenrolar do filme. Até gostei das cenas finais (das revoltas e do parque), por mais artificiais que tenham sido. Senti um pouco de tristeza ao ver que tentaram criar grandes e profundas cenas que não ficaram especiais, como a dos dois falando de amor (que brega) na chuva e a da Sonam chorando encostada no armário. Sério, por que ainda insistem em fazer a Sonam chorar? Ela ainda não sabe, gente! Vocês ficam tratando a menina como atriz, vai que ela começa a acreditar? Como ainda é muito nova, não desisti de vê-la desenvolver algum talento. Porém, confesso que seu lento progresso começa a me desanimar. E ninguém mais está comigo na espera.


Uma história um pouco escondida no meio da principal me interessou muito: a de Rajjo (Aditi Sharma), moça que vive na aldeia de Harry e é apaixonada por ele. Pensei que sua história fosse acabar assim que começasse o amor Harry-Aayat e ela de fato se casou depois, mas não esperava que seu amor fosse se manter. Mesmo casada e com um filho, ainda sentia raiva de Aayat e estava disposta a ir com Harry onde este quisesse. Fiquei triste por ela e feliz por alguma história mais envolvente (apesar de pequena) ter aparecido.

Se a história decepciona e o visual encanta, a trilha e os clipes de Mausam arrasam! Foi composta pelo problemático do Pritam, mas o que realmente gostei foram as letras, especialmente as das minhas duas canções favoritas: Ik Tu Hi Tu Hi e Sajh Dhaj Ke. Por falar nesta última, há quanto tempo não via um musical punjabi tão divertido? Ela é cantada pelo Mika Singh, que para mim é "a" voz do Shahid Kapoor por causa de Mauja Hi Mauja do Jab We Met (2007), um dos meus primeiros filmes indianos. Não estou mais conseguindo pensar claramente sobre a música porque estou tentando ouvi-la, dançar e escrever ao mesmo tempo. As letras são do Irshad Kamil, que pelo que estou lendo, também escreveu outras letras que adoro, do Love Aaj Kal (2009).


Mausam é um filme que merecia ter tido uma história mais bem pensada e menos expectativas. Mas entendo que seja difícil. Além de prometer ser um romance tradicional como há tempos não se via, foi a primeira parceria entre pai e filho. Isso sem contar todos os problemas que teve durante as gravações, mas não quero falar de tragédia. O que ficou para mim é que parece que o fôlego se perdeu na segunda parte. Talvez devessem ter continuado o ritmo, que estava igual a todo romance de filme indiano já visto. Hehe, parecia até um filme do Shahrukh Khan nos anos 90. É muito esforço pra fazer algo assim não funcionar, hein? Também não deveriam ter mudado tanto de locação. Escócia, Suíça, volta pro Punjab, vai pra não sei onde...que coisa mais boba. Me deixou confusa, houve uma hora em que já não sabia quem estava onde.

Bom, mas o visual do filme é lindo de olhar. Estranhamente, achei a Sonam menos linda do que sempre. E lindamente, o bigodinho hitleriano do Shahid não me incomodou. Ele estava atraente do início ao fim! Pena que decidiram mostrar muito estilo em suas cenas vestido de piloto, daí era um festival de vento e câmera lenta em qualquer cena na qual houvesse um avião. A química entre os dois foi estranha...não era inexistente, mas também não era forte. Se for para fazer uma escala, é maior que a da Sonam com o Imran em I Hate Luv Storys e menor que a dele com a Amrita em Vivah. Talvez o problema não tenha sido "muito drama por pouca coisa", já que meus romances favoritos podem ser descritos assim. Talvez seja uma mistura da história que fica cansativa com esses dois. Acho que se fosse Shahid-Amrita ou Shahid- qualquer uma que não seja Sonam, eu teria me emocionado mais. O final foi estranho. Além de eu estar até agora me perguntando de onde surgiu e para onde foi o cavalo branco, o clima foi totalmente quebrado por um musical, coisa que raramente me incomoda. Lembro de vários filmes do Shahid terminando assim porque ele dança muito bem e provavelmente queriam aproveitá-lo, mas este filme não tinha clima para isto. Tudo muito poético no final e PÁ, um musical todo tuntz-tuntz. Tá bom, nem isto me incomodou tanto, já que eu ainda estava encantada. E a ação do fim realmente me envolveu. É um romance de Bollywood e você sabe o que irá acontecer, mas se uma cena de perseguição é bem feita, não importa a previsibilidade: o medo se instaura em você. Isto aconteceu comigo.



Mesmo com todos os problemas, gostei muito do filme. É perfeito para essas tardes ociosas de férias que estou tendo. De todo modo, não poderia falar mal mesmo que quisesse. Sabem como é, família é complicado. Melhor sorte na próxima, Pankaj sir!

Ps: esses tratamentos médicos à la Hum Saath-Saath Hain são engraçados.
Ps²: refleti agora que se o filme se passasse em outra época, o cabelo do Shahid não poderia estar tão bonitinho e moderno (sei que só ando falando coisas inúteis). Sendo assim, está tudo bem.
Minha família está gritando e rindo aqui ao meu redor, então este post não será nada do que planejei. Mas eu queria vir aqui hoje! Além de véspera de Natal, hoje o blog faz 1 ano. Começou como Carol Na Velha Bolly, passou para Vivendo Na Velha Bolly, até que a velha Bolly pediu para encontrar a nova e o Deewaneando surgiu. Mesmo com todas essas mudanças de nome, a essência do blog continuou a mesma: é meu lar bollywoodiano online. Posso brincar, chorar minhas mágoas, fazer gracinhas com fotos de gente que deveria ser séria, confessar minha atração pelo Rajendra Kumar, deixar Bolly (Kolly, Tolly, etc) tão parte da minha vida quanto sei que é. Compartilho com meus amigos, volto quando quero relembrar algo, conheço umas poucas (porém, preciosas) pessoas. Estou feliz. De verdade.

E é isto. Feliz Natal, acreditem no que acreditarem. Eu mesma dou meu próprio significado ao Natal: é o dia mágico em que a família se reúne, tento não me incomodar com o barulho e rio muito. Meu dia favorito! E feliz 1 ano de Deewaneando! Desejo continuar fazendo o que estou fazendo, hahahaha! Espero que minhas notas aguentem...

Se for para comemorar, uma música logo me vem à cabeça!



Até a próxima!
Às vezes um filme pode ter muitos elementos que fariam você odiá-lo, mas o modo como as coisas são conduzidas é tão interessante e outros elementos são tão bonitos que você acaba gostando do conjunto. Mais do que gostar do conjunto, me senti feliz por ter tido a oportunidade de ver Aradhana. É um daqueles filmes feitos para ser um espetáculo. Tudo é tão importante para a história que peço a quem ainda não viu e tem interesse que só volte aqui depois de assistir ao filme, pois considero até a mínima coisa como spoiler. 

Anos 60: muito, muito, muuuito pyaar!

Arun (Rajesh Khanna) é um piloto da Força Aérea Indiana que se apaixona por Vandana (Sharmila Tagore) em um de seus dias de folga. Os dois se amam muito e acabam se casando em um momento no qual se deixaram levar, mas a união não foi feita publicamente. E em um momento de fraqueza, dormem juntos e Vandana logo engravida. O casal planejava fazer um casamento tradicional perante todos, mas Arun morre tragicamente em um acidente de avião, sem poder contar a ninguém que sua união com Vandana era legítima. Assim, ela deve criar seu filho sozinha para cumprir o sonho de Arun: que o filho também seja um piloto da Força Aérea Indiana. Vandana é condenada a muitos anos de prisão logo na primeira cena, então seguimos sua história para saber o que a levou até aquela situação. O filme foi dirigido por Shakti Samanta e o roteiro é de Sachin Bhowmick. É versão de um filme hollywoodiano de 1946 que é conhecido no Brasil como Só Resta Uma Lágrima ("To Each His Own").


Me seduzir de unifome não vale, Rajesh!
Uma ideia muito errada passada pela história é a de que filhos devam ser criados para cumprir os sonhos de seus pais. Prefiro chamar de “ideia” ao invés de “mensagem” porque ninguém diz isto diretamente, como se fosse uma obrigação — pode-se entender como algo acontecido especificamente naquela família cuja história estamos conhecendo. Entretanto, ainda assim não esqueço o contexto em que esta história foi contada. Isto é Bollywood, aqueles eram os anos 60 e sabemos que até hoje fazem inúmeros filmes sobre o quanto os jovens são massacrados pelos sonhos dos pais. E é por todo este contexto maior que não vejo o pedido do Arun para a Vandana como algo tão somente deles assim, sem ser uma situação comum naquele meio social. Tanto pode ser assim, que a única pessoa que perguntou “Mas e se o menino não quiser ser piloto?” fui eu. Esta questão é crucial, já que é a única razão que faz a Vandana querer continuar vivendo após perder o Arun. E por falar nela, sou um pouco egoísta para entender alguém que decide dedicar toda a vida à outra pessoa mesmo que esta não esteja mais aqui, porém ninguém no filme falou nisto como um dever da Vandana, o que achei bem legal. Muito bom também foi o apoio que seu pai lhe deu e o reconhecimento dado à força da filha. Não é todo dia que vemos isto!




Que a sociedade indiana era (ou ainda é, não sei) preconceituosa com as mães solteiras, eu já sabia pelos filmes. Agora, uma informação trazida por Aradhana e que preciso de alguém para me tirar a dúvida: na Índia, em algum momento as mães solteiras foram proibidas de registrar seus filhos? Fiquei confusa com toda a necessidade de dar a criança para a adoção e depois a própria mãe adotá-la para que pudesse ter o filho legalmente. 

Agora vou para tudo o que faz Aradhana ser tão lindo e mágico. Meus romances favoritos são os dos anos 60, porque conseguem reunir tudo o que faz o amor fantasioso de Bollywood ser tão especial: as músicas eram melhores, os cantores, os cenários, as paisagens, os sáris, os vinte quilos de maquiagem das atrizes, o modo como a heroína e o herói se olham, as falas...tudo o que pode fazer um romance bollywoodiano arrancar suspiros está presente em peso nos anos 60. E este filme é lindo de se olhar. Parecia que o Rajesh e a Sharmila realmente não conseguiam tirar o outro da cabeça. Cada vez que ela suspirava, eu entendia por quê. Toda vez que ele sorria por estar muito apaixonado, eu sabia que fazia sentido. Às vezes os romances acontecem rápido demais e eu, desconfiada que sou do amor à primeira vista, passo o filme inteiro me perguntando se aquele tal “amor” tão arrebatador realmente vai durar. Foi diferente em Aradhana porque o próprio Arun disse que tudo foi muito rápido e parecia surpreso por amar intensamente a Vandana em um espaço de tempo tão curto. Esta pontinha de sinceridade no meio do sonho foi o suficiente para o casal me convencer. 

Ô sorriso bonito, sô!
Outro fator que faz o casal ser tão bom é que sua relação começa com muita inocência e brincadeiras, para lentamente (e depois de muitas musiquinhas lindas) ficar sério e nos fazer torcer para que tudo dê certo. Daí pode-se imaginar meu semi-desespero (eu estava num bom dia, não ia me desesperar com qualquer coisa) quando do nada o Arun morreu e...pá, surpresa! O filme era da Vandana, não do casal! Eu andava muito acostumada com filmes antigos centrados na heroína serem protagonizados pela Nutan, então ver a Sharmila Tagore sob os holofotes foi muito surpreendente. Gostei tanto da sua atuação! Não digo que tenha sido a mais maravilhosa do mundo porque isto é competência da Nutan, mas até anotei durante o filme que estava surpresa de ver tanto amor nos olhos da Sharmila pelos meninos que interpretaram seu filho, especialmente pelo menorzinho. Foi muito fácil acreditar na sua transição de mocinha apaixonada e despreocupada para mãe que sacrifica tudo pelo filho. A transição é ainda mais forte quando a Sharmila é maquiada para mostrar a passagem dos anos. Não é que consegui vê-la como velhinha, apesar de a terem escurecido? Mais uma prova de que, surpresa, a Sharmila é talentosa! Conseguiu carregar mais de duas horas de filme, fazendo bem tanto a parte mais doce quanto a dramática. Vê-la neste filme pode ser interessante para a Bárbara, que, assim como eu, implica com a Sharmila (e a Mala Sinha). 

Mãe, acordei cor de barro.


A trilha é uma das pérolas do S.D. Burman, que sempre fazia as melhores. Todas as canções são lindas, letra e melodia. Até música sobre abelhinha tem.

Mere Sapno Ki Rani é o  famoso clipe em que o Rajesh flerta com a Sharmila enquanto ela viaja de trem. E o Rajesh está tão adorável, mas tão adorável (agora multiplique por mil)! Fazia tempo que não me apaixonava por um herói dos anos 60. Chanda Hai Tu, Mera Suraj Hai Tu rapidamente entrou para minha lista de favoritas por ser uma canção de mãe para filho. É fácil transformá-la em canção de ninar, e eu já disse que não resisto à elas. Adoro crianças e me emociono fácil com canções relacionadas à elas. Enfim, meu futuro filho vai gostar dessa música.

Roop Tera Mastana é um clás-si-co do Kishore Kumar que se tornou minha música de diversão (não tem nada melhor pra sensualizar, oi!). No filme ela é utilizada para dar a entender que uma relação sexual está ocorrendo/vai ocorrer, só que demorei muito a entender que era isto. Esses filmes indianos antigos sempre me confundem quando querem falar de sexo, mas sem fazê-lo claramente. De todo modo, a lição a ser tirada é: se o Rajesh Khanna está olhando para você com uma estranha cara de cachorro carente (por isso que eu não estava entendendo) e você está enrolada em um lençol laranja, provavelmente tem coisa aí.

E eu lá ia deixar passar a foto mais 
fofa de todos os tempos da Faridinha?

Hoje em dia já aceitei que quanto mais problematizo o mundo, menores são as chances de eu gostar de absolutamente tudo de um filme. Sempre vou achar alguma coisinha que me incomoda, e entender isto me fez sentir menos culpa pelos defeitos que venho encontrando nos meus filmes favoritos, coisas que ou não percebi ou não me incomodaram antes. Não gostei de toda a devoção e sacrifício em Aradhana porque não é isto que quero para a minha vida ou para a de qualquer pessoa, porém todo aquele sofrimento foi muito bem contado e nunca me desinteressei da história. Na minha opinião, um dos motivos para o filme funcionar é que a parte dramática (com a Sharmila sofredora e abandonada) não se estendeu muito, logo entrando a Farida Jalal com toda aquela vivacidade (bela presença no filme). Sendo assim, é um filme bem equilibrado. O Rajesh e a Sharmila tinham sensibilidade um com o outro, o filme traz muitos momentos doces para equilibrar com a carga dramática e o final foi muito bonito. Na minha visão, já é o suficiente para achar que um filme pelo menos merece ser visto.
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"DEEWANEANDO"?

Devanear = divagar, imaginar, fantasiar. Deewani = louca, maluca. Deewaneando = pensar aleatória e loucamente sobre cinema indiano.

Meu nome é Carol e sou a maior bollynerd que você vai conhecer! O Deewaneando existe desde 2010 e guarda todo o meu amor pelo cinema indiano, especialmente Bollywood - o cinema hindi. Dos filmes antigos aos mais recentes, aqui e no Bollywoodcast, seguirei devaneando sobre Bollywood.

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