Escrever sobre cinema indiano sendo uma pessoa de fora de cultura envolve diversas limitações. A primeira provavelmente é a língua, que impede o acesso a elementos muito comentados por fãs do cinema hindi, como a forma de o artista falar os diálogos e diversas brincadeiras e poesias que só conseguem ser acessadas pelos falantes nativos. A restrição que considero mais marcante ainda é a barreira cultural, que sempre restringirá minha compreensão completa da obra. Além da falta de conhecimento de elementos históricos, dos quais diversas vezes só tomo conhecimento após assistir a um filme, determinadas questões sociais também passam desapercebidas mesmo que eu já as conheça antes, pois não fazem parte do meu cotidiano e entender a questão de uma forma geral não é o mesmo que reconhecer as microexpressões de suas manifestações numa obra de arte.
Quando relatei no blog no ano passado as dificuldades vividas pela equipe do filme durante as filmagens devido a ataques de grupos políticos e religiosos, já soube que Padmaavat exigiria um pouco mais de atenção no momento de assisti-lo. Deepika e o diretor Sanjay Leela Bhansali foram submetidos a tantas ameaças de morte e isso levou a tantos adiamentos que parecia que todos já havíamos visto o filme antes mesmo de ser lançado. É comum que tensões políticas e religiosas atrapalhem a produção de filmes indianos, sendo notório os ataques violentos do partido Shiv Sena a cinemas onde foram exibidos os filmes Fire em 1998 e My Name Is Khan em 2010, por tratarem dos temas homossexualidade e islamismo. A última obra de Bhansali teve de lidar com os ataques da organização Karni Sena, grupo Rajput cujo principal objetivo é promover a própria casta e que passou de todos os limites aceitáveis ao violentamente atacar e ameaçar a produção do filme por terem a informação de que nele haveria uma sequência em que Alauddin Khilji teria um encontro romântico em sonho com a rainha Padmavati. A lenda da rainha Padmavati é sagrada para os Rajput, que a colocam como exemplo do sacrifício feminino.
A existência da rainha é contestada, mas a lenda conta a história da rainha Padmavati (Deepika Padukone), segunda esposa do rei de Chittor Ratan Singh (Shahid Kapoor). Sua beleza é motivo de cobiça para o irascível Alauddin Khilji (Ranveer Singh), líder da dinastia muçulmana que governou o sultanato de Délhi de 1290 a 1320. A lenda contada no poema Padmavat, escrito por Malik Muhammad Jayasi em 1540, conta que Khilji teria invadido Chitor guiado pelo desejo de ter Padmavati para si, levando à uma guerra que resultou na cerimônia do Jauhar, em que as mulheres queimam a si mesmas para não serem violadas.
Bhansali mais uma vez escolheu a estrutura de triângulos para compor sua história, sendo desta vez em quantidade maior que antes. Há a disputa entre Ratan Singh e Khilji cujo centro é Padmavati; a relação de ciúmes entre Ratan Singh, sua primeira esposa, Nagmati (Anupriya Goenka) e a bela Padmavati; e até mesmo a sugestiva relação entre Khilji, seu escravo Malik Kafur (Jim Sarbh) e a relação obsessiva do primeiro com Padmavati ou com sua esposa, competentemente interpretada por Aditi Rao Hydari. A movimentação de cada uma dessas relações está presente em cada cena e mantém um clima de tensão permanente, contraposto por uma estética impecável com lindos figurinos e bastante uso de tons amarelados, que foram combinados com cores mais vivas no reino de Chittor e mais escuras no sultanato. Esta simples oposição de cores já deixam claras as posições morais escolhidas pelo diretor desde o começo: os Rajput são dignos e nobres e os muçulmanos, sujos e imorais. E foi aí que começaram minhas questões com este filme.
Falar sobre hindus e muçulmanos na Índia é tarefa delicada devido às tensões comunais que existem há anos entre os dois grupos religiosos, tensões estas que durante muito tempo foram responsáveis por representações negativas de muçulmanos na cultura popular, inúmeras vezes postos como vilões, terroristas e aficionados - não à toa a suposição de uma cena romântica imaginária entre uma rainha hindu e um sultão muçulmano levar a cenas de violência reais. É devido à sensibilidade do assunto que o simplismo escolhido por Bhansali ao representar a oposição entre o rei Rajput e o sultão muito me incomodou. Khilji é colocado como um homem sujo, extremamente rústico e com uma crueldade sem limites. Ele come como um porco, está sempre com os cabelos soltos e desgrenhados, mata e ostenta as cabeças de suas vítimas e abusa de mulheres ao seu bel prazer. O tom da atuação de Ranveer ajuda a compor esse personagem sem nuance alguma, tendo o ator e o diretor escolhido uma intensidade alta para o personagem que já se apresenta na primeira cena e permanece sem nenhuma variação ao longo das quase três horas de filme, com exceção de um momento de fragilidade física de Khilji. Seria mais interessante ver sua loucura e obsessão por Padmavati crescendo com o desenrolar da história. O trabalho sensível e um pouco mais rico em tonalidades de Shahid Kapoor me impressionou mais, e sei que esta é uma declaração que não acompanha a opinião geral de público e crítica de que Ranveer Singh dominou o filme. Shahid há muitos anos tem seu talento desperdiçado em péssimas escolhas de filmes que na maioria das vezes se transformam em fracassos de bilheteria, condição que torna seu personagem em Padmaavat ainda mais agradável para os fãs de seu trabalho. O ator alternou entre uma atuação mais doce e suave nas cenas românticas com Deepika, um estrategista altamente nobre nas discussões sobre a guerra e um homem indignado ao lidar com Khilji, conseguindo trazer um pouco mais de dinâmica ao personagem unidimensional apresentado por Bhansali dentro de um roteiro engessado que trazia quatro menções ao orgulho e superioridade Rajput a cada cinco frases.
Deepika não teve espaço durante a primeira metade do filme, tendo praticamente apenas emprestado sua beleza para longas sequências em câmera lenta do seu romance com Shahid e com uma ou outra cena mais intensa, como o momento antes do casamento em que o fere com um punhal para que não vá embora do reino onde vive. Uma participação tão pequena de sua personagem estava sendo uma surpresa após a expressividade de seus dois trabalhos anteriores com Bhansali, como Leela e Mastani. A segunda parte logo mudou o cenário e a elogiada inteligência da personagem finalmente teve uso em seus estratagemas militares e nas discussões com o marido sobre seu papel como rainha. A personagem de Anupriya Goenka a todo momento coloca a beleza de Padmavati como responsável por todos os males que atingem Chittor, mas há um belo e breve momento no qual se questiona a culpabilidade da vítima, sendo lembrado que o erro está no homem descontrolado que não sabe respeitar uma mulher. A inserção dessa questão na história pareceu uma forma de adequar o filme às discussões da última década sobre o papel da mulher, de forma a não haver excesso de críticas à completa glorificação do Jauhar que é feita nas cenas finais, que são estonteantes e certamente um dos mais belos momentos da carreira do diretor e da atriz. A prática é um horror que mostrava a imensidão da vulnerabilidade das mulheres ao longo da história e foi apresentada no filme de uma forma etérea e muito mais ligada a sentimentos de honra e dignidade do que de desespero e fragilidade. O ato de guerra é apresentado como a maior derrota da vida de Khilji, e não da rainha e das outras mulheres. Padmavati ser um ícone Rajput até hoje mostra claramente qual é o lugar que estes homens reservaram para as mulheres.
Os papéis secundários do filme não foram bem explorados. O romance homossexual entre Khilji e seu criado é apresentado até comicamente por meio de comentários pejorativos de outros personagens e de um musical hilário em que Malik Kafur se banha com Khilji e ilumina com uma tocha seu encontro romântico com uma mulher. Jim Sarbh é inicialmente apresentado como um homem tão sem escrúpulos quanto o sultão, mas após isso cai apenas nos lugares comuns reservados a homossexuais em filmes de Bollywood, sem grande espaço ou desenvolvimento. A rainha Nagmati é caracterizada de forma a não parecer ter a mesma beleza ou força que Padmavati, tendo como função ser o contraponto para que a outra rainha possa brilhar mais em cena. Do outro lado da história tivemos a linda atuação de Aditi Rao Hydari como a esposa dividida entre o que é certo e seu amor pelo monstro com quem se casou. Sempre vemos a atriz em papéis secundários e ter conseguido brilhar em um filme com tanto foco no trio principal é sinal de que merece oportunidades maiores em sua carreira.
Os musicais não são tão marcantes, apesar das belas canções. Ghoomar foi o mais próximo do que já conhecemos da grandeza tradicionalista dos musicais históricos de Bhansali e desta vez me pareceu também a coreografia mais próxima da vida real, com movimentos mais lentos - comparando com algo como Nagada Sang Dhol, por exemplo. A belíssima intepretação de Arijit Singh em Binte Dil foi enfraquecida pelo tom involuntariamente engraçado que a canção acabou tomando, como descrito anteriormente. Já a enérgica Khalibali parece uma versão assustadora de Malhari, como divertidamente apontou um comentarista no Youtube. Como não fui cativada pela atuação de Ranveer, a canção me pareceu apenas mais uma exposição das risadas maníacas e olhares vidrados que o ator utilizou durante todo o filme. Não há muito o que falar sobre a forma como o diretor ambienta seus musicais, pois Bhansali já tem seu lugar na história do cinema indiano por nos trazer alguns dos mais belos e grandiosos musicais já vistos.
Padmaavat é um filme sobre expectativas, no qual a tensão é sustentada com os personagens passando a maior parte do tempo sitiados à espera de um ataque. Associando isso a um excesso de câmeras lentas, a dinâmica do filme acaba se tornando morosa. Os péssimos efeitos especiais também agem contra a ostentação visual característica do diretor, tirando o foco do espectador em algumas cenas para o quão mal feitos estão os efeitos gráficos dos animais. Gostei muito do filme pelas atuações de Shahid, Deepika e Aditi Rao Hydari, e também devido a expectativa de ocorrência da tragédia, porém é importante sabermos reconhecer quando uma obra de arte pode ter efeitos nocivos. Este é um filme inserido em uma sociedade profundamente dividida e cujas divisões põem muitas vidas em risco. Fazer uma separação tão clara entre o bem e o mal utilizando personagens reais de religiões diferentes, sem nenhuma gradação de cinza, é uma escolha artística nada ousada, além de ofensiva. A ode ao sacrifício feminino é incômoda, por mais bela que a cena tenha sido - e facilmente é uma das melhores sequências dramáticas dos últimos tempos, arrepiante para dizer o mínimo.
As escolhas artísticas de Sanjay Leela Bhansali refletiram suas próprias convicções e também aquelas que deixariam o caminho para o seu filme menos em risco devido à ação de grupos fanáticos. É importante que o diretor tenha espaço para criar da forma como quiser, e cabe a nós como público julgar o resultado dessa criação. Considerando que o grupo Karni Sena, com todo o seu ódio, violência e total desrespeito pela arte, declarou após o lançamento que está satisfeito com o filme por glorificar a honra e o valor Rajput e que todo Rajput sentiria orgulho após ver Padmaavat, fica claro a que tipo de interesse e visão esta bela obra de arte atende.
A existência da rainha é contestada, mas a lenda conta a história da rainha Padmavati (Deepika Padukone), segunda esposa do rei de Chittor Ratan Singh (Shahid Kapoor). Sua beleza é motivo de cobiça para o irascível Alauddin Khilji (Ranveer Singh), líder da dinastia muçulmana que governou o sultanato de Délhi de 1290 a 1320. A lenda contada no poema Padmavat, escrito por Malik Muhammad Jayasi em 1540, conta que Khilji teria invadido Chitor guiado pelo desejo de ter Padmavati para si, levando à uma guerra que resultou na cerimônia do Jauhar, em que as mulheres queimam a si mesmas para não serem violadas.
Bhansali mais uma vez escolheu a estrutura de triângulos para compor sua história, sendo desta vez em quantidade maior que antes. Há a disputa entre Ratan Singh e Khilji cujo centro é Padmavati; a relação de ciúmes entre Ratan Singh, sua primeira esposa, Nagmati (Anupriya Goenka) e a bela Padmavati; e até mesmo a sugestiva relação entre Khilji, seu escravo Malik Kafur (Jim Sarbh) e a relação obsessiva do primeiro com Padmavati ou com sua esposa, competentemente interpretada por Aditi Rao Hydari. A movimentação de cada uma dessas relações está presente em cada cena e mantém um clima de tensão permanente, contraposto por uma estética impecável com lindos figurinos e bastante uso de tons amarelados, que foram combinados com cores mais vivas no reino de Chittor e mais escuras no sultanato. Esta simples oposição de cores já deixam claras as posições morais escolhidas pelo diretor desde o começo: os Rajput são dignos e nobres e os muçulmanos, sujos e imorais. E foi aí que começaram minhas questões com este filme.
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| Bem e mal |
Falar sobre hindus e muçulmanos na Índia é tarefa delicada devido às tensões comunais que existem há anos entre os dois grupos religiosos, tensões estas que durante muito tempo foram responsáveis por representações negativas de muçulmanos na cultura popular, inúmeras vezes postos como vilões, terroristas e aficionados - não à toa a suposição de uma cena romântica imaginária entre uma rainha hindu e um sultão muçulmano levar a cenas de violência reais. É devido à sensibilidade do assunto que o simplismo escolhido por Bhansali ao representar a oposição entre o rei Rajput e o sultão muito me incomodou. Khilji é colocado como um homem sujo, extremamente rústico e com uma crueldade sem limites. Ele come como um porco, está sempre com os cabelos soltos e desgrenhados, mata e ostenta as cabeças de suas vítimas e abusa de mulheres ao seu bel prazer. O tom da atuação de Ranveer ajuda a compor esse personagem sem nuance alguma, tendo o ator e o diretor escolhido uma intensidade alta para o personagem que já se apresenta na primeira cena e permanece sem nenhuma variação ao longo das quase três horas de filme, com exceção de um momento de fragilidade física de Khilji. Seria mais interessante ver sua loucura e obsessão por Padmavati crescendo com o desenrolar da história. O trabalho sensível e um pouco mais rico em tonalidades de Shahid Kapoor me impressionou mais, e sei que esta é uma declaração que não acompanha a opinião geral de público e crítica de que Ranveer Singh dominou o filme. Shahid há muitos anos tem seu talento desperdiçado em péssimas escolhas de filmes que na maioria das vezes se transformam em fracassos de bilheteria, condição que torna seu personagem em Padmaavat ainda mais agradável para os fãs de seu trabalho. O ator alternou entre uma atuação mais doce e suave nas cenas românticas com Deepika, um estrategista altamente nobre nas discussões sobre a guerra e um homem indignado ao lidar com Khilji, conseguindo trazer um pouco mais de dinâmica ao personagem unidimensional apresentado por Bhansali dentro de um roteiro engessado que trazia quatro menções ao orgulho e superioridade Rajput a cada cinco frases.
Deepika não teve espaço durante a primeira metade do filme, tendo praticamente apenas emprestado sua beleza para longas sequências em câmera lenta do seu romance com Shahid e com uma ou outra cena mais intensa, como o momento antes do casamento em que o fere com um punhal para que não vá embora do reino onde vive. Uma participação tão pequena de sua personagem estava sendo uma surpresa após a expressividade de seus dois trabalhos anteriores com Bhansali, como Leela e Mastani. A segunda parte logo mudou o cenário e a elogiada inteligência da personagem finalmente teve uso em seus estratagemas militares e nas discussões com o marido sobre seu papel como rainha. A personagem de Anupriya Goenka a todo momento coloca a beleza de Padmavati como responsável por todos os males que atingem Chittor, mas há um belo e breve momento no qual se questiona a culpabilidade da vítima, sendo lembrado que o erro está no homem descontrolado que não sabe respeitar uma mulher. A inserção dessa questão na história pareceu uma forma de adequar o filme às discussões da última década sobre o papel da mulher, de forma a não haver excesso de críticas à completa glorificação do Jauhar que é feita nas cenas finais, que são estonteantes e certamente um dos mais belos momentos da carreira do diretor e da atriz. A prática é um horror que mostrava a imensidão da vulnerabilidade das mulheres ao longo da história e foi apresentada no filme de uma forma etérea e muito mais ligada a sentimentos de honra e dignidade do que de desespero e fragilidade. O ato de guerra é apresentado como a maior derrota da vida de Khilji, e não da rainha e das outras mulheres. Padmavati ser um ícone Rajput até hoje mostra claramente qual é o lugar que estes homens reservaram para as mulheres.
Os papéis secundários do filme não foram bem explorados. O romance homossexual entre Khilji e seu criado é apresentado até comicamente por meio de comentários pejorativos de outros personagens e de um musical hilário em que Malik Kafur se banha com Khilji e ilumina com uma tocha seu encontro romântico com uma mulher. Jim Sarbh é inicialmente apresentado como um homem tão sem escrúpulos quanto o sultão, mas após isso cai apenas nos lugares comuns reservados a homossexuais em filmes de Bollywood, sem grande espaço ou desenvolvimento. A rainha Nagmati é caracterizada de forma a não parecer ter a mesma beleza ou força que Padmavati, tendo como função ser o contraponto para que a outra rainha possa brilhar mais em cena. Do outro lado da história tivemos a linda atuação de Aditi Rao Hydari como a esposa dividida entre o que é certo e seu amor pelo monstro com quem se casou. Sempre vemos a atriz em papéis secundários e ter conseguido brilhar em um filme com tanto foco no trio principal é sinal de que merece oportunidades maiores em sua carreira.
Os musicais não são tão marcantes, apesar das belas canções. Ghoomar foi o mais próximo do que já conhecemos da grandeza tradicionalista dos musicais históricos de Bhansali e desta vez me pareceu também a coreografia mais próxima da vida real, com movimentos mais lentos - comparando com algo como Nagada Sang Dhol, por exemplo. A belíssima intepretação de Arijit Singh em Binte Dil foi enfraquecida pelo tom involuntariamente engraçado que a canção acabou tomando, como descrito anteriormente. Já a enérgica Khalibali parece uma versão assustadora de Malhari, como divertidamente apontou um comentarista no Youtube. Como não fui cativada pela atuação de Ranveer, a canção me pareceu apenas mais uma exposição das risadas maníacas e olhares vidrados que o ator utilizou durante todo o filme. Não há muito o que falar sobre a forma como o diretor ambienta seus musicais, pois Bhansali já tem seu lugar na história do cinema indiano por nos trazer alguns dos mais belos e grandiosos musicais já vistos.
Padmaavat é um filme sobre expectativas, no qual a tensão é sustentada com os personagens passando a maior parte do tempo sitiados à espera de um ataque. Associando isso a um excesso de câmeras lentas, a dinâmica do filme acaba se tornando morosa. Os péssimos efeitos especiais também agem contra a ostentação visual característica do diretor, tirando o foco do espectador em algumas cenas para o quão mal feitos estão os efeitos gráficos dos animais. Gostei muito do filme pelas atuações de Shahid, Deepika e Aditi Rao Hydari, e também devido a expectativa de ocorrência da tragédia, porém é importante sabermos reconhecer quando uma obra de arte pode ter efeitos nocivos. Este é um filme inserido em uma sociedade profundamente dividida e cujas divisões põem muitas vidas em risco. Fazer uma separação tão clara entre o bem e o mal utilizando personagens reais de religiões diferentes, sem nenhuma gradação de cinza, é uma escolha artística nada ousada, além de ofensiva. A ode ao sacrifício feminino é incômoda, por mais bela que a cena tenha sido - e facilmente é uma das melhores sequências dramáticas dos últimos tempos, arrepiante para dizer o mínimo.
As escolhas artísticas de Sanjay Leela Bhansali refletiram suas próprias convicções e também aquelas que deixariam o caminho para o seu filme menos em risco devido à ação de grupos fanáticos. É importante que o diretor tenha espaço para criar da forma como quiser, e cabe a nós como público julgar o resultado dessa criação. Considerando que o grupo Karni Sena, com todo o seu ódio, violência e total desrespeito pela arte, declarou após o lançamento que está satisfeito com o filme por glorificar a honra e o valor Rajput e que todo Rajput sentiria orgulho após ver Padmaavat, fica claro a que tipo de interesse e visão esta bela obra de arte atende.









