Anamika (1973)

21.9.11 Carol Batista 2 Comments

É sério que eu realmente acreditava que nunca iria gostar dos anos 70? 

"Tá achando que é minha
esposa, maluca?"
Devendra (Sanjeev Kumar), é um famoso escritor que odeia as mulheres. Para seu azar, seu adorável tio o convence a levar para casa uma moça que eles viram se jogando de um carro em movimento. A moça (Jaya Badhuri Bachhan*) está desmemoriada e ao acordar insiste que Devendra é seu marido. Ninguém entende nada, mas o médico diz para cuidarem bem dela. Devendra decide dar à moça o nome da personagem do romance que está escrevendo, Anamika, que significa "aquela (ou aquele) que não tem nome". Anamika cativa o tio, a  sobrinha e os amigos do escritor, mas ele resiste à aproximações. Quando começa a se deixar envolver, ele começa a descobrir que talvez o passado dela seja mais obscuro do que imaginava...e que talvez Anamika não seja tão inocente assim. O filme foi dirigido pro  Raghunath Jhalani, que eu não conhecia.

A nossa doce desmemoriada.
Assim que o filme começou e notei que seria mais uma das histórias do tipo "heroína adorável quebra o coração de gelo do herói insensível", esperei não me interessar muito. O que eu não poderia imaginar é que a Jaya me agradaria tanto. Quando se faz este tipo de personagem, corre-se o risco de fazê-la doce demais (o que a deixa chata) ou cheia de vida demais (o que a deixa insuportável). A Jaya conseguiu deixar a Anamika bem no meio, fazendo-a meiga e alegre.

Why so serious?
Não gostei da misoginia inicial do Devendra, mas entendo que às vezes uma situação ruim possa levar a pessoa a extremos. O Sanjeev finalmente me convenceu como herói romântico. Não é como se ele fosse ser meu novo Rishi Kapoor, mas não ter rido dele foi um grande passo. Eu costumava achá-lo bem estranho, então não acreditei que algo pudesse funcionar neste filme quando vi que ele era o par romântico da Jaya (que sempre achei adorável). Ele fez umas expressões muito divertidas nas saias-justas em que a Anamika o colocou, que não foram poucas: foi se deitar na cama dele porque estava com medo dos trovões, usava suas roupas, trocou de roupa no quarto dele sem saber que o pobrezinho (sei!) estava lá. É este tipo de momento que dá uma leveza ao filme, leveza esta que nos faz gostar mais dos personagens. Se tudo se resumisse a um drama sobre a identidade da Anamika e a infelicidade do Devendra, seria bem menos interessante.

Roupas de mulher e sutiã no seu antro de misoginia, Dev ji.
Tenho a impressão de que só eu vi sexo por todos os lados neste filme. Começou com o secretário de Devendra, Hanuman Singh (Asrani). Ele tinha devaneios sexuais intensos nos quais terminava agarrando ou beijando alguma coisa que imaginava ser uma mulher. Como Hanuman faz parte da comédia do filme e eu não estava achando graça (mas não me irritava), parei de pensar nisto. Depois Devendra ficou quieto em seu quarto mesmo sabendo que Anamika estava se trocando perto dele e devaneou sobre chegar perto dela e beijá-la — o que é muita coisa em um filme indiano, especialmente em um de 38 anos atrás. Mais tarde, quando vários segredos de Anamika vão sendo revelados, vemos que seu malvado cunhado Naresh (Ramesh Behl) fez de tudo para abusar dela. Há uma cena em que ele diz que finalmente saciará o desejo de seu coração, então tenta estuprar a Anamika (umas duas vezes). Gente, vão aliviar essa tensão sexual. De preferência, sem recorrer a estupros.

Voltando à Anamika, ela conquistou as pessoas do modo como sempre acontece nos filmes indianos: mostrando que era uma jovem adorável, submissa, tradicional até não poder mais. Só que terei de contar bastante da história para dizer porque não concordo totalmente com esta ideia, ou seja, alerta de spoiler. Já no fim do filme descobrimos que ela nunca esteve desmemoriada e fingiu ser esposa do Dev por ter se apaixonado pelos seus livros antes de conhecê-lo e sempre ter se sentido dele (meio maluca, não?). Ela foi casada antes de parar na casa do Devendra, só que seu marido morreu antes mesmo de a união física ser consumada. Como a Filmi Girl  me fez notar, foi mais uma das raras histórias em que viúvas encontram o amor — o que é maravilhoso. Mas aí fiquei pensando que talvez não tenha sido nada tão incrível, já que ela não havia feito nada com o marido — então tinham mantido a questão de ela entrar "pura" numa relação com o Devendra. Hoje pensei mais um pouco e neste momento cheguei à uma conclusão mais legal: ela sabia que era viúva e mesmo assim decidiu (notem que bela palavra) que aquele era o homem que amava e que ela merecia ser feliz com ele. A viúva não ficou presa à tradição nenhuma, na verdade até mesmo mentiu para conseguir o que queria. Isto é muito legal!

Duas das imagens que mais gosto dos dois, especialmente dele.
Nossa, nunca tinha achado minha moral tão torta quanto agora. Enfim, mesmo pensando no quão legal é a heroína fazendo o que queria, achei engraçado ver como ela julgou como desavergonhadas umas moças que conheceu ao vê-las fumando e bebendo. A Helen fez uma participação especial no filme e fez tudo o que as garotas más podem fazer: bebeu, fumou, usou camisola na frente de um homem, fez item number bombástico. Por falar no item, chama-se Aaj Ki Raat e é um de seus mais famosos. Eu não teria ido atrás do filme se não fosse por ele! Lembro de estar ansiosíssima pelo musical, mas fui me apaixonando tanto pelo filme que o esqueci. Todas as canções são incríveis e a trilha já está entre minhas favoritas. Foi composta pelo R.D. Burman e as letras são do Sahir Ludhianvi, que será citado aqui sempre que possível. Minha maior surpresa foi Bahon Mein Chale Aao, que eu queria saber de onde veio desde que a vi sendo usada para seduzir o Saif Ali Khan em Kal Ho Naa Ho (2003). Adoro ver a Jaya ji encantando o Sanjeev no meio da madrugada, que é como imagino que seja. Meu vício do momento é a fofíssima Logon Na Maro Ise, que acho que será pra sempre meu vídeo favorito da Jaya (competindo com Bahon). Além de ela estar me lembrando um docinho de confeitaria (como a Vyjayanthimala em Dil Pukare), tem toda a relação fofinha desenvolvida entre a Anamika e o Devendra. Adoro essa coisa que os filmes indianos tem de fazer clipes com homens e mulheres adultos brincando como se fossem crianças. Meri Bheegi Bheegi Si também é uma beleza...e só para dizer que não deixei nenhuma de fora, Jaoon To Kahan Jaaon também é uma beleza. Pronto, demonstrei amor à toda a trilha.

Apesar de ter achado muito rápido o modo como a Anamika explicou toda a confusão sobre a sua vida no final, tudo fez sentido e fiquei satisfeita. Anamika tem boas atuações, uma história envolvente, uma boa dose de suspense e uma ótima trilha. É triste um filme tão bom em sua simplicidade ser tão pouco comentado, mas já fiz minha parte contra isto. Agora façam a de vocês e vão atrás dessa perolazinha escondida nos confins dos anos 70!

*Não sabia se a chamava de Jaya Badhuri ou Jaya Bachchan. Como decidi por Neetu Singh ao invés de Neetu Kapoor, faria sentido escolher Jaya Badhuri, porém conheci a Neetu como Singh, assim como a Jaya enquanto Bachchan...só que ela era Badhuri antes do casamento. No fim, "Jaya Badhuri Bachchan" pareceu uma boa opção. Li o que acabei de escrever e vi que não fará sentido para muita gente.

2 comentários:

  1. Os anos 70 são os meus favoritos em Bollywood! Se fosse pra escolher uma epoca ruim de Bollywood, seria os anos 80.

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E aí, o que tem a dizer? Deewaneie!

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