Moondram Pirai (1982)

16.12.12 Carol Batista 0 Comments

Kamal Hassan era uma figura misteriosa para mim. Nunca havia sido citado em nenhum texto que eu lia sobre cinema indiano, até que repentinamente descobri não apenas sua existência, mas também que é um dos atores mais queridos e consagrados da Índia. Queria conhecê-lo há algum tempo e escolhi Moondam Pirai para isto porque 1) Sridevi está no filme (é sempre bom ter alguém “de casa” por perto) e 2) Kamal ganhou o prêmio de melhor ator do National Film Award por seu personagem. Quem seria esta maravilha escondida no mundo tâmil?


Moondram Pirai é a história de Bhagyalakshmi (Sridevi), moça que sofre um acidente de carro e desenvolve um estranho problema: sua mentalidade regride e passa a agir como se ainda fosse criança. Numa visita ao psiquiatra, é enganada por um homem, que a leva à uma casa de prostituição. Lá conhece Srinivas (Kamal Hassan), que havia sido levado ao lugar por um amigo. O primeiro contato entre ambos não é harmonioso, porém “Seenu” retorna e consegue levar a moça embora. Ele a leva para morar em sua casa e os dois desenvolvem uma forte relação de carinho, sem imaginarem o quão desesperadamente os pais de Bhagyalaksmi – que ele começa a chamar de Vijji – procuram por ela.

Dois fatores poderiam ter destruído o filme: a atuação da Sridevi como criança e o ritmo lento da história. O primeiro elemento já de cara me incomodou, pois a voz infantil da atriz e alguns maneirismos – movimentos das mãos, principalmente – são exagerados e caricatos. Não parecia uma criança, mas sim uma adulta tentando imitar uma. Acontece que Sridevi tem uma arma secreta muito eficiente para esta situação: os olhos. Seus olhos são grandes e brilhantes, perfeitos para mostrarem o medo ou a alegria de uma criança. Já o segundo fator que poderia ter destruído o filme, o ritmo, é complicado pela história. Há poucos grandes acontecimentos e muito tempo do filme é usado apenas para mostrar o cotidiano de Vijji e Seenu. No início é algo um pouco entediante, mas a dupla é tão adorável e o cachorrinho adotado por eles, tão fofo, que acabei sendo conquistada. 

Foi difícil entender os sentimentos e ações de Seenu. Ele nunca procurou os pais de Vijji, mas também não parecia estar agindo de má-fé, guardando-a somente para si. Aparentava não estar pensando em muita coisa. Apenas a levou para casa e seguiu vivendo, evitando dar algum passo mais decisivo que desfizesse o lar criado por ambos. Ele começou a amá-la, apesar de não tentar nenhuma aproximação para não assustá-la. Não compreendi o surgimento desse amor, já que ela pensava e agia como criança. Talvez ele amasse o que aquela moça tão bonita poderia ser. É fácil um rapaz solitário se apaixonar por alguém que passe a fazer parte de seu convívio diário.

Há alguém especial que deseja acabar com a solidão de Kamal: sua vizinha, interpretada por Silk Smitha. Foi meu primeiro filme da Silk e eu morria de curiosidade por conhecê-la desde The Dirty Picture (2011). Sua personagem corresponde ao estereótipo dos trabalhos da Silk apresentados em TDP: sedutora, cheia de desejo e a única do filme que tem alguma experiência de sexualidade. Ela mostra suas pernas, seu colo, qualquer coisa que servisse para incendiar o público. Em meio a um filme doce e simples, repentinamente aparecem Kamal e Silk dançando com pouca roupa e de modo selvagem. Passarei muito tempo procurando por algo mais surpreendente que isto:

Apenas ISTO.

As músicas não são marcantes, porém são agradáveis. É claro que a mais especial é a dos dois selvagens aí de cima, Ponmeni Urugute . Junto com Amitabh Bachchan saindo de dentro de um ovo, já está na minha lista de Clipes Imperdíveis do Cinema Indiano.

A falta de clareza sobre a condição psiquiárica de Vijji é um dos pontos mais fracos do filme. Não faço ideia se o problema dela é possível de acontecer, mas não me admiraria se fosse mais um dos fantásticos deewaneios do cinema indiano. Não apenas a doença, como também o tratamento de Vijji ficou nebuloso, passando da Psiquiatria tradicional a curandeiros. Ainda assim, o aspecto da relação entre a criança grande e o rapaz gentil, que é o foco por meio do qual a doença nos é apresentada, me agradou. O que se estabelece entre os dois é uma relação de confiança que não tinha nome - não era de pai e filha, entre irmãos ou amantes; era apenas amor. O que faltou foi movimentação, dado que o assunto do filme é interessante e daria margens a reflexões sobre a subjetividade de Vijji, por exemplo. Seria ela capaz de enxergar Seenu como parceiro e crescer mentalmente com isto? Sendo criança, não sentia falta de seus pais e estranhava passar tanto tempo com um desconhecido? O que esperava do futuro? E Seenu, o que planejava fazer após recuperá-la? Em que base se deu o surgimento do seu amor por Vijji, além da convivência? Todos esses são só alguns tópicos que poderiam ter sido abordados e deixado o filme mais rico.



E Kamal Hassan, o Sr. Mistério? Não me decepcionou, mas também não arrebatou. Seu personagem é muito quieto, diferentemente de como o imaginei. Não é a primeira vez que tenho a impressão de que um prêmio foi dado por uma cena específica do filme. E esta cena, no caso de Moondram Pirai, é uma das mais tristes que já vi. Parte o coração e é merecedora de todos os prêmios. Se não por outros elementos, o filme já valeria a pena apenas por ela. E é nela que Kamal consegue demonstrar seu potencial enquanto ator (aqui, para quem não se importa com spoilers).

Não me rendi aos talentos do Kamal com Moondram Pirai, provavelmente por o roteiro não permitir que o filme seja tão interessante quanto poderia. Ele e Sridevi fizeram o melhor que podiam com seus papéis, o que me garantiu umas horinhas de meiguice tamílista - o que não é suficiente, mas ao menos faz o filme ser ''assistível''. E doce, muito doce.

0 comentários:

E aí, o que tem a dizer? Deewaneie!

Comentários ofensivos serão excluídos.