"Eu não acordei assim": um artigo de Sonam Kapoor

23.4.18 Carol 4 Comments


Apenas hoje tive a sorte de encontrar um texto escrito por Sonam Kapoor para o Buzzfeed India em 2017. Sonam é conhecida como a mulher mais bem vestida e estilosa de Bollywood há onze anos, desde sua estreia na indústria. Sua imagem sempre esteve associada ao glamour das grandes marcas, mas a atriz tem mudado bastante com a maturidade e falado cada vez mais sobre assuntos espinhosos como feminismo, desigualdade salarial em Bollywood e a indústria da beleza. É uma das poucas atrizes que abertamente se declara como feminista. Neste artigo, Sonam contou sobre sua dificuldade com autoimagem durante toda a vida e do que há por trás da perfeição das divas de Bollywood. Fiz uma tradução livre e uni algumas partes porque os parágrafos eram curtos. Espero que o artigo toque vocês tanto quanto a mim. Leia o original aqui.


Eu não acordei assim

Por Sonam Kapoor

Como toda garota, passei muitas noites durante a adolescência olhando para o espelho do meu quarto, me perguntando por que meu corpo não parecia nada com o que ele deveria ser. Por que a minha barriga dobra? Por que meus braços sacodem? Por que não tenho pele clara? Por que tenho olheiras? Por que sou mais alta que os garotos da minha idade? Estrias somem? Essa celulite continuará aqui para sempre?

"Tão alta, tão escura", um parente casualmente deixou escapar em uma reunião familiar. "Quem vai casar com ela?". Isso confirmou que as minhas maiores inseguranças tinham fundamento. Quando tinha 13 anos, minha família viajou para Goa. Aishwarya Rai estava lá de férias com uma amiga e passamos uma noite com ela. Ainda me lembro que de jeans e regata branca, ela parecia ser de realeza. Fiquei perplexa.

Eu não sabia de muita coisa aos 15. Mas sabia que nunca iria parecer com uma atriz de Bollywood. Dois anos e algumas surpreendentes decisões de vida depois, Sanjay Leela Bhansali me escalou para Saawariya. Apesar de estar prestes a me tornar uma estrela do cinema, eu não acreditava que tivesse a aparência certa. Eu ficava constantemente preocupada que se me pedissem para dançar com uma blusa de frente única, as gorduras das minhas costas mostrariam à indústria que eu era uma impostora. Ninguém faz fila para comprar ingressos e ver celulites.

Então embarquei em uma série de comportamentos não saudáveis. Fiz dieta seriamente, algumas vezes a de South Bech, em outras a Atkins. Uma vez, por desespero, fiz uma dieta que me fazia comer abacaxis o dia inteiro. Eu me esforçava demais na bicicleta, fazia power yoga por horas seguidas e desenvolvi uma relação nada saudável com a comida. Em algumas semanas, desesperada para perder alguns quilos, eu simplesmente não comia.

Aos 18, fui a um encontro que pensava ter sido bom. Depois, o garoto disse a um amigo em comum, "Sonam é muito gorda". Eu passei o dia sem comer (agora, graças a essas decisões adolescentes idiotas, tenho acidez pelo resto da vida).

Eu achava que o ódio por si mesma iria embora quando você estivesse nos outdoors da praia de Juhu. Eu estava tão errada. Longe de aceitar meu corpo, quando eu já me sustentava como atriz, tive novas razões para odiá-lo. Artigos apareciam online, fotos davam zoom nos meus braços e coxas, círculos vermelhos eram desenhados em torno do menor sinal de um defeito. Quando eu tinha alguns filmes lançados, Shobhaa De escreveu um post de blog dizendo que Sonam Kapoor "simplesmente não se encaixa nos padrões de sex appeal".

As pessoas começaram a dizer que eu não tinha peito. Eu nunca tinha sido insegura sobre meus seios, mas fiquei defensiva sobre eles no Koffee With Karan. Eventualmente eu nem precisava mais que os tablóides apontassem as minhas falhas - eu poderia me olhar sozinha nos monitores e prever o que seria criticado. Ainda me lembro das imagens que odiei imediatamente: o vestido prateado justo de Bewakoofiyaan, a canção com Neil Nitin em Players, o maiô e shorts em Aisha, só para citar alguns.



É claro que o escrutínio dos corpos femininos não é novo ou restrito às celebridades. Levante a mão se você já foi chamada de "saudável" por um parente ou recebeu conselhos não solicitados de um amigo sobre como perder peso. Levante a mão se já lhe disseram para ficar longe do sol para não ficar escura. Levante a mão se você começou a odiar o seu corpo após alguém lhe ensinar como.

Aqui está o que deu errado: fomos ensinadas que as mulheres precisam ser perfeitas mesmo quando nossa perfeição é completamente implausível, sexies quando nossa sensualidade não faz sentido. Estamos correndo pelo Jurassic Park de salto alto, combatendo super-vilões de espartilho, sendo amarradas em ilhas desertas sem um sinal de cordas. Os corpos femininos reais são tão tabus que propagandas de cremes removedores de pêlos mostram pernas sem pêlos mesmo antes de o creme ser passado.

As regras da beleza são rígidas e praticamente impossíveis de seguir. Anushka Sharma foi exposta por ser magra, Sonakshi Sinha foi exposta por ser gorda, Katrina Kaif foi exposta por estar em forma. Essas mulheres são e sempre foram absurdamente lindas.

Mas onde há um sistema falido, há uma solução. O problema está nas rígidas definições de beleza da cultura dominante. A solução, para mim, está nas mulheres que conheço. Faz uma década que entrei na indústria do cinema acompanhada pela minha péssima autoestima e, graças ao apoio feminino que tive durante esse tempo, essa autoestima está mais saudável agora.

Tenho a sorte de ter minha amiga e maquiadora Namrata Soni, que vê meu rosto de muito perto e faz de tudo para que eu me sinta bem com ele. Quando reclamo de linhas de expressão ou olheiras, ela me diz que são naturais e por isso são lindas. Eu tenho uma cicatriz de fórceps no lado direito do rosto e um lado do meu lábio levanta (você percebe essas coisas quando passa muito tempo na frente das câmeras). Quando levanto a ideia de mexer neles, Namrata me lembra que são eles que fazem com eu seja eu. Em vez de me deixar interpretar as peculiaridades e mudanças do meu corpo como falhas, Namrata me ajuda a celebrá-las como marcas únicas de uma beleza única.

Sonam e a maquiadora Namrata Soni

Tenho sorte de ter tido minha irmã e às vezes estilista Rhea, a mulher mais gata que conheço. Quando me deprecio por ser magricela ou por não ter curvas como ela, ela me faz parar e insiste que fico bem em tudo o que ela me faz usar. Quando começo a reclamar que não tenho mais a aparência dos 21 anos, Rhea me diz que estou melhor agora.

Todas as mulheres que me apoiaram me ensinaram que apoio gentil e genuíno pode mudar a vida da sua amiga, irmã ou colega (pense em como seu dia é melhor quando começa com um elogio. Pense em como é fácil dar isso a alguém. Faça isso sempre que puder). Hoje, aos 31, gosto do meu corpo porque ele é saudável. Cansei de celebrar a magreza ou a perfeição. Adotei um estilo de vida saudável, boa alimentação e a busca por acordar toda manhã me sentindo energizada. Há beleza na boa saúde.

Sonam e Rhea

Agora é responsabilidade da mídia celebrar corpos saudáveis em vez de magros, e saber a diferença. Agora sei que não há nada de errado com estrias, celulites ou cicatrizes. São marcas do nosso crescimento. Há beleza em sua autenticidade.

E, só para avisar, não estou escrevendo isto para desencorajar a busca pelo glamour. Todos que me conhecem sabem que amo me sentir linda - roupas podem dar poder, maquiagem pode tornar-se motivação, um acessório divertido torna-se sua fonte de confiança para o dia.

Mas busque a beleza para si mesma, segundo as suas próprias definições - não para atender a noções de perfeição definidas pela cultura. Porque a perfeição é um mito perigoso e de alto orçamento, e é a hora de destruí-lo.


Então, para toda adolescente se olhando no espelho do quarto, se perguntando por que não parece uma celebridade: por favor, saiba que ninguém acorda assim. Nem eu. Nem nenhuma outra atriz (nem mesmo a Beyoncé. Juro).

Esta é a realidade: antes de cada aparição pública, eu passo 90 minutos na cadeira de maquiagem. De três a seis pessoas trabalham no meu cabelo e maquiagem, enquanto um profissional cuida das minhas unhas. Minhas sobrancelhas são pinçadas e depiladas toda semana. Há corretivos em partes do meu corpo que eu jamais imaginaria que precisariam ser corrigidas.

Todos os dias estou de pé às 6 e na academia às 7:30. Malho por 90 minutos e em algumas noites, malho outra vez antes de dormir. É o trabalho em tempo integral de alguém decidir o que posso ou não comer. Há mais ingredientes nos meus cremes faciais do que na minha comida. Há uma equipe dedicada a encontrar roupas que me vistam bem. Depois de tudo isso, se eu não estiver perfeita o suficiente, há um uso generoso do Photoshop.

Eu disse antes e continuarei dizendo: é preciso um exército, muito dinheiro e uma inacreditável quantidade de tempo para fazer uma celebridade parecer do jeito como você a vê. Não é realista e não é nada a se desejar.



Deseje, em vez disso, dar ao seu corpo tanto sono quanto ele precisa. Deseje encontrar uma forma de exercício que seja divertida de fazer. Deseje conhecer seu corpo e viver bem nele. Deseje ter confiança. Deseje sentir-se bonita, livre e feliz, sem precisar parecer de um jeito específico.

E da próxima vez que você vir uma menina de 13 anos olhando com tristeza para uma atriz de Bollywood sem imperfeições e de pernas depiladas na capa de uma revista, destrua o mito da perfeição para ela. Diga o quão bonita ela é. Elogie seu sorriso, sua risada, sua mente, seu andar.



Não deixe que ela cresça acreditando que ela é imperfeita ou que falta algo à ela por ser diferente da mulher no outdoor. Não a deixe se prender a um padrão que é alto demais até para as mulheres que estão nos outdoors. 

Diga à ela que eu definitivamente não acordei assim. Ela também não acordará assim. E está tudo bem nisso, totalmente e completamente.

4 comentários:

  1. Nossa, que texto lindo. E verdadeiro. Acho importante que certas coisas sejam ditas, e o mito da beleza perfeita é uma delas. É interessante ver logo a Sonam, que pra mim é um fashion icon, mostrando o que há por trás de toda a produção de uma artista: incontáveis horas passadas trabalhando na própria imagem.


    Achei muito bonitas mesmo as palavras dela. E, relaxa, já não desgosto da morceguinha faz um tempo. Até consegui ser gentil no meu post sobre Neerja, pra você ver. A vida dá voltas.

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    1. O que é mais legal é ela ter escrito isso para o Buzzfeed,uma plataforma que tem uma relação direta com o público jovem. Tomara que essa mensagem tenha chegado às meninas que se comparam tanto com imagens irreais e que elas saibam que mesmo quem aparentemente chegou lá já descobriu que esse caminho não traz felicidade para ninguém.

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  2. Que texto forte, sincero, real!! Sem palavras para expressar o quão poderosas são as palavras da Sonam.

    Raquel

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    1. Acho que ela tocou num ponto central na experiência de ser mulher no mundo de hoje, mesmo vivendo em outra parte do mundo. Palavras realmente poderosas, que chegam longe.

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E aí, o que tem a dizer? Deewaneie!

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