Talash (1969)

16.6.18 Carol 0 Comments


Anupama Chopra conta no livro Sholay: The Making of a Classic que Rajendra Kumar duvidou do sucesso do filme por não haver a presença de uma forte figura materna. Este não é um problema de forma alguma para Talash ("Busca"), um thriller romântico - se é que isso existe - de 1969 cuja história e título são baseados na importância das lições que uma mãe deixa para o filho. Cinema indiano antigo em seu máximo.

Rajendra interpreta Raj Kumar, um jovem determinado que decide trabalhar para melhorar de vida e apoiar sua mãe, interpretada por Sulochana Latkar. Como sempre ocorre em filmes antigos, a mãe não tem nome e vive apenas para...bem, ser mãe e dar grandes lições de vida. Raj descobre que a mãe mentiu sobre suas condições de vida para que ele pudesse estudar tranquilamente, tendo na verdade passado todos aqueles anos trabalhando arduamente como costureira. O rapaz entra para o escritório do milionário Ranjit Rai (Balraj Sahni) e sua honestidade e competência logo o fazem crescer na carreira. É então que viaja para o interior e se apaixona pela jovem e pobre Gauri (Sharmila Tagore). Ao voltar à cidade, descobre que a filha de seu chefe é idêntica à Gauri e um dilema se instaura em sua vida: deve manter a promessa feita à inocente Gauri ou escolher a rica Madhu?


Escrever o parágrafo anterior parece mais fácil do que realmente o foi, pois na primeira metade de Talash era praticamente impossível entender do que o filme se tratava. Associada à história principal é desenvolvida em paralelo (ou menos em paralelo do que deveria) a história de Lahchu, o melhor amigo de Raj que se apaixona pela dançarina Rita (Helen) e tenta ajudá-la a livrar-se de uma história de extorsão na qual ela e seu pai vivem há anos. Não é incomum no cinema indiano que o coadjuvante que funciona como alívio cômico ganhe mais tempo em cena do que o necessário para algumas piadas, porém o enorme tempo dispendido na história de Rita e Lahchu me pareceu estranho. Logo após o término do filme pesquisei e descobri que Lahchu foi interpretado por O.P. Ralhan, que vem a ser simplesmente o diretor do filme. Repentinamente foi fácil entender o porquê de tanta dedicação a uma história dispensável.

Apesar de o excesso de tempo ser desnecessário, a consequência boa de acompanhar a história de Lahchu e Rita é poder ver a sensacional Helen em mais musicais do que a média. Kar Le Pyaar é um divertido musical de cabaré com o nível alto de energia que só mesmo Helen consegue manter neste tipo de número musical. Mera Kya Sanam em particular me entreteu muito e fez lembrar como eu achava Helen uma dançarina esquisita, com seus passos desinibidos e sacudidas de um lado para o outro. Hoje vê-la dançando é motivo para eu perdoar qualquer filme ruim e passar alguns minutos sorrindo um pouco.


Sharmila Tagore é uma presença que me encanta cada vez mais no cinema antigo. Além da evidente beleza, tenho a impressão de que consegue conferir certa dignidade a qualquer personagem, seja uma mulher mais submissa ou livre. É fácil lembrar de cenas suas em filmes e não apenas dos clipes, o que acredito ser uma evidência de que nunca foi apenas um acessório para conferir beleza. Seu papel duplo em Talash não chega nem perto de um papel substancial como teve em Aradhana e muitos dos seus momentos podem ser resumidos como Gauri se jogando aos pés de Raj ou Madhu se jogando em cima dele, porém a transição de jovem pobre para milionária é bem convincente - mesmo que eu a tenha confundido com a Helen quando apareceu com cabelos loiros e olhos azuis.


Rajendra Kumar nunca teve das atuações mais brilhantes, mas sempre seguirá como um dos meus favoritos. Seus personagem neste filme vive basicamente o conflito entre ambição e moral, passando a imensa parte do tempo olhando profundamente para o além e tentando decidir qual caminho seguir. Já havia visto Rajendra sofrendo e costumo acreditar em sua dor, mas provavelmente Talash foi o filme em que mais dei risada de um clímax dramático. Rajendra gritava, batia no peito, puxava os cabelos, arregalava os olhos e jogou todas as estratégias para transmitir desespero de que pôde se lembrar. Àquela altura eu já não esperava muita coisa do roteiro louco do filme e apenas segui apreciando a presença de um ator tão querido, presença forte dos anos 60.


Talash poderia ser apenas mais um filme antigo esquisito, não fosse pela mistura desordenada entre thriller, comédia e romance que nunca chega a lugar nenhum. Mesmo com a condução confusa da primeira metade, ela certamente foi a parte em que mais gostei do filme, pois tudo caminhava bem enquanto víamos Sharmila Tagore em meio a montanhas e Rajendra amando sua mãe. Infelizmente o diretor, que também foi o roteirista, não soube bem onde queria chegar com tanta informação e acabou se perdendo. Ainda assim é uma experiência divertida assistir a tantos clipes bons e sempre se pode contar com o ponto alto do filme, que é a trilha irretocável de S.D.Burman - talvez o melhor produtor musical da antiga Bollywood (ou só meu favorito mesmo). Se as expectativas forem mantidas em nível baixo, vale pela curiosidade de ver um clássico. 

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