Aag (1948) e Parineeta (1953)

13.2.11 Carol Batista 0 Comments

Vou falar sobre dois filmes em um post pelo seguinte motivo: assisti aos dois online e se não me engano, em dois  dias seguidos. Sendo assim, não tenho como tirar prints com fotos legais e nem rever cenas. Se é para ser assim, que venham logo dois.

Aag é um filme todo marcado por fatos históricos: primeiro filme dirigido por Raj Kapoor e também o primeiro dos filmes que ele fez com a Nargis (acho que foram 16). Raj e Nargis são um daqueles casais eternos do cinema indiano e o Raj é um dos artistas mais importantes da história da Índia (exagerei ou não?), e acho que tudo isto explicou um pouco porque assistir Aag é um privilégio para quem ama Bollywood.

O filme conta a história de Kewal (Shashi Kapoor), um menino que é apaixonado por teatro. Em suas brincadeiras é sempre acompanhado por sua amiguinha inseparável, Nimmi (não me atrevo a pôr os nomes de todas as Nimmis). A família de Nimmi acaba se mudando, mas Kewal nunca mais a esquece. Já adulto, o jovem Kewal (Raj Kapoor) diz ao seu pai (Kamal  Kapoor) que não quer seguir a advocacia, como é tradicional entre os homens de sua família. Kewal sai de casa e durante a sua vida adulta, conhece três mulheres por quem se apaixona, interpretadas por Kamini Kaushal, Nargis e Nigar Sultana. Apesar de conhecê-las em diferentes épocas e situações, uma coisa não muda: todas elas sabem da importância que aquela garotinha teve na vida de Kewal e sabem que a maior prova de amor que ele pode dar à uma mulher é chamá-la de "Nimmi".

A Nimmi (Kamini Kaushal) que Kewal conhece na universidade passa rapidamente por sua vida. A outra Nimmi (Nargis) teve com ele uma história muito mais intensa: surgiu quando ele estava montando a primeira peça em seu teatro, que foi financiado por Rajan (Premnath), o homem que acabaria se tornando seu melhor amigo. Rajan é apaixonado por uma mulher desconhecida, que acaba sendo a personagem da Nargis. O problema é que ela se apaixonou por Kewal...ou apenas pelos lindos olhos azuis dele, como constatamos. Para garantir que aquela mulher tão superficial ficasse com o seu amigo, Kewal acaba tomando medidas tão drásticas quanto dolorosas. Já sobre a terceira Nimmi não vale muito a pena falar.

Aag é um filme muito bom, mas se "arrastava" tanto que fiquei cansada muitas vezes. Senti o peso dessa mesma lentidão em Awaara (1951), mas lá me cansou um pouco menos. Na verdade, achei os dois filmes bem parecidos, especialmente pelo tom dramático dado à cenas que seriam banais em filmes atuais: uma discussão com o pai, a mãe demonstrando carinho. O que me incomodou foi que não vi muita base para tanto amor por Nimmi: houve um momento em que Kewal disse que ela era a única que gostava dele do jeito como ele era, que não via apenas a aparência. Sério, de onde ele tirou isso? Eles só pareciam duas crianças normais brincando, não entendi nada. Por falar em crianças, fofo demais era o Shashi (irmão do Raj) pequenininho fazendo o papel de Kewal. Todo cheio de atitude.

Pesadas foram as cenas do Raj com a Nargis, de uma intensidade assustadora (exagerei?). Ela foi a mulher que mais apareceu no filme, e não esperava vê-la em uma espécie de papel negativo assim. Ela ser tão frívola foi uma surpresa na história. Aliás, digo "frívola" para os padrões das heroínas de filmes indianos (as que fazem sacrifícios eternamente), porque até entendo a atitude histérica que ela tomou depois das tais decisões drásticas do Kewal. Para mim, Nargis já era uma estrela em Aag. Tem uma espécie de olhar forte dela que já estava presente neste filme.

Bem, o filme é chato às vezes, então só arrisque quem tiver paciência. Não dá tanto sono quanto o Mahal (1949), que foi meu sonífero mor, mas também requer esforço. No geral, gostei do filme...e adorei a cena final. Eu deveria tê-lo visto na minha Semana Anos 40.

Coisa mais fofa


Parineeta, uma das adaptações do romance de Sarat Chandra Chattopdhyay, eu tinha interesse em ver por amar a versão de 2005, com Saif Ali Khan e Vidya Balan. No elenco da versão de 1953 estão Meena Kumari, Ashok Kumar, Asitbaran e Nasir Hussain.

O filme conta sobre Lalita (Meena Kumari) e Shekhar (Ashok Kumar), vizinhos que se conhecem desde a infância. Só não percebe o amor entre os dois quem não quer: a cumplicidade, o carinho e os ciúmes de um pelo outro são gritantes. A família de Shekhar é rica, a de Lalita não. Ela é órfã e mora com o tio (Nasir Hussain), que deve uma quantia em dinheiro ao pai de Shekhar. O pai de Shekhar é um homem rico, mas deseja para si a casa do vizinho. Ao mesmo tempo em que tudo isto acontece, Lalita tem de lidar com a família de Shekhar procurando uma noiva rica para ele e com Girin (Asit Baran), o adorável irmão da vizinha que está apaixonado por ela.

Para mim, a palavra para Parineeta é "encantador". Não conseguia evitar comparações com a versão mais recente, especialmente em relação ao casal principal. O que senti foi que, cada uma ao seu modo, tanto Meena Kumari quando Vidya Balan foram as Lalitas perfeitas, tanto que não imagino outras atrizes fazendo o mesmo papel nas duas versões. Já o Shekhar é um pouco mais difícil: ao mesmo tempo em que o Saif Ali Khan deixou o personagem mais marcante, Ashok Kumar o fez menos irritante. No fim, o importante é mesmo a Lalita...e sempre sinto isso nas personagens femininas dos filmes do Bimal Roy. Eles não seriam nada sem elas. Se formos pensar que nos anos 70 as heroínas tinham muito menos papel nos roteiros do que nos anos 50, dá para sentir que talvez algo tenha se perdido pelo caminho.


Apesar de comumente serem colocadas nos papéis das sofredoras que sempre se sacrificam, o que vejo no tipo de papel da Lalita é que a mulher é valorizada, sim. Não sei se eles queriam dizer que este o único papel possível para a mulher na sociedade, mas sei que em cada cena é mostrado o quão difícil é ser assim. *spoiler*  Há uma cena linda em Parineeta na qual Shekhar e Lalita se casam, mas não convencionalmente. Como ela coloca uma guirlanda nele e ele faz o mesmo com ela em um dia considerado auspicioso, eles aceitam que estão casados. Quando mais tarde os dois tem de se separar, Lalita não deixa de se considerar uma mulher casada, mesmo sabendo que Shekhar irá se casar com outra. As cenas em que ela está triste por tudo o que está acontecendo em sua vida mostram que ela é forte, sim, mas que isso é muito, muito difícil. É difícil ter a honra e o desprendimento da Lalita, tanto que o homem que ela amava não  as tinha. Casando ou não com outra, ela era a esposa de Shekhar. Se ele não tinha certeza das próprias crenças, pouco importava. Ela sabia muito bem quem era, e isto independia das ações dos outros. Não achem que eu preferia que ela fosse eternamente fiel a ele: por muito menos, eu já teria mandado o Shekhar ao inferno. Só que são culturas diferentes, e acho muito bom que ela tenha tido liberdade para permanecer firme na própria decisão. Viva Lalita! *fim do spoiler*


Sempre mostrando assuntos importantes para a sociedade, Bimal Roy o fez em Parineeta por meio do personagem de Girin, que pertencia à uma casta inferior à da família de Lalita. Quando ofendem Girin, o único que lhe estendeu a mão nos tempos de dificuldade, o tio de Lalita diz que o rapaz vale muito mais do que todos que estão ali e que prefere nem estar numa casta como aquela. Amo essa característica do Bimal Roy de fazer filmes comerciais que abordem questões sociais importantes, porque aí ele consegue fazer obras que se conectam com a nossa realidade e nos passam mensagens importantes, ao mesmo tempo em que não deixam de nos divertir e...sei lá, nos tiram um pouco daquele clima pesado do dia-a-dia. Imaginem que ele tivesse adaptado para o cinema uma história em que tudo o que acontecesse fosse uma luta social?Acho que teria sido muito menos interessante, e o Girin teria chamado muito menos a minha atenção se a única dimensão trabalhada dele fosse a do homem de casta inferior. Vê-lo se apaixonando, sendo gentil e bom foi o que fez com que também a minha indignação surgisse no momento em que ele foi ofendido. Ele era humano, oras. Também gosto de filmes que pesam mais no lado realista, mas essa mistura do real e do comercial me encanta mais porque me parece mais difícil de ser feita com sucesso. Esse assunto todo me faz lembrar do Aamir Khan, outro que sabe levar mensagens às massas.


Lembro pouco das músicas, mas uma que ficou comigo foi Chali Radhe Rani, cantada por Manna Dey. Num bom sentido, a voz do Manna Dey me deixa triste.


Espero que não tenha ficado claro apenas para mim o quanto gostei de Parineeta. E espero mais ainda que outras pessoas vejam não só este filme, mas qualquer um do Bimal Roy. Ah, e pela Meena também. Agora estou realmente gostando dela.


Até mais! ;)

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