Junoon (1979)

29.10.11 Carol Batista 0 Comments

Dirigido por Shyam Benegal, Junoon foi vencedor de dois prêmios importantes para mim: o Filmfare e o National Film Awards (este é muito mais significativo). É certo que a cada vinte filmes que vejo escrevo sobre um, mas a vontade de falar a respeito de Junoon era muita e acabei vindo aqui.

O filme tem um lado histórico muito forte que não sei descrever, já tinha ficado claro no post sobre Dr. Kotnis Ki Amar Kahani que tenho que correr muito atrás de informação ao escrever sobre histórias que contam sobre algum fato histórico. Até tento prestar atenção a todas estas informações durante o filme, mas então surge um personagem tão interessante que vou me perdendo e no fim..."pluft, esqueci! Que guerra era aquela mesmo?". Sendo assim, vou utilizar a sinopse do meu amiguinho IMDB ao resumir a história.

Tudo acontece no período de 1857 a 1858, quando os soldados da "Companhia do Leste da Índia" (acho que é isto) levantaram-se contra o regime britânico e muitos reinos menores uniram-se aos soldados na esperança de reaverem seus territórios. No dia do motim, os rebeldes invadem uma igreja frequentada pelos ingleses e matam quase todos os presentes. A única sobrevivente foi Ruth Labadoor (Nafisa Ali), cujo pai foi assassinado na sua frente. Os rebeldes caçam e matam todos os ingleses da cidade (que não sei qual é), mas Ruth, sua mãe Miriam (Jennifer Kendal) e sua avó são salvas por Ramjilal (Kulbhushan Kharbanda), que se sente em dívida com a família Labadoor. As três passam algum tempo escondidas na casa de Ramjilal, mas logo são tiradas de lá por Javed Khan (Shashi Kapoor), um dos líderes do movimento rebelde. Ele estava obcecado por Ruth desde antes do conflito acontecer e aproveitou a ocasião para tê-la perto de si. Javed decide se casar com Ruth, o que desespera Miriam e Firdaus (Shabana Azmi), primeira esposa de Javed. A história é baseada no livro A Flight Of Pigeons, de Ruskin Bond.

A luz do filme é a Jennifer Kendal e sua Miriam. Já nem reclamo mais das esposas doces e apáticas dos filmes antigos porque é muito comum, mas quando vejo uma mulher forte e decidida reparo o quanto sinto falta deste tipo de presença. A Miriam teve pouco ou nenhum tempo entre vivenciar o seu luto e lutar pela segurança da mãe e da filha, mas encarou o desafio com bravura — tanta que a fez não ter medo de ficar à frente do Javed e gritar que ele não tocaria em Ruth. O bonito na personagem é que nada disto acontece como se ela não estivesse sofrendo; há até mesmo um momento no qual desata a chorar. Os olhos da Miriam estão sempre tristes e seus ombros, tensos. Ela só não desaba completamente por saber que precisa cuidar da filha.

Apesar de o Javed parecer um troglodita pedófilo pelo modo como estive falando até agora, ele passa longe disto. A Miriam pode ser a personagem mais forte, mas ele é o que mais me intriga a cada vez que vejo o filme. Javed em nenhum momento obriga Ruth a se casar com ele, muito pelo contrário: pede a permissão de Miriam e tenta controlar sua frustração a cada vez que ela adia o assunto. Ele não queria apenas o corpo de Ruth, queria seu respeito e amor também. Não sei bem se é realmente amor, parece mais que ele pôs Ruth em um pedestal que está muito acima dele. Javed parece ter medo de olhá-la, tocá-la...ou o medo pode ser da intensidade do que sente por ela. Vê-se claramente que ele está tomado pela garota e o modo como ele claramente expressa isto para qualquer um que pergunte é admirável. E foram exatamente as cenas em que ele diz às pessoas o quanto quer Ruth que me deixaram tão embasbacada com o personagem. Javed claramente não entendia como todos não compreendiam o que estava se passando dentro dele, a importância de Ruth para sua vida. Está certo que há a questão de ele ser homem em um sistema social machista e assim acreditar que poderia fazer o que bem quisesse, mas nem mesmo um sentimento de poder tão grande conseguiria passar por cima do fato de ele ser um indiano muçulmano e rebelde querendo se casar com uma inglesa cristã quando todos na cidade estavam matando qualquer estrangeiro que aparecesse. Esta obstinação que cega para tudo o que depõe contra o seu desejo é a obsessão de que fala o título do filme (Junoon).


O quão obcecado você tem que estar para dizer isso na cara da sua esposa?

O olhar magoado. Te amo, Shabana.
Firdaus é uma doce insuportável por quem foi fácil sentir empatia (Shabana consegue tudo). Tendo de aguentar um marido que só se importa com seus pombos, a rejeita, coloca uma estrangeira acima dela e declara isto abertamente ao mundo, talvez fique difícil não ser antipática. Ela poderia passar desapercebida, mas isto não acontecer é total mérito da presença forte da Shabana. Por trás daquela aparência de mulher mimada, vê-se uma pessoa cujo orgulho foi ferido profundamente. Fazendo uma comparação distante, é como a Chhoti Bahu do Sahib Bibi Aur Ghulam: meninas que tem a criação voltada para a dedicação ao casamento e sentem-se perdidas (e traídas?) quando este direito lhes é tirado. Se ser mulher é ser esposa e mãe e nem isto elas podem fazer, qual é seu papel no mundo? Por falar nisto, quase atravessei a tela para socar Javed quando ela diminuiu a esposa por não lhe dar um herdeiro.

Uma linda!
Tudo isto se dá em torno de Ruth: ela é desejada por Javed, cuidada por Miriam e invejada por Firdaus. Pois bem, ela não tem nenhuma personalidade sensacional. Na verdade, Ruth pouco fala. Ontem eu estava quebrando minha cabeça ao tentar entender o porquê de Javed gostar dela, mas será que era para ter explicação? Percebi que não há sequer uma troca de diálogos entre ela e Javed durante o filme e a única ligação entre os dois é apenas ela gostar daqueles pombos dele. A Ruth tem um olhar infantil, parece que está vendo tudo pela primeira vez. Entendo como é fácil sentir-se encantado por ela, mas ainda assim não entendo a obsessão do Javed.

O bom de a Ruth ser sempre tão silenciosa é que nunca sabemos como estão seus sentimentos por Javed. Sua mãe sempre fala por ela, que só uma vez no início chorou por não querer se casar com Javed. O olhar de Ruth vai mudando, mas não é nada brusco. A mudança é suficiente apenas para...bem, para percebermos que algo está mudando. Por que mudou, não sei. Deve ter alguma coisa a ver com os pombos.

Spoilers. O Naseeruddin Shah também está no filme, mas sinto dizer que pouco me interessei por ele. Os momentos em que chamou minha atenção foram três: quando matou o pai de Ruth na igreja, quando acusou Javed de estar esquecendo seus propósitos revolucionários por causa da obsessão por Ruth — o que é verdade, já que ele deixou de ir para a batalha para ficar perto dela — e quando voltou derrotado da batalha e tentou matar os pombos de Javed (as estrelas do filme). Ele é uma presença bem forte e assustadora, mas pertence mais à parte do filme que é focada na guerra; parte na qual eu infelizmente estava pouco interessada. Era tanto sangue e tristeza, que tudo o que eu me perguntava era por que a gente faz isso.

Eu não entendia o fim do filme. Por que o Javed havia ido embora logo no momento em que a Ruth havia autonomamente ido até ele? Escrevendo este post e levantando aquela ideia de que ele colocava Ruth em um pedestal, uma interpretação possível surgiu: quando Ruth "desceu" até ele, foi como se tivesse quebrado o feitiço no qual ele estava preso e Javed finalmente tivesse visto que era apenas uma obsessão. Por outro lado, Ruth nunca se casou. Talvez a partir dali ela tivesse desenvolvido uma obsessão em relação a Javed ao vê-lo como uma figura distante e inatingível, ou seja, do mesmo modo que a obsessão dele surgiu. Agora esta interpretação está fixa na minha cabeça, mas é triste demais e não quero aceitá-la. Prefiro pensar que como Javed apenas queria ver Ruth pela última vez e sabia que o inimigo estava chegando e logo o matariam, sentiu-se satisfeito em ir para a batalha com esta última imagem de Ruth finalmente abrindo seu coração para ele. Certo, ri de mim agora. Foi bonito e romântico, não? Sou cria de Shahrukh Khan, rapá! Fim dos spoilers.


A trilha é linda, mas não há nenhum musical. Quer dizer, até tem um, mas não é exatamente um musical, musicaaal. É um qawwali, Aaj Rang Hai. Um doce momento do filme são as canções Sawan Ki Aayi Bahaar Re e Come Live With Me And Be My Love, sendo que a Jennifer canta a última com a Nafisa.

Junoon é belo, sensível e inteligente. Todos os atores estão sensacionais e foi graças a este filme que comecei a admirar o Shashi Kapoor. Mesmo  com todos esses atributos positivos, deve-se ter paciência com o filme. Assisti-o num dia em que eu estava querendo pensar bastante, quando precisava de algo que me desafiasse. Não é todo dia que estou assim e isto foi provado quando eu o estava revendo e achando quase tudo insuportável. Nada está dado em Junoon. Boa parte da comunicação se dá por olhares, o que faz a gente se perguntar o que raios está acontecendo nas mentes daquelas pessoas vivendo em uma situação tão tensa. Para mim, este filme é um grande exercício intelectual. E é lindo demais!

Termino com minha música e cena favoritas do filme, Ishq Ne Todi Dar Pe Qayamat, cantada pelo sempre perfeito Mohammed Rafi. Firdaus observa o marido enquanto ele observa Ruth e Miriam protege a filha. Nenhuma interação verbal, apenas uma forte presença física de todos os atores e olhares intensos. Parabéns, Shyam Benegal. Você conseguiu me tirar da minha zona de conforto e me deixar feliz com isto. 

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