Shikshanachya Aaicha Gho (2010)

1.2.14 Carol Batista 1 Comments

Os dias em que eu tinha certeza de que apanharia eram aqueles em que meus cadernos eram examinados. Nosso dever era anotar todas as palavras que os professores diziam na sala, na grande maioria tirados dos livros didáticos do governo, e escrevê-las nas provas, de modo que a educação era um exercício de repetição, "aprender de cor". Os cadernos valiam 20% das notas. Algo em mim se rebelava contra a idéia de fazer anotações para perpetuar esse ciclo de fatos escritos pelo governo. No dia anterior, os outros alunos tinham copiado freneticamente as anotações uns dos outros. Quando minha mãe me acordava, meu primeiro pensamento era: Hoje vou apanhar. Eu me lavava, vestia um uniforme limpo, tomava o copo de leite que minha mãe me dava e saía de casa, alegre e radiante, para entrar no prédio onde ia apanhar.

Suketu Mehta em Bombay – Cidade Máxima

Minha vida escolar foi feliz. Além de gostar de ir para as aulas, também apreciava estudar em casa. Durante muitos anos acreditei que amar os estudos fosse algo que estaria ou não em você. Menos que um dom, via mais como um gosto. Enxerguei muitos colegas de escola como preguiçosos e desinteressados.

Enquanto cresci, percebi que múltiplos fatores contribuem para uma experiência escolar feliz. Um material interessante, professores dedicados e conscientes do processo de desenvolvimento da criança, métodos que motivem a busca do aprendizado e pais que estimulem o apreço pelo conhecimento são apenas alguns itens que reuni agora. Se tentarmos pensar no quadro completo, veremos que a missão não é fácil.

Shikshanachya Aaicha Gho, que chamarei de SAG, tomou para si o encargo de abordar parte do complexo cenário educacional indiano. Ele nos é apresentado através da jornada da família de Madhukar Rane (Bharat Jadhav), viúvo pai de dois filhos. A caçula Durga (Gauri Vaidya) é esperta, boa aluna e com sua tranqüilidade, faz a ponte entre o pai e o irmão. O mais velho, Shrinivas (Saksham Kulkarni), vai mal na escola e se destaca por seu talento no críquete. Esta habilidade é desprezada por Rane, que vê a dedicação do filho ao esporte como um desperdício de todo seu esforço para lhe dar uma educação melhor. A direção é de Mahesh Manjrekar, responsável pelo ótimo Astitva.


O embate entre Rane e o filho faz com que o pai aja de uma forma que pode ser irreversível, colocando sua família em risco. A história de SAG é desenvolvida a partir desse gancho. Rane começa a pensar e criticar o sistema educacional que flagela seu filho e tantas outras crianças indianas. Em um ataque de fúria ao visitar a escola de Shrinivas, grita com a professora de História que faz as crianças repetirem informações como papagaios. É levantado um dos pontos de discussão do filme: quais informações são mais ou menos importantes para a educação infantil? A falta de sentido que as crianças vêem no conteúdo escolar não é contestada pelos adultos que passaram pela mesma experiência, mesmo que nem eles ainda tenham descoberto para que decoraram tudo aquilo.


Além de questionar o que a escola ensina, Rane também questiona o que ela deixa de fora. Os estudantes são avaliados apenas pelo desempenho acadêmico. Aquilo que pode fazer a criança sentir-se única, como um talento artístico, é desconsiderado. Diferentemente de como acontece em outros filmes, Shirinivas não passa a desvalorizar o críquete. O garoto tem plena consciência de que é mais inteligente para determinadas coisas e que seu talento para o esporte é algo especial. É esta resistência que incomoda seu pai. Não importa o quanto tentem quebrá-lo; Shrinivas não se deixa convencer de que não tem valor. É bom ver um adolescente protegendo sua auto-estima de forma tão ferrenha.



Durga tem seu papel no amor de Shrinivas pelo esporte. A irmã caçula sente orgulho do mais velho e apesar de não fazer forte oposição ao pai, serenamente mostra que está ao lado do irmão. É a personagem que mais me encantou no filme. Nalini, a vizinha interpretada por Kranti Redkar, também foi uma grata surpresa. Com um passado triste e tendo feito o necessário para sustentar sua família, não perde tempo com autocomiseração. Faz e fala o que é necessário. É alvo do preconceito dos vizinhos, mas não permite que a ofendam. O próprio Rane começa a tratá-la bem apenas quando começa sua jornada de redenção e mudança. Gosto do fato de que ela não age como se estivesse esperando pelo respeito dele durante todo o filme, como se fosse um grande presente. É o mínimo que as pessoas lhe devem e Nalini sabe disso. 



Além de Durga e Nalini, o resto do elenco secundário também é excelente e contribui para a beleza do filme. Quanto a Rane, foi muito bem construído por Bharat Jadhav. Parecia um pouquinho insano às vezes, mas o ator conseguiu ser convincente ao expressar todas as fases da transformação pela qual Rane passou a devido ao seu drama familiar. A mensagem que ele passa é importante: qualquer um pode ser agente de mudança social. Se formos todos nós juntos, melhor ainda. O que ele fez foi grave e o filme o redimiu, porém pessoalmente não considero que a punição tenha sido suficiente.

Não há respostas prontas e o filme não tenta dá-las. A proposta é colocar as questões para a pauta. Felizmente, SAG cumpriu a tarefa com maestria. 3 Idiots e Taare Zameen Par já mostravam que havia algo a se repensar no sistema educacional indiano. Considerando que a experiência escolar do escritor Suketu Mehta, relatada no início do texto, foi há mais de 30 anos e ainda se encaixa perfeitamente no que foi trazido por todos esses filmes, parece que muitos Srinivas ainda serão massacrados e representados no cinema até que alguém perceba que é hora de mudar.

Agradecimentos eternos à @ aiyya_yo pela indicação!

Um comentário:

  1. Adorei o seu blog, vou seguir, se quiser visitar o meu fica aqui o convite

    http://salaameishq7.blogspot.pt/

    Beijinhos

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