Goliyon Ki Raasleela: Ram-Leela (2013)

24.12.14 Carol Batista 9 Comments

Tenho o costume de anunciar já no início dos textos quando não gosto do trabalho de um diretor. Pode parecer antipático, porém minha intenção é deixar claro para o leitor que tudo o que virá a seguir é altamente influenciado por uma visão que há muito estabeleci sobre aquele artista. Esta visão geralmente não é inflexível, mas tem lá suas conseqüências. Feita a introdução, declaro que detesto Sanjay Leela Bhansali desde o primeiro filme. É mais forte que eu. Não gosto da opulência, do predomínio da forma sobre o conteúdo e do excesso de simbolismos.


Como toda versão de Romeu e Julieta, nesta também temos o intenso ódio entre duas famílias. Os Capuletos e Montecchios são substituídos pelos Sanera e Rajadi. A duas famílias são responsáveis por contrabando, tráfico e tudo o que há de pior na aldeia de Ranjaar. Leela (Deepika Padukone) é a menina dos olhos da família Sanera. É protegida como um diamante pelo irmão e pela mãe, a poderosa Dhankor (Supriya Pathak). Na casa Rajadi está Ram (Ranveer Singh), o divertido par de Leela. O rapaz é contra o mortal ódio entre os dois clãs e apregoa que todos os problemas sejam resolvidos pacificamente. Ram e Leela são ousados, sensuais e apaixonam-se loucamente. O amor é tão intenso que suas individualidades vão se perdendo, um não consegue pensar na vida sem o outro e fundem-se em um só ser: Ram-Leela. 

As referências ao Twitter e a celulares indicam que a história se passa no presente, porém a sensação transmitida é a de existir um ponto suspenso no espaço e no tempo e que é nele que tudo acontece. Ranjaar é um lugar afastado do mundo, onde nada além da rivalidade entre os dois clãs importa. Os belos cenários e figurinos de Bhansali estão presentes, apesar de passarem longe de quase cegar o espectador, como é de costume. O brilho foi guardado para os musicais, e o ambiente cotidiano de Ranjaar tem um toque escuro e rústico, coerente com o clima à margem da lei que predomina na aldeia. Este peso do cenário também está presente no romance. Ram e Leela são mais terrenos que os habituais amantes etéreos do diretor. Eles se acariciam, mordem, apertam e beijam. É como se tentassem tornar-se uma só pele. Foi o romance mais sexualmente explícito que já vi de Bhansali, que aproveitou a cumplicidade entre Ranveer e Deepika para criar cenas atrevidas. E esses dois foram além da sensualidade na construção dos personagens.

Deepika ofereceu ao público uma Leela segura e ciente de seus desejos. Seus grandes olhos foram bastante destacados e registraram inicialmente a alegria juvenil de Leela, depois transformada em dor. É óbvio seu amadurecimento artístico e muitas vezes me surpreendi hipnotizada por suas falas, olhares e gestos. Entretanto, minha maior surpresa foi com a atuação de Ranveer Singh. Costumava vê-lo apenas como um ator histérico e bem malandro — características pessoais bem aproveitadas na primeira fase de Ram, quando ainda era apenas um jovem sedutor e despreocupado, interessado somente em ver pornografia e caçar garotas. Ram é egocêntrico e obcecado pela própria masculinidade, como o típico jovem estúpido. Como apontado por minha amiga Joseli, sua vaidade é representada pela figura do pavão. É em sua transformação para apaixonado amargurado que está a beleza do trabalho de Ranveer, que conseguiu expressar o desespero que se apodera de Ram ao ser separado de Leela. Quando as crenças e expectativas do menino são todas destruídas, ele finalmente compreende a existência de forças mais fortes que o seu desejo. Não basta desejar a paz para que os homens a façam e nem querer o amor para que ele seja permitido. As circunstâncias obrigam o menino mimado a sair de cena para dar lugar ao homem atormentado, que é levado a agir de acordo com princípios que não são seus.

"Parece um filezinho de borboleta" - MÃE, minha.

O casal é a força do filme, mas não o carregou sozinho. Dhankor, a mãe de Leela, é uma das melhores personagens criadas para atrizes veteranas de que me lembro. É não apenas uma mãe autoritária, como também administradora incansável dos negócios sujos do clã Sanera. Não hesita em passar por cima do obstáculo que for para concretizar seus planos e, como se não bastasse, é amedrontadora — que o diga Ram, o vaidoso, recebendo de presente um pavão morto. A presença de Supriya Pathak em qualquer cena era sinal de que ela seria dominada por seu talento. Utilizando um tom sutilmente ameaçador, conseguiu criar uma vilã gângster como geralmente só atores homens tem a oportunidade de fazer. Foi uma atuação magistral.

Não chamarei as canções de ponto alto do filme, pois ele tem muitos. Elas encaixam-se perfeitamente na história e acompanham a mudança de romance para tragédia. A canção mais representativa do Ram na fase ousadia & alegria é a fantástica Tattad Tattad. Ranveer rebola, faz uma mulher desmaiar ao arrancar a camisa e coça a cabeça repetidamente. Provavelmente a intenção era ser sexy, mas minha reação é sempre rir, levantar e imitar o Ram. Reação parecida me provoca Ishqyaun Dhishqyaun, marca do romance inconseqüente de Ram e Leela. O casal é mostrado se divertindo com o fato de seu amor ser perigoso e quase mortal. Há ainda outros destaques na trilha, sendo Nagada Sang Dhol o maior deles. Shreya Ghoshal (queridinha do blog) cantou com um vigor que foi também transmitido pelo vídeo, que é grandioso e espetacular como todo bom vídeo do senhor Bhansali. Considero-o tão clássico quanto Dola Re Dola ou Nimbooda.


Não permitir que a opulência sufocasse a história foi o grande trunfo do filme. A estética é colocada a serviço da história e o espectador torce pela felicidade do casal, a despeito de quão conhecido seja o final de Romeu e Julieta. Isto mostra que foi conseguido um afastamento da história original, sendo ela reinventada a tal ponto pelos novos personagens que o espectador se permite esquecer qualquer conhecimento prévio. Com tantos pontos positivos, esse Romeu e Julieta com muitos tiros e sangue já garantiu seu posto de melhor romance trágico dos últimos anos.

9 comentários:

  1. Eu sabia que tinha que ter copiado e colado, mas ouço minha intuição? Não.

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  2. *respira fundo*

    Vou reescrever meu comentário homérico porque pretendo utilizar o que eu disser aqui pra um post no futuro. Vamos lá.

    Começarei com a parte boa da coisa: concordando com você.

    Deepika evoluiu bem! Não fez só papel de estátua de madeira e conseguiu transmitir bons sentimentos com seus grandes e lindos olhos e sorriso, desde sensualidade a extrema mágoa contida. Ranveer, por seu lado, tem a seu favor o que você caracterizou como evolução também, e a meu ver o segredo está todo no olhar: quando ele sai do papel de playboy e coloca toda sua mágoa e revolta no olhar, a fisionomia muda completamente e ele ganha a cena! Mas eu seria injusta se deixasse de dizer que o filme foi COMPLETAMENTE da Suriya Pathak! Não existiu melhor atriz, melhor interpretação e mergulho maior ao personagem do que o dessa mulher. Ela respirou e nos fez respirar tudo o que protagonizou em suas cenas.

    Outra coisa que não tenho nem como discordar é da trilha sonora do filme. Ela, por si só, já é sensacional e encaixa-se com perfeição nas cenas, nos momentos. Talvez à exceção de um Tattad e Ram Chahe Leela, tudo tinha seu lugar, sua hora, sua razão. E eu disse talvez. No geral, se a música já era boa, o item number tornou-se deslumbrante e memorável. E realmente, Nagada Sang Dhol está ao nível de Dola Re Dola e Nimbooda. Eu diria que ficou até acima!

    Outra observação muito boa da sua parte que eu não fui capaz de transformar em palavras foi o aspecto físico do filme. O animal, o sexual, o apelo do casal em si, que se beija, se agarra e se toca, não fica só no etéreo do romance. Gostei muito disso, que o diretor reproduza nos futuros romances, tem tudo pra dar certo.

    Agora, vamos à parte mais legal: o bullying.

    Como você pode pensar em Ram-Leela e esquecer a cena da morte do irmão de Ram? Era um momento que deveria ser tenso, de intriga e tragédia, e tudo que consegui foi rir. Foi a cena mais malfeita em eras que já vi. Patético.

    Ranveer é outro ponto que, sim, me desagradou muito! O que o diretor fez com esse cara não deveria ter perdão. Pegou uma sexualidade latente, passou um óleo de pneu e transformou em homossexualidade latente. Como disse sua mãe, um filezinho de borboleta. Estou com medo de exalar preconceitos que sequer possuo fazendo essa observação, mas a sedução dele definitivamente foi pra outro tipo de público. Não me cativou. Ficou... ridículo.

    A super-reação e super-atuação em certas cenas também acabou comigo. Eu diria que a cena final do filme conseguiu estragar qualquer chance minha de aclamá-lo no futuro. Cheguei ao fim do filme tendo certeza de que esperei demais de algo que já devia ser previsível. Pra eu achar que a cena final de Ishaqzaade foi mais expressiva, mais coerente e mais interessante que a de Ram-Leela, é porque muitos elementos desse molde deixaram de funcionar pra mim. Eu diria todos. Talvez o fato de ter assistido ao lado do meu namorado nada poético como eu tenha contribuído pra acabarmos rindo enquanto Ram e Leela caíam lentamente. Aliás, rola uma semelhança muito grande com a queda do sr. Kapoor do penhasco lá em Fanaa, não acha não? Só que em dupla. rs

    Por fim, creio que, entre Bhansalis e feridos, ainda prefiro Devdas.

    Heeey dola re dooola, re dooola, re dooola...

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    1. Tanto esforço merece uma resposta bem pensada. Vamos lá.

      A Supriya foi a melhor de todas, mas o filme não foi dela, vai? Deepika e Ranveer fizeram a lição de casa muito bem. Aliás, todos tiveram boas atuações. Um destaque que não mencionei no post foi a atriz que fez a cunhada da Leela. Gostei de sua expressão de raiva e determinação.

      Nagada Sang Dhol tem um ponto especial que a diferencia de Nimbooda e Dola Re Dola: a emoção da cena. Ficamos emocionados com a comoção de Leela ao ver seu amado em sua casa e curiosos para saber o que sua mãe está aprontando. Em Dola Re Dola não considero forte a carga emocional de uma dupla de belas mulheres cantando seu amor por um babaca e Nimbooda tem a expressão "limãozinho azedo" repetida muitas vezes para conseguir ser dramática, hahah.

      A comicidade da cena da morte do irmão do Ram some logo depois, quando ele assassina o irmão da Leela. Até ri do rapaz caindo para a frente de olhos abertos, mas logo depois já estava envolvida pelo desespero do Ram enquanto atirava sem parar - coisa que jamais faria, Não comentei por isso...acho que marcou mais a você do que a mim, rs.

      Não achei o Ranveer homossexual, não. Ele estava meninão, engraçado e metido a sexy como um bom garoto de seus 16 anos.Como ele nunca me atraiu e provavelmente nunca atrairá, não fez diferença.

      Não gostei dos dois caindo porque isso só seria possível se eles tivessem se jogado juntos, mas eu estava tão na fossa por perdê-los (repare o drama) que também não penei muito nisso. Eu só queria que eles continuassem vivos e saltitantes com suas armas.

      Devdas: jamais. Jamé. Nunca.

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  3. A CUNHADA DA LEELA! BEM LEMBRADO! Foi a melhor cena do filme, aquela do quase estupro! Não pelo que ocorre, claro, mas porque MEXEU comigo enquanto mulher mesmo! Bem lembrado pro meu post.

    Sim, Nagada supera esses dois items de forma magistral. O encaixe foi perfeito.

    Eu não conseguia parar de rir. Nem quando ele disparava sem parar. Condene-me, senso de humor cruel! Marcou a mim porque foi um momento em que eu deveria ter ficado "caramba", mas fiquei: é... tô rindo. É que eu lembro de alguém, não sei se foi você ou a Jo, comentando que esse era um momento marcante e crucial no filme, quando Ram realmente caía na real e deixava de ser criança.

    Tão na fossa de perdê-los foi ótimo. Se eu tivesse visto o filme sozinha, quem sabe... Mas sabe quando tem alguém do seu lado com MENOS senso poético ainda que você e acaba rolando um consenso mudo de desapreciação? Foi tipo isso.

    Jackie Shroff berra pra você nesse momento: SHISHE SE SHISHA TAKRAAYEEEE

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    1. Deve ter sido a Jo! Eu elegi outro momento como especial na transição do Ram: aquele em que ele está desesperado e perturbado no templo e se corta com um pedaço de vidro. Acho que essa cena que você apontou foi realmente a do amadurecimento dele e a que eu comentei marcou sua desilusão com o mundo.

      Pela minha experiência, esse tipo de filme TEM que ser visto sozinho ou com outro fã de Bollywood junto. A minha mãe sempre começa a rir de algo que não me afeta mais e acabo rindo junto. Isso estraga muito a experiência do filme porque afeta a "suspensão da descrença" necessária ao espectador de Bolly.

      Não. Comento. Devdas.

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  4. Olá !Encontrei seu blog por acaso enquanto procurava uma foto do filme Veer-Zara e fui parar no Pyaari India. Meu nome é Juliana, moro em Mumbai e também spu apaixonada por Bollywood e cinema indiano em geral.Gostaria de dar meus parabéns pelo blog e pela iniciativa de divulgar o cinema indiano no nosso país. Também tenho um blog onde conto as minhas experiências aqui na Ásia e também divulgo o cinema indiano.
    www.tabibitosoul.com
    Mais uma vez, parabéns e...um abraço!
    Juliana

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    1. Oi, Juliana! Obrigada pelo comentário, com certeza vou passar no seu blog.

      Abraço :)

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  5. Tenho que concordar com a Isa q Suriya Pathak mergulhou de corpo e alma no papel. Quando vi nas premiações eu não acreditei q era a atriz de Ram.

    Raquel.

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E aí, o que tem a dizer? Deewaneie!

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