P.K. (2014)

22.7.15 Carol Batista 2 Comments


Um extraterrestre é incumbido de explorar a Terra e conhecer os seres humanos. O controle remoto que o levaria de volta ao seu planeta é roubado assim que chega aqui. Ao procurar seu objeto, a todo o momento é informado de que só Deus pode ajudá-lo. Assim é iniciada sua busca por Deus para que possa voltar para casa. A história parece loucura pura. E é mesmo. Seja bem-vindo ao peculiar universo de P.K!.

Falar de religião não é fácil. Falar de religião na Índia é risco de morte. Em P.K., o risco é contornado ao tratar do assunto pelo olhar do E.T. Se o personagem fosse humano, talvez suas críticas fossem vistas de forma mais agressiva. Aamir Khan construiu seu P.K. com a curiosidade da criança aliada à capacidade analítica do adulto. Isso deu ao seu personagem um poderoso olhar antropológico: ele desmonta cada objeto, rito ou situação em suas mínimas partes. A diferença é que P.K. não apenas observa e relata. Ele busca sentido por trás de todas essas coisas e a missão fica especialmente difícil quando se entra no espinhoso e diversificado campo da religião.



A falta de sentido no que observa nas manifestações religiosas das diferentes crenças é apresentada com muito humor – e aí está o trunfo do filme. Ao tentar agradar a Deus, P.K.fica confuso: o hindu gosta de coco como oferenda, a igreja cristã diz que ele gosta de vinho e esse mesmo vinho é desprezado pelos muçulmanos. A primeira metade do filme é dedicada quase inteiramente a mostrar as confusões criadas quando você tenta se aproximar de Deus por meio de uma religião sem saber quais são as suas regras. Tenho rido mais das comédias indianas ultimamente, mas nada será capaz de me fazer engasgar de rir como aconteceu na cena em que ele leva oferendas hindus ao altar de Jesus Cristo ou quando persegue um ator vestido de Shiva pensando ter encontrado Deus.

A segunda metade do filme tem um foco maior em criticar diretamente os intermediários entre os fiéis e Deus. P.K. os intitula como “gerentes” de Deus e percebe que há profunda incoerência entre os pedidos dos fiéis e as respostas dadas por Deus através de seus gerentes. Faz algum sentido Deus aconselhar seu fiel a caminhar durante dias até um templo distante quando ele pergunta o que fazer para ajudar sua esposa doente? Pois é, P.K. também acha as respostas de Deus muito estranhas e hipotetiza que os gerentes estão recebendo mensagens erradas, como acontece quando ligamos para um número por engano. A repórter Jaggu (Anushka Sharma) percebe o poder dos questionamentos de P.K. e decide ampliá-lo colocando-o na TV. Uma onda nacional de denúncias a líderes religiosos se segue. À esta altura, a mensagem do filme é sobre a importância do pensamento crítico para não ser manipulado por exploradores da fé. Mensagem passada num filme indiano, porém sua universalidade é impressionante. Quantas vezes já não vimos essa discussão aqui no Brasil?


A cada ano que passa aumenta minha admiração pelo Aamir Khan. Sempre me impressionei mais com suas escolhas de filme do que com sua atuação. Seu apaixonante E.T. mudou minha visão. A alternância entre a comédia, drama e crítica social é tão suave que nem percebemos. P.K. é o esquisitinho que é impossível não amar. O restante do elenco também fez seu trabalho com competência. Anushka Sharma pode alterar o que quiser na boca (sim, Anu. Nós percebemos.), que nenhum procedimento estético diminui sua expressividade. É excelente atriz e nos faz comprar qualquer personagem. Fiquei feliz ao vê-la atuando com Aaamir e Boman Irani – que está bem bonito, por sinal. Uma atriz com seu talento merece estar perto dos grandes.

Bollywoodiano que é, o filme não poderia passar sem músicas. Meu destaque principal vai para Love Is A Waste Of Time, a adorável música sobre a inocência da descoberta do primeiro amor. Apelidei-a de "Zoobi Doobi Revival" pela enorme semelhança com o musical romântico do filme anterior de Rajkumar Hirani, 3 Idiots. Tharki Chokro é provavelmente um dos musicais mais engraçados que vocês verão e contrasta com a tristeza de Bhagwan Hai Kahan Re Tu. Esta última foi uma boa oportunidade para me lembrar da bela voz de Sonu Nigam.


Muito se tem discutido, em textos e até documentários, sobre a responsabilidade do humor. P.K. me fez perceber que o humor é uma das mais fortes armas que temos tanto para analisar quanto para transformar a sociedade. O assunto tratado com humor talvez nos deixe mais abertos a pensar do que um discurso sério e chato. Considerando as verdadeiras batalhas religiosas travadas na Índia, podemos concluir que Rajkumar Hirani fez um filme ousado e também necessário, um dos melhores da década. Não se espante ao sair do filme perdido em risos, lágrimas e pensamentos mais profundos do que você esperava ter com uma comédia que se inicia com um E.T. correndo nu.

2 comentários:

  1. Aamir segue direitinho a máxima de não julgar o livro pela capa. Quando começou a circular a ideia de PK eu logo pulei da cadeira dizendo que seria algo difícil para ver (Quem me conhece sabe perfeitamente que não curto filmes com temática Alien). Pensei com meus botões...vai ser o primeiro filme dele que detestarei. Posso dizer agora que levei uma bofetada estilo Singham rsrsrsrs... O FILME É D+!!! A genialidade do roteiro é soberba!! E não fica devendo em nada as outras indústrias de cinema.

    Fico com você na análise da mensagem [...]importância do pensamento crítico para não ser manipulado por exploradores da fé. Mensagem passada num filme indiano, porém sua universalidade é impressionante. Quantas vezes já não vimos essa discussão aqui no Brasil?

    O fato do personagem ser um E.T foi de suma importância para a história, pois trouxe abertura para suas indagações nada ‘normais’. Também analiso o personagem de uma maneira não tão distante assim de nós. Vejo um ‘Q’ de E.Ts quando não sabemos nos colocar/agir diante de questões diferentes de nossa sociedade ou realidade.

    Raquel

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    1. O bom do Aamir é que mesmo quando achamos que não vamos gostar de algo dele, assistimos porque sabemos que ele não escolhe um projeto à toa. Aí acabamos adorando algo que não tem nada a ver com o que veríamos normalmente.

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E aí, o que tem a dizer? Deewaneie!

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