Ae Dil Hai Mushkil (2016)

29.1.17 Carol Batista 2 Comments


Karan Johar deu uma entrevista dizendo que não conseguiria escrever outra vez algo como o seu primeiro filme, Kuch Kuch Hota Hai, pois naquele filme havia uma inocência que não poderia ser reproduzida hoje - afinal, ele não tem mais 24 anos. Seus filmes não podem permanecer os mesmos quando se viu mais da vida. Esta mudança de tom  na abordagem do amor deu seus primeiros sinais em Kabhi Alvida Naa Kehna, onde tratou dos temas da infelicidade conjugal e infidelidade. Até mesmo seu filme mais inocente desde então, o juvenil Student Of The Year, é repleto de personagens incompletos e infelizes, mesmo que isso estivesse oculto sob roupas de grife e enormes cenários. Esses disfarces caíram com mais força em Ae Dil Hai Mushkil

Karan escreveu e nos contou a história de Alizeh (Anushka Sharma) e Ayan (Ranbir Kapoor), dois jovens que compartilham do gosto por se divertir e do amor pelo cinema indiano. Os dois ficam muito amigos, porém Ayan se apaixona por Alizeh sem ser correspondido. Ela é uma eterna apaixonada por Ali (Fawad Khan), um DJ que não consegue se comprometer com um relacionamento sério, apesar de amá-la. Em seu desespero por não ter o amor de Alizeh, Ayan se envolve com a poetisa Saba (Aishwarya Rai), uma mulher elegante e refinada que não se vê pronta para amar outra vez.


O básico da narrativa johariana não mudou: ainda convivemos com pessoas extremamente ricas que vivem presas em suas pequenas misérias pessoais. Ninguém trabalha ou tem que se preocupar com qualquer coisa que não seja seu namoro ou a realização de seus sonhos contra as expectativas familiares. Ayan é um jovem doce e engraçado, mas extremamente mimado. Ele precisa das pessoas e fica devastado quando elas não são recíprocas aos seus sentimentos. Isto vale tanto para uma namoradinha interesseira quanto para o amor mais forte que sente por Alizeh. Tamanho apego ao outro provavelmente vem do fato de ter sido abandonado pela mãe e criado por uma família fria, mas essa explicação não toma mais do que dois minutos da história. Na vida adulta, ninguém liga para quem ou o que fez você se tornar a pessoa que você é. O que importa aos outros é quem você é neste momento. Felizmente, Ayan e Alizeh encontram carinho e conforto um no outro neste início atribulado de vida adulta.

Alizeh foi um desafio para Anushka Sharma. Tem as bases da mesma personagem que repetiu diversas vezes: a bubbly girl sempre feliz, meio maluquinha e pronta para se divertir. É necessária uma grande atriz para reinventar uma mesma persona e Anushka cada vez mais demonstra que ela o é. Suas múltiplas nuances investiram Alizeh de uma humanidade que seria difícil de alcançar por outras atrizes. Ela foi capaz de representar uma personagem que finge ser forte, mas cujas vulnerabilidades vêm à tona em questão de segundos quando aborda sua vida amorosa. O mais interessante foi esse complexo traço de personalidade ficar claro muito antes de qualquer expressão verbal explícita sobre assunto. Os excessos de piadas e atividade de Alizeh pareceram sua forma desesperada de mostrar que estava bem sem o amor de Ali, sendo que ela estava tão perdida quanto qualquer pessoa apaixonada e não tinha ideia do que estava fazendo.


Nem mesmo o milagre de humanização dos personagens realizado por Ranbir e Anushka tornou menos irritante as sucessivas referências a filmes, músicas e diálogos de filmes de Bollywood. Karan Johar é filho da indústria e claramente projetou em seus protagonistas o nível de importância que os filmes hindi têm em sua própria vida. É sempre interessante ver um diretor mostrar tanto de si em tela, mas o efeito acabou sendo de os diálogos dos dois jovens adultos parecerem forçados. O mesmo tom pouco natural surgiu nas falas da personagem de Aishwarya Rai, que deu enorme dignidade à uma poetisa que fala uma frase de efeito por minuto. Este é um filme de poucos acontecimentos e muita discussão de relação, então todo o peso da condução da história acaba recaindo sobre os diálogos. O roteirista Niranjan Iyengar investiu pouco em reflexões e muito em frases que seriam mais constrangedoras se não fossem ditas por esse incrível elenco. Entretanto, houve alguns belos momentos que ficam com o espectador após o término do filme.


Por falar em Aishwarya Rai, o elenco coadjuvante de ADHM é também responsável pelo sucesso do filme. O pouco tempo de participação foi o suficiente para Aish apresentar uma personagem que transita de forma aparentemente confortável em sua vida de solteira. Lisa Haydon fez uma pequena e divertida participação como a namorada interesseira de Ayan com a qual roubou a cena e não perdeu o brilho, mesmo com os efeitos sonoros grotescos de comédia pastelão adicionados em suas cenas. Já o talentoso Fawad Khan não teve chance de mostrar tanto de seu trabalho. Acredito que seu personagem tenha sofrido muitos cortes na edição para evitar controvérsias após a proibição de que atores paquistaneses trabalhassem em Bollywood. A história de Ali e Alizeh é dada a conhecer apenas através de explicações da própria Alizeh e depois disso vemos Fawad apenas em dois musicais. Tamanho desperdício de um talento novo e revigorante é frustrante.

Aquela química inesperada


A trilha sonora é personagem. O produtor musical Pritam compôs canções merecidamente vencedoras de prêmios e Amitabh Bhattacharya inseriu profunda dor nas letras interpretadas pelo personagem de Ranbir, que é cantor. Confesso que me surpreendi com a qualidade do trabalho por não ser fã de Pritam e de Amitabh. O produtor musical acumulou diversas acusações de plágio durante a carreira e ainda não estou totalmente convencida da originalidade da trilha porque infelizmente é o pensamento padrão quando nos deparamos com seus trabalhos. Independentemente disso, a atuação dada por Ranbir Kapoor à voz dolorosa de Arijit Singh nas canções Channa Mereya e Ae Dil Hai Mushkil  foi daqueles raros momentos em que todos os elementos de uma obra se organizam de forma perfeita.


É impossível acompanhar o trabalho de um diretor há um tempo e não traçar uma linha de progresso. Dentro dos filmes que dirigiu, Ae Dil Hai Mushkil me emocionou bastante por parecer o final do período de transição da adolescência para a maturidade de Karan Johar. Todas as piadas com o estilo de romance de filmes antigos dão a impressão de que o diretor está tentando exorcizar uma parte de seu passado bollywoodiano - talvez aquela extremamente ingênua que acreditava que o amor pode vencer tudo. Acontece que quando falamos muito sobre algo o tempo todo, fica evidente o quanto ainda estamos presos àquilo. Os elementos aos quais Karan ainda está ligado, e talvez sempre estará, são o mundo completamente à parte da vida real em que seus personagens vivem e personagens que vivem totalmente para seu amor. O que ele vem adicionando cada vez mais às suas histórias é a dor como protagonista do amor. Alguém sempre é infeliz no amor em seus filmes, como Kajol em Kuch Kuch Hota Hai e Rani Mukerji em Kabhi Khushi Kabhie Gham, mas geralmente são os coadjuvantes ou é algo breve. Os personagens principais costumam ter uma árdua jornada até a felicidade eterna. Desta vez, o personagem principal tem seu amor continuamente rejeitado e a discussão sobre a amizade como forma de amor torna-se central. Muitos corações são partidos em Ae Dil Hai Mushkil e nenhuma dessas pessoas parece que irá se recuperar facilmente daquela dor. Alguns a levarão para sempre. A percepção da dor como parte normal da vida talvez seja a mudança da qual Karan falou ao lançar o filme.

Bollywood não é o que parece

Os problemas em Ae Dil Hai Mushkil não são poucos. A história torna-se arrastada por ter uma duração mais longa do que os poucos acontecimentos pediam, há o já mencionado problema com os diálogos, a caracterização física em um ponto crucial da história é extremamente mal feita e os momentos em que Karan Johar faz autorreferência a um filme seu são embaraçosos. Mas esse elenco faz tudo valer a pena. Karan nunca foi um diretor sutil ao tentar arrancar lágrimas de seu público e essa tendência foi potencializada num filme com atores tão intensos e espontâneos. Esta não é uma história para ser assistida desavisadamente, pois o choro é inevitável. Particularmente, não esperava soluçar tanto e nem ficar tão movida. É sempre um prazer ver uma equipe se desafiando como foi feito nesse filme, tanto em termos da história delineada quanto das atuações desinibidas. Enquanto houver alguém desafiando as noções de amor pré-concebidas que temos, eu serei sua espectadora.

2 comentários:

  1. Olá, espero prestigiar este filme em breve, gosto dos filmes do Karan Johar e pra mim Kuch Kuch Hota Hai é meu amor eterno. Agradeço por mais um texto excelente e sonho com o dia em que você terá uma revista impressa especializada em Bollywood, para o nosso deleite. Beijos!

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    1. Também amo KKHH, é inclusive o meu favorito do Karan.

      Obrigada pelo elogio! Acho difícil uma revista impressa sair, mas fico muito lisonjeada por você acreditar que eu poderia tocar o projeto.

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