Diretores: Karan Johar

30.12.17 Carol Batista 4 Comments


A solidão costuma ser o destino natural do filho único e Karan Johar não fugiu à regra. Nascido em 1972, o filho do produtor Yash Johar e de Hiroo Johar era uma criança solitária por não ter à sua volta a família estendida que vemos em seus filmes, com irmãos, primos, tios e avós por todo lado. Mesmo assim, Karan era o menino dos olhos de seus pais, que orgulhavam-se de todos os seus feitos. Yash já tinha 40 anos quando Karan nasceu e o produtor de cinema não poupou amor e mimos ao seu esperado filho, mantendo com ele uma relação afetuosa e calorosa como seria a de um avô com seu neto. Hiroo fazia as vezes de disciplinadora da casa e preocupava-se com o hábito de comer compulsivamente do filho, que viria a transformá-lo em uma criança rechonchuda e com questões de autoimagem que perduraram por anos.

Diferentemente do que o senso comum possa pressupor, Karan não sofreu bullying e era cercado por crianças afetuosas em seus ambientes. Cresceu tendo em seu grupo de amigos outros filhos de artistas do cinema indiano que também passaram a trabalhar no meio, como Abhishek Bachchan, Zoya Akhtar, Farhan Akhtar, Aditya Chopra e Hrithik Roshan.  Por ser um bom ouvinte e afeminado, as meninas gostavam muito de sua companhia. A dor de Karan vinha da percepção clara de ser diferente de seus pares, algo que o fazia odiar ser chamado de gordo e maricas - sendo esta última a ofensa que mais o magoava, tendo a capacidade de acabar com sua semana. Os xingamentos vinham sempre de crianças mais velhas e de fora do seu círculo. O menino era bem tratado e apreciado em sua escola e vizinhança, porém o sentimento de solidão não passou até conhecer o cinema, que ocupou o lugar do irmão que não teve.

"(...) apesar de conhecer todos eles, eu sempre senti que não fazia parte do mundo do cinema. Eu me conectava a eles como pessoas. Eu gostava deles e apreciava sua companhia, mas nada além. Na verdade, eu sempre me sentia uma pessoa menor na frente deles, porque nós éramos produtores, e produtores não eram considerados uma força naqueles dias. Como produtor, você deveria ser ainda mais simpático com as pessoas."
Hiroo costumava ouvir trilhas de filmes clássicos em casa, o que despertou o amor de Karan pela música do cinema hindi. Entretanto, mesmo com seu pai sendo produtor, filmes não eram uma parte tão comum do lar e nem da vida social do rapaz, pois na décadas de 70 e 80 os jovens da classe alta indiana tinham vergonha de Bollywood e preferiam os filmes americanos. Comprovando que era realmente diferente, Karan era o menino que ia ao cinema com sua babá para ver o mesmo filme cinco vezes e que sabia toda a letra de Waqt Ne Kiya, canção melancólica do filme Kaagaz Ke Phool (1959). Sua autoestima era baixa e o menino compensava esse fato sendo esnobe e muito retraído. O momento de mudança veio ainda na escola, quando juntou-se ao Clube de Interação. A professora convidou-o para participar ao vê-lo sempre observando o grupo à distância e fez uma atividade na qual uma tigela com várias palavras era passada entre as crianças, que deveriam pegar uma palavra e fazer um discurso sobre ela durante um minuto, sem pausas. A palavra de Karan foi "mãe" e todos estavam aplaudindo ao final da sua fala - talvez você se lembre de cena semelhante em Kuch Kuch Hota Hai. Pouco tempo depois, o rapaz substituiu um colega adoentado em uma competição de discursos e conseguiu o primeiro lugar para a escola nesta e em outras dezenas de competições. A visibilidade conferida pelo palco transformava Karan em um jovem  forte, seguro e bem articulado. As palavras forneceram a base de sustentação necessária para o desenvolvimento de sua autoestima.

A situação financeira da família Johar foi instável durante o crescimento de Karan. Dostana (1980) foi o primeiro filme da Dharma Productions e o único sucesso da empresa durante anos. A sucessão de fracassos da produtora do pai fez com que muitas vezes os colegas da indústria de cinema se afastassem de Yash, evento que não passou despercebido por Karan e que ainda guia a forma cínica e por vezes objetiva com que encara o glamour de Bollywood. É devido a esse contexto de constante insegurança que sua mãe, Hiroo, jamais quis que o filho se envolvesse com cinema e esperava que Karan trabalhasse com os negócios de exportação que eram a segunda fonte de renda da família. O filho concordava com o plano e não nutriu aspirações artísticas durante seus anos de faculdade, época na qual também dedicou-se secretamente a aulas de treino de voz. O objetivo das aulas demonstrava que a percepção de inadequação de Karan continuava a mesma: perder os trejeitos afeminados na voz e nos gestos. A voz que conhecemos não é sua voz natural, mas sim a que ele aprendeu a projetar para conseguir se fazer ser ouvido pelo mundo com alguma seriedade.

"Eu não era o garoto mais bonito e tive que lutar com várias questões. As pessoas pensavam que eu era afeminado e eu ouvia palavras como 'maricas' sendo ditas no meu prédio ou pelos veteranos na escola. Elas eram dolorosas e eu pensava no que poderia fazer para ficar famoso. Eu disse a mim mesmo: eu me recuso a cair no esquecimento. Preciso ser alguém, alguma coisa, ir a algum lugar."

Filmfare, 2014

O jovem Karan Johar ao lado de Shahrukh Khan
O período da faculdade foi onde o amor de Karan pelo cinema passou a ser compartilhado com outros amigos, com quem assistia a inúmeros filmes e travava longas discussões sobre os atores. Seu amigo obcecado por filmes indianos Aditya Chopra foi o responsável por sua primeira incursão profissional no mundo do cinema, ao chamá-lo para trabalhar como assistente de direção em seu filme de estreia, o clássico romântico moderno Dilwale Dulhania Le Jayenge (1995). Sua amizade com Shahrukh Khan e Kajol desenvolveu-se e foi fortalecida durante as gravações do filme, que eram praticamente um parque de diversões para todos aqueles jovens sonhadores e encantados pela história que estavam contando. Aditya foi o primeiro a dizer que Karan tinha a alma de um diretor de cinema, ideia que foi corroborada por Shahrukh e Kajol. Os atores disseram a Karan que estariam em seu filme de estreia e lhe deram as datas em que poderiam participar dele. E foi neste clima de mais espontânea pressão que Karan Johar passou a pensar na história de seu primeiro filme.

Karan estava em dúvida entre duas linhas de roteiro nas quais conseguiu pensar com muito esforço. A primeira mostraria o triângulo amoroso entre uma menina pouco feminina, uma bela jovem e um rapaz um pouco insensível, enquanto a segundo trataria da história de um viúvo que criaria sua filha. Um dia o futuro diretor percebeu que poderia unir as duas histórias ao colocar o triângulo amoroso na primeira metade do filme e a história do viúvo com a filha na segunda parte. Assim surgiu o início do que viria a ser Kuch Kuch Hota Hai.


Com Shahrukh Khan nos sets de Kuch Kuch Hota Hai (1998)
Karan não tinha ideia do que estava fazendo quando entrou nos sets. Não conhecia detalhes como lentes ou o que se poderia fazer com o equipamento de filmagem. Sabia apenas três coisas: dar close quando precisava de proximidade, estabelecer uma distância moderada e mostrar o cenário mais amplo. As influências para a produção do filme foram múltiplas. A presença de Raj Kapoor estava na primeira fala do filme, enquanto o estilo imponente das mansões dos filmes de Yash Chopra apareceram na segunda metade e o papel de Kajol veio dos gibis da Archie Comics. Os romances familiares grandiosos de Sooraj Barjatya também foram claras fontes inspiradoras para o filme. A maior dificuldade do diretor foi encontrar a atriz que faria a personagem Tina, pois nenhuma atriz queria fazer o papel secundário para a heroína Kajol. Ele foi até praticamente toda atriz disponível na indústria e já não sabia mais o que fazer, quando Aditya Chopra e Shahrukh Khan sugeriram Rani Mukerji. O papel do noivo de Kajol foi interpretado por Salman Khan por um salário reduzido porque queria fazer isso por Karan e pelo pai dele, que, segundo Salman, era a melhor pessoa da indústria.

Shahrukh Khan e Kajol em Kuch Kuch Hota Hai (1998)

Antes da cerimônia de lançamento, o gângster Abu Salem ligou para ameaçar a vida de Karan e avisou que ele levaria um tiro se o filme fosse lançado. A polícia o orientou a não demonstrar medo e manter a estreia. Karan passou a exibição do filme em uma salinha protegida por policiais e não pôde ver as reações do público ao seu primeiro filme nem mesmo depois, pois a família o enviou para Londres a fim de mantê-lo em segurança. Havia uma grande expectativa pelo sucesso do filme, pois desde o sucesso de Dostana (1980), a Dharma Productions havia amargado dezoito fracassos consecutivos nas bilheterias. Cada elemento de Kuch Kuch Hota Hai foi pensado para que pessoas de diversas regiões do país amassem o filme: havia a canção de Diwali para os hindus, um personagem muçulmano, família, crianças, jovens. O esforço compensou e Karan foi responsável pelo primeiro blockbuster da produtora do pai. Seu cuidado estético com o figurino dos personagens, que usavam marcas caras e jovens, colocou o filme como algo moderno e estiloso, fonte de desejo e inspiração para a juventude da época.

Kuch Kuch Hota Hai também trouxe uma importante mudança para a forma como os diretores eram vistos pelo público. Karan fazia questão de aparecer e falar sobre seu filme, postura diferente da maioria dos diretores, vistos como misteriosos e distantes. Desinibido e bem articulado ao falar com a imprensa, Karan estabeleceu a possibilidade de um diretor também ser visto como estrela pelo público e receber tanta atenção quanto os atores. Tamanha atenção e sucesso cobraram seu preço, aumentando substancialmente as expectativas para o próximo lançamento do diretor.

Pôster de Kabhi Khushi Kabhie Gham (2001)
A inspiração para Kabhi Kushi Kabhie Gham (K3G) veio do épico Ramayana, com a ideia de um irmão ser expulso de casa e outro irmão ir atrás dele para trazê-lo de volta. A história seria sobre o relacionamento entre pai e filho e voltar a dizer "eu te amo" para um pai mesmo depois de crescer. A enorme quantia de dinheiro obtida com o sucesso de Kuch Kuch Hota Hai foi utilizada em cenários, locações e figurinos luxuosos. K3G vinha para realizar uma vaidade pessoal de Karan, que era ter um pôster repleto de estrelas grandiosas, como seu ídolo Yash Chopra teve no pôster de Kabhi Kabhie (1976). Ele realizou seu sonho ao reunir Amitabh Bachchan, Jaya Bachchan, Shahrukh Khan, Kajol, Hrithik Roshan e Kareena Kapoor no mesmo filme. Para Karan, o filme era a união do pôster de Kabhi Kabhie com os valores familiares de Hum Aapke Hain Kaun (1994).

Tudo parecia certo para mais um sucesso estrondoso de público e crítica, mas Karan não contava com as mudanças que o ano de 2001 trouxe ao cinema indiano por meio de dois filmes: Lagaan, que levou o cinema hindi a um sucesso internacional coroado pela indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e Dil Chahta Hai, que apresentou uma nova visão mais sofisticada e moderna no seu retrato da juventude da classe alta indiana. Ao sair das exibições dos dois filmes, Karan passou a achar seu filme exagerado e opulento. Sua sensibilidade estava ligada às dos antigos mestres do cinema indiano, como Yash Chopra. O cinema estava mudando e seu trabalho parecia velho, opinião ecoada pelos críticos. Encarar esta rejeição magoou Karan profundamente, pois o amor e aceitação que recebeu com Kuch Kuch Hota Hai não estavam mais presentes. O filme fez muito mais dinheiro que todos os outros e é seu maior sucesso até hoje, mas a enxurrada de críticas levou Karan a um episódio depressivo.

"Aquele filme foi apenas eu ostentando. Eu queria a cena do helicóptero. Eu queria a mansão enorme. Kuch Kuch me deu dinheiro e agora eu queria todas as estrelas da indústria no meu pôster."


Karan dirigindo Shahrukh Khan e Jaya Bachchan em Kabhi Kushi Kabhie Gham

O desejo de fazer um filme que fosse legal e estiloso como Dil Chahta Hai foi o motor por trás da escrita de Kal Ho Naa Ho. Karan queria mostrar que também conseguiria modernizar seu trabalho. O diretor escreveu o filme já com os atores em mente, mas teve problemas com Kareena Kapoor, que exigiu o mesmo salário que Shahrukh Khan para estar no filme e acabou sendo substituída por Preity Zinta. Karan entregou o filme para ser dirigido pelo estreante Nikhil Advani.

"Quando olho para trás, sinto que nunca deveria ter dado a outra pessoa a chance de dirigir este filme. Agora eu nunca cometeria o erro de escrever um filme e dá-lo a outro diretor. Hoje, quando escrevo que sou o diretor deste ou daquele filme e não tenho Kal Ho Naa Ho na lista, isso me incomoda. Sinto-me péssimo por não tê-lo dirigido. Eu não sei por que eu o dei. Deveria ter sido eu. Eu me arrependo profundamente que o filme não tenha meu nome como diretor. Porque em espírito, no coração, talvez na execução, é completamente meu filme."

O pai de Karan ficou doente durante as filmagens de Kal Ho Naa Ho em Nova York e lá descobriram que estava com câncer. Yash morreu em 2004, ano de lançamento do filme. Repentinamente Karan não tinha mais sua principal base de sustentação e era o responsável pelo gerenciamento da Dharma Productions, quando até então tinha liberdade para focar-se apenas na criação. Ele não tinha ideia do que fazer, pois até ali apenas recebia dinheiro para seus filmes. Chamou seu amigo de infância Apoorva Mehta para ajudá-lo a gerenciar o negócio e ao longo dos anos a dupla conseguiu tornar a Dharma uma das produtoras mais rentáveis e criativas do cinema hindi, sendo famosa por lançar diretores estreantes. Karan passou do filhinho do papai para o homem da casa e desde então assumiu esta posição inteiramente, evitando mostrar suas inseguranças para a mãe.

Karan ao lado do pai, Yash Johar

Após uma pausa de cinco anos que foram dedicados a aprender o negócio da produtora, Karan voltou a dirigir um filme. Kabhi Alvida Naa Kehna (2006) é provavelmente o filme mais controverso do diretor, que aproveitou-se do poder que agora tinha em suas mãos para fazer filmes menos tradicionais, como era a característica de seu pai. KANK é o roteiro escrito por um Karan menos ingênuo em sua visão de família e amor, que ganhou traços de realidade pela observação dos casais que o cercavam - repletos de infidelidade e infelicidade conjugal. Ele foi inflexível quanto a retirar do roteiro a cena de sexo entre os personagens principais, pois a considerava importante para o desenvolvimento da história e para manter o realismo da situação vivida. Karan acredita que seu erro tenha sido manter a estética grandiosa e opulenta de seus filmes em uma história que era mais intimista. Também gostaria de ter dirigido a personagem de Rani para ser menos triste e o de Shahrukh de forma menos agressiva. Todos os atores, exceto Abhishek, estavam desconfortáveis com seus personagens - especialmente Rani, que a todo momento pedia uma justificativa para as ações de sua personagem, e Shahrukh Khan, que não queria fazer a cena de sexo. A novidade no roteiro era tamanha que desconcertava a todos. Não à toa, as reações foram mistas, já que as famílias que iam juntas ao cinema não esperavam ver um filme sobre infidelidade ao assistir a uma produção de Karan Johar. KANK teve um desempenho mediano na Índia, mas foi extremamente bem no exterior.  O filme representou o ponto de virada em seus roteiros, nos quais não consegue mais mostrar famílias perfeitas por não mais acreditar no conceito.

Rani Mukerji e Shahrukh Khan em Kabhi Alvida Naa Kehna (2006)

My Name Is Khan é considerado o filme mais sensível da carreira de Karan, porém sua criação partiu de um lugar de vaidade. O diretor queria ter o apreço da crítica que o julgava incapaz de fazer um filme diferente. E já que esse tipo de público gosta de filmes sobre causas sociais, nada mais adequado e atual do que falar sobre islamofobia. Neste filme o roteiro é de Shibani Bathija, ficando Karan a cargo apenas da direção. Diferentemente dos anteriores, este filme exigiu bastante pesquisa para sua criação, especialmente sobre Síndrome de Asperger. O diretor não gostou da forma como conduziu a sequência do furacão e acredita que poderia tê-la feito melhor, mas como resultado final atingiu seu objetivo de ter o apreço da parcela crítica do público. My Name Is Khan foi o primeiro filme de Karan sem título iniciado pela letra K, mudança ocasionada por uma visão mais cética de mundo, sem atenção à numerologia.

Com Shahrukh Khan e Kajol nos sets de My Name Is Khan (2010)

Após os temas pesados de My Name Is Khan, Karan sentiu vontade de trabalhar em algo mais leve. O diretor vinha sentindo que estava se tornando irrelevante para os jovens, que não o conheciam ou acompanhavam seu trabalho. Desta preocupação nasceu a ideia para Student Of The Year, filme que criou para lançar atores novos - no caso, os atuais superstars Alia Bhatt, Varun Dhawan e Sidharth Malhotra. Foi seu primeiro filme sem Shahrukh Khan como protagonista, mudança que afetou a amizade longa entre Karan e o ator. O objetivo era que crianças e jovens dos 8 aos 21 anos assistissem ao filme, que foi projetado como um musical de ensino médio. SOTY foi um sucesso absoluto de público, apesar do olhar pouco elogioso da crítica sobre a obra.

"Todos me perguntam por que fiz esse filme com novatos. Student Of The Year foi a melhor decisão da minha carreira porque me deu três estrelas. E todos eles estão fazendo bons trabalhos. SOTY não é nada além de um diversão frívola, não é algo para ser levado a sério. Não vai sacudir a fundação do cinema e mover nenhuma montanha cinematográfica. É para ser um passatempo adorável e glamouroso com dança e música. Espera-se que você vá para casa e o esqueça. Eu dou gargalhadas quando os críticos o levam a sério. Se eu não estou levando a sério, por que você está? Eu me diverti tanto fazendo SOTY. Fiz meu filme mais jovem aos 40. Só isso já me faz feliz."

Filmfare, 2014

Sidharth Malhotra, Alia Bhatt e Varun Dhawan em Student Of The Year (2012)

Em 2013 foi realizado o projeto do filme Bombay Talkies, que consistiu da união de curta-metragens de quatro diretores em comemoração ao centenário do cinema indiano. Karan dirigiu o curta  Ajeeb Dastaan Hai Yeh, ao lado dos diretores aclamados pela crítica Zoya Akhtar, Anurag Kashyap e Dibakar Banerjee. Karan era o elemento estranho do grupo, tanto pelo menor apelo comercial dos outros três diretores quanto por não ter familiaridade com filmes de pouca duração - como podem confirmar todos que passam três horas assistindo aos seus filmes. Apesar da insegurança, ele decidiu arriscar e contou a ousada história de um rapaz homossexual. O curta de Karan foi o mais elogiado pela crítica, que apreciou a forma nova de contar uma história e também seu cuidado ao conduzir a história mais complexa do projeto. Outro benefício do projeto foi permitir a Karan participar do festival de Cannes, onde o filme foi exibido. Após a aventura bem-sucedida, Karan assumiu mais um risco e participou como ator do filme Bombay Velvet, de 2015. O filme foi um fracasso comercial retumbante, mas sua atuação foi elogiada e ele pôde realizar o sonho de ser o centro das atenções de um filme, função dos atores.

Bombay Velvet (2015)

A vida amorosa de Karan Johar não é feliz. O diretor teve apenas amores não-correspondidos em sua vida, ficando devastado e com o coração partido após as poucas experiências vividas. Sua sexualidade é motivo de constante especulação por parte do público. Ele é confrontado de forma direta e às vezes até agressiva por pessoas na rua a respeito de sua sexualidade e nega-se a responder. Seu desejo não é levantar bandeiras, mas sim viver sua vida da melhor forma possível. A homossexualidade é ilegal na Índia e Karan tem noção de suas responsabilidades:

"Todos sabem qual é a minha orientação sexual. Eu não preciso gritá-la (...). E se eu precisar soletrá-la, eu não irei apenas porque vivo em um país onde eu possivelmente seria preso por dizer isso. É por isso que não direi as três palavras que possivelmente todos sabem sobre mim.

A razão pela qual eu não digo em voz alta é simplesmente por não querer lidar com os boletins de ocorrência. Eu sinto muito. Eu tenho um trabalho, um compromisso com a minha empresa, com as pessoas que trabalham para mim; há mais de cem pessoas pelas quais sou responsável. Não vou me sentar perante os tribunais e à Suprema Corte deste país por causa de indivíduos ridículos e completamente fanáticos que não têm nenhuma educação e inteligência e que querem alguma publicidade. Eu não farei isto."


A experiência de ter o coração partido levou à criação do roteiro de seu último filme, Ae Dil Hai Mushkil, grande sucesso de 2017. O diretor percebeu que não ser amado era uma experiência devastadora, mas que ao mesmo tempo o fazia sentir-se vivo. Karan investiu toda a dor que sentiu à época para contar a história do amor não-correspondido entre um rapaz e sua melhor amiga. O roteiro foi escrito em dez dias, enquanto estava em Nova York e fazia muitas caminhadas. O drama agridoce é reflexo da nova forma de encarar as situações românticas que começou em Kabhi Alvida Naa Kehna. Karan acredita que não poderia mais escrever um filme como Kuch Kuch Hota Hai ou K3G por não ser mais aquela pessoa. Ela está mais velho, pensa e sente de outras formas.

"Minha tonalidade não é mais o que era. Está vindo de um espaço bruto no meu coração. E é bruto porque a vida me levou a este ponto. Você vive uma vida, passa pelos altos e baixos na sua existência emocional e na sua vida pessoal e isso tem que encontrar caminho até o seu cinema, se você for escritor. Se você está se sentindo mais bruto é porque está se sentindo mais aberto. Suas feridas estão mais vivas. E quando suas feridas estão mais vivas, elas invariavelmente encontram caminho até a sua escrita."

Film Companion, 2016


Com Ranbir Kapoor nos sets de Ae Dil Hai Mushkil (2016)

Karan sabe que a comunidade do cinema não o leva a sério como cineasta e não deixa mais que a busca do respeito dessas pessoas guie suas decisões. É por isso que apresenta com sucesso o talk show Koffee With Karan desde 2004, programa em que não tem pudores ao inquirir sobre as vidas profissionais, pessoais e sexuais das estrelas de Bollywood. Ele sabe que o programa contribui para que o vejam como um homem superficial, mas não deixaria o status de celebridade e a diversão que ganhou com a exposição apenas para satisfazer a determinadas sensibilidades. Karan é um homem que nunca deixa claro se está sendo sincero ou não em suas entrevistas e parece divertir-se ao não deixar que a mídia controle a narrativa de sua vida desta forma. Mesmo parecendo estar no controle de sua vida, também viveu dificuldades nos últimos anos. Há dois anos viveu outro episódio depressivo, com muita ansiedade e a presença de um ataque de pânico. Esta vivência levou-o a cuidar melhor de sua saúde mental através de terapia e tratamento psiquiátrico. O ritmo de trabalho provavelmente contribuiu para suas dificuldades.


"Todas as horas da minha vida são dedicadas a mim e o trabalho é o meu amor. É a única coisa que não me trairá, a única coisa que é incondicional e também a única coisa da qual não me divorciarei e terei meu coração partido. Então ter um relacionamento com o seu trabalho é a melhor coisa do mundo porque as regras são suas. Você se vicia nela e não há espaço para sofrimento."


Filmfare, 2014

O que Karan não esperava era que o trabalho viesse a mudar seus desejos na vida pessoal. A relação desenvolvida com os três jovens atores de Student Of The Year, para os quais é um mentor até hoje, despertou nele o desejo de ser pai. Karan percebeu que criar e educar alguém era um sentimento que o satisfazia bastante. Esta nova aspiração tornou-se realidade em 2017, quando tornou-se pai dos gêmeos Yash e Roohi através de barriga de aluguel. A função paterna mudou radicalmente sua visão de vida, levando-o a passar as primeiras semanas de vida dos filhos completamente afastado do trabalho e dedicando-se apenas a cuidar deles. Karan foi acusado de ter filhos para preencher a solidão em que vivia, mas sabe que esta não é a função dos filhos. Para ele, filhos não preenchem vazios - estes continuarão em seu devido lugar -, mas sim consomem um amor que você já tem dentro de si. O orgulhoso pai também planeja criar uma creche dentro da Dharma Productions para que seus filhos sejam criados próximos do pai, assim como foi em sua vida.

A avó Hiroo Johar com Yash e Roohi

Karan Johar não é um diretor óbvio. Cresceu com os privilégios nepotistas de fazer parte do meio da indústria do cinema e orgulhosamente ostenta seus contatos e amizades com as grandes estrelas. Não se adequa ao ideal machista de homem indiano ideal e mesmo lutando contra partes suas, recusa-se a ser invisibilizado. Karan enfrenta diariamente cada pessoa que preferiria que ele rejeitasse e escondesse a si mesmo, fazendo-se ser ouvido e exercendo o poder de decisão que tanto teve por nascimento quanto conquistou por meio do trabalho como diretor, roteirista e produtor. Apesar de não desejar levantar bandeiras, sua própria existência como homem forte da indústria em uma sociedade que legaliza o preconceito já é política.


As transformações na visão de mundo e das pessoas sempre encontram reflexo na escrita de Karan, sejam elas palatáveis ou não para o público indiano. O seu forte e afiado lado comercial muitas vezes faz com que seu trabalho seja avaliado superficialmente pela parcela mais crítica do público como algo sem profundidade ou poder de transformação social. Nesta análise fácil não se percebe os elementos que Karan apresentou ao público geral por meio de seus filmes e das outras produções que passou a investir na Dharma Productions, em filmes como Kabhi Alvida Naa Kehna, Dostana, Dear Zindagi e Kapoor & Sons. Seu instinto inovador associado ao talento comercial permitem que tenhamos contato com novas formas de pensar amor e relacionamentos no cinema indiano. Aos que cultivam a curiosidade pelo cinema de massa, fica a sorte de continuar observando o eternamente inquieto e mutante espírito criativo de Karan Johar materializar-se em novas histórias.

4 comentários:

E aí, o que tem a dizer? Deewaneie!

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