Deewaar (1975)

21.1.12 Carol Batista 0 Comments

Rio de Janeiro, março de 2009. Primeira semana de aula dos calouros do Instituto de Psicologia. A programação do dia era uma aula inaugural com uma professora convidada da PUC. Eu nervosa, sem saber se deveria anotar ou não. "Se anotar, podem me achar esnobe. Se não, podem me achar relapsa". Ninguém anotava nada, então desisti. Nada do que a professora falava me interessava, até que fez uma pergunta:

- Quem viu Quem Quer Ser Um Milionário?

Eu não havia visto e ainda não sonhava em conhecer nada nem parecido com cinema indiano, mas sabia que estava fazendo muito sucesso e fiquei curiosa para ver como seria inserido na aula. A única coisa que guardei de tudo o que ela disse foi que para um irmão poder ser o "bonzinho", o outro tinha que assumir o posto de "mauzinho". Foi uma mensagem muito forte para os meus 17 anos, já que eu até então pensava que bom e mau fossem apenas questões de caráter, uma linha reta com dois pólos. Assistindo a Deewaar, claramente fonte inspiradora de QQUSM?, aquela aula logo me voltou à mente. Vijay (Amitabh Bachchan), o irmão mau. Ravi (Shashi Kapoor), o irmão bom. Sumitra Devi (Nirupa Roy), elemento que não tem correlato no filme, a mãe por quem aqueles filhos fariam qualquer coisa. E um forte amor unindo os três, apesar das diferenças.

Parece que este filme foi o verdadeiro início da persona do angry young man do Amitabh Bachchan, criada pelo duo Salim-Javed para o filme Zanjeer (1973), sobre o qual tenho preguiça de escrever. Vou traduzir como jovem homem bravo porque o Ibirá o fez aqui. É um tipo de personagem repetido por ele em vários filmes: um jovem sério e sisudo de bom coração que em algum momento não hesita em fazer justiça com as próprias mãos. O Vijay é a manifestação mais forte do tipo e logo em sua infância é mostrado o motivo de tanta amargura: seu pai foi injustamente acusado de desonestidade e a família passou a viver em um inferno no qual não hesitaram nem em tatuar "Meu pai é um ladrão" no braço de uma criança. Como se já não bastasse, o pai entrou nu momento Mother India e abandonou a família por não suportar a pressão. Ao compartilhar de todo o sofrimento da mãe para manter a família, Vijay amadurece antes do tempo e acaba se tornando cínico em relação à vida. Ainda assim, aquela ponta de bondade que precisa existir para caracteriza o jovem homem bravo (não me acostumo com isso) continua presente. Uma imagem emblemática do filme que demonstra isto muito bem é Vijay nunca entrar no templo, já que sua vida permite-lhe sentir que não deve gratidão nenhuma a Deus. Entretanto, mesmo esta raiva não exclui o fato de que é um bom filho que acompanha a mãe e o irmão ao templo.

O genro dos sonhos.

A persona do Amitabh é fortalecida pelo contraste oferecido por Shashi Kapoor e seu doce Ravi. Honesto, agradável e simpático, pode ser definido como "tudo o que o Vijay não é". Porém, ele não seria nada disto se não fosse pelo irmão "mau", Quando pequeno, Vijay decidiu trabalhar para ajudar a mãe a permitir que pelo menos Ravi pudesse estudar. Graças a isto, Ravi pôde viver a infância que toda criança deveria ter, com escola e amiguinhos. Para esta vida de tranquila inocência pode acontecer, tinha de haver alguém por trás encarando a parte não tão bonita assim das coisas.

Há três mulheres exercendo papéis importantes no filme. Leena (Neetu Singh) é a namorada de Ravi que com ele vive o tal mundo de algodão doce que o Vijay não pôde ter, com musicais apaixonados, promessas de casamento e brincadeirinhas. É por meio dela e de seu pai que Ravi tem a ideia de tornar-se policial. É uma pena que apareça tão pouco, parecia estar ali só para dar graça aos musicais e mais leveza ao filme. Anita (Parveen Babi) é o oposto: teve uma vida de sofrimento, o que a fez identificar-se com Vijay e logo se apaixonar por ele. O interessante é que Vijay não se interessou por ela de primeira e Anita teve que investir, uma situação normalmente impensável para mocinhas. Na Wiki da Parveen está escrito que ela trouxe uma nova heroína para o cinema indiano: independente, bebe, fuma, vai para a cama com o homem que ama quando quer, tem consciência de seu corpo. É chato que a isso tenham adicionado o sonho de se casar, mas a gente não pode ter tudo nesta vida. Acima de todas está Sumitra Devi, a mãe. E esta merece um parágrafo próprio.

O papel da mãe é fundamental no cinema indiano, mas o da mãe-deusa é o mais importante de todos. Ela é colocada como uma fortaleza que passa por todas as provações com dignidade. Detesto isto. Acho peso demais para uma pessoa esta posição divina, e é quase cruel limitarem seu papel a cuidar e amar os filhos antes de você poder decidir isto. Não acredito que a mãe-deusa vá desaparecer tão cedo, porém não me lembro de exemplos recentes. Isto é bom.

Com ou seu amor pela mãe-deusa e entre os irmãos, um acaba ficando contra o outro. Ravi, o policial honesto e Vijay, o bandido que acredita apenas estar jogando o jogo da sociedade do melhor jeito possível. O que torna tudo mais difícil é Ravir só ser quem é graças a Vijay, mas gosto da ideia de  que nem a gratidão deve nos fazer esquecer do que consideramos bom. Outra ideia legal é que os mais novos também podem ter algo para ensinar aos mais velhos (é um filme indiano, isto não é pouca coisa).

Deewaar é um filme mais emocionante do que eu poderia imaginar e tem um final muito forte e bonito. O drama é enorme e o número de cenas e falas que provavelmente são icônicas também o é, mas agora que descobri que foi dirigido pelo Yash Chopra, faz sentido. Senti que provavelmente nunca verei uma demonstração melhor do que seja o jovem homem bravo ("angry young man" grita na minha mente) e o filme é claramente dominado pelo Amitabh Bachchan e seu perturbado Vijay. Um daqueles clássicos que merece este título...e com todo o louvor.

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E aí, o que tem a dizer? Deewaneie!

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