Sharmeelee (1971)

18.2.18 Carol 0 Comments

O início da paixão de alguém pela Bollywood antiga costuma ser repleto de filmes grandiosos e que mudaram a história do cinema indiano, como Sholay e Mughal-E-Azam. Após um tempo passamos a conhecer os filmes menores, às vezes famosos e completamente loucos que fazem você questionar como é possível que você esteja gostando daquele festival de absurdos e de que forma aquilo conseguiu fazer grande sucesso. É o caso deste filme. Nada faz sentido, porém a mente não deixa  de pensar "ah, as músicas são tão legais. Ah, olha esses figurinos! Os protagonistas estão tão lindos!". É  a vitória da estética sobre a racionalidade.


Sharmeelee (traduzido como Dois Amores, Um Destino em Portugal) conta a história das gêmeas Kanchan e Kamini (Raakhee). Enquanto a personalidade de Kanchan é tímida e envergonhada, Kamini é extrovertida e aventureira. Isto faz com que Kanchan seja constantemente rejeitada por seus pretendentes ao casamento, cujas famílias acabam  preferindo a moderna Kamini. A gêmea alegre conhece o Capitão Ajit Kapoor (Shashi Kapoor) durante uma viagem com seu grupo de amigas e o rapaz rapidamente fica encantado por sua beleza e alegria, porém a moça vai embora antes que ele possa descobrir seu nome. Ao voltar para casa, o pai adotivo de Ajit o apresenta à uma moça com a qual gostaria que o filho se casasse e qual não é a surpresa de Ajit ao deparar-se com a bela moça que conheceu há poucos dias? O problema é que aquela não é Kamini, mas sim Kanchan. Muitas trocas de papéis entre as irmãs dão o tom da história.

Um dos principais temas abordados é o embate entre tradição e modernidade, sendo cada um dos lados representados por uma das gêmeas. Kanchan usa sáris, mal consegue olhar nos olhos das pessoas e não sai muito, enquanto Kamini usa calças, penteados modernos, estudou e viaja com as amigas. Costumamos ver os filmes como retratos de um determinado tempo da sociedade, porém não me lembro de jamais ter visto um filme indiano, especialmente antigo, em que alguma jovem fosse rejeitada por ser recatada e tradicional. É interessante ver as famílias rejeitando Kanchan por não ter educação formal, pois desta forma ela não poderia acompanhar seus bem-formados filhos. E até que elas têm uma certa razão para desconfiar da moça como futura nora, pois a timidez de Kanchan chega a ser patológica e remete a uma fobia social grave - ela treme ao encontrar pessoas novas, não fala, não olha nos olhos, corre dos que se aproximam, mal sai de casa e tem como único hobby conversar com animais. Não é exatamente a imagem de noiva dos sonhos. Por sua vez, Kamini tem grande senso de humor e investiu em seus estudos, o que minimamente garante assunto para conversas. Não é difícil compreender a preferência das famílias por ela, apesar de ser doloroso ver a humilhação a qual Kanchan é submetida com as sucessivas rejeições.

Kamini não se encaixa tão facilmente no clichê da "gêmea má" e está longe de ser uma Paola Bracho. Apesar de claramente sentir-se superior à irmã, é perceptível sua felicidade por ela ao saber que está noiva e seu interesse pelos detalhes sobre o pretendente parece genuíno. Mas não deixa de ser uma personagem difícil de compreender. Em alguns momentos fica implícito que namorou um rapaz e teve relações com ele - coisa imperdoável para moças de filmes antigos - e fiquei em dúvida se teria ou não se envolvido em atividades ilícitas durante o namoro. Tive a impressão de que é mais uma moça extremamente focada em suas próprias necessidades do que uma vilã que deseja causar mal ao outro, especialmente à irmã, apenas por diversão. É um bom contraponto à Kanchan, que passa todo o filme em uma atitude de abnegação em relação àqueles que a humilham; inclusive sacrificando-se pela mãe que não pensou duas vezes ao proclamá-la um fardo para família por não conseguir se casar.

É difícil analisar o capitão Ajit objetivamente por motivos de Shashi, o mais charmoso dos Kapoor. Como Amrita e Beth comentaram muito bem  no podcast Masala Zindabad, Shashi fez alguns personagens bem desprezíveis e acabamos deixando-os passar porque ele é tão...bonito. Não é uma boa justificativa, porém a explosão de carisma do rapaz é tão intensa que dificulta passar incólume, especialmente por já termos uma tolerância maior ao machismo em filmes antigos. Ajit é ainda mais difícil de odiar por ser uma espécie de bom filho, militar e poeta que canta seus poemas para a mulher amada. Não é justo, Shashi. Desta vez consegui detestá-lo porque em um certo ponto do filme ele simplesmente tenta esganar uma mulher e age da forma mais grosseira e deprimente que se possa imaginar, entretanto mesmo nestes momentos foi possível apreciar o talento acumulado por Shashi em anos de teatro. Ainda não encontrei paralelos para sua capacidade de transitar entre os cinemas comercial, paralelo e o teatro.


Rakhee faz um bom trabalho com suas gêmeas, apesar de eu acreditar que provavelmente sua intenção não era fazer Kamini ser mais agradável que Kanchan. O tom excessivamente simplório e de humildade que emprestou à irmã boa é reforçado por um roteiro que traz uma Kanchan subjugada e fiel aos retratos femininos dos romances dos anos 60. O que traz alguma estranheza à Sharmeelee é essas mensagens antigas que opõe "tipos de mulheres" estarem com a nova e brilhante roupagem dos anos 70. Em meio à tanta ação, belos musicais e reviravoltas, é fácil não perceber que há uma mensagem antiga com nova embalagem: mulheres tradicionais são as melhores e sua resignação será recompensada.

A trilha de Sharmeelee foi composta por S.D. Burman, que é meu produtor musical favorito de Bollywood. A divertida trilha tornou-se um grande sucesso na Índia assim que foi lançada. A canção mais famosa provavelmente é O Meri Sharmilee, mas minha favorita é a Aaj Madhosh Hua, que representa o sonho de Kanchan de estar junto de Ajit. A voz de Lata Mangeshkar encaixou-se perfeitamente à proposta sonhadora da canção e  a locação é belíssima - inclusive gostaria de saber onde se passa. Seria Shimla?


Apesar de discordar dos valores transmitidos, senti que este foi um dos filmes mais loucos e dinâmicos que já assisti não apenas em Bollywood, mas na vida. As reviravoltas são frequentes tanto na parte romântica da história quanto na de ação. Há lutas em aviões, assassinatos, espionagem, trocas de irmãs e até hospitalização. Houve um momento em que eu não tinha palavras para descrever o que estava acontecendo e a percepção do meu próprio nível estupefação muito me divertiu. Não é comum, porém considero muito bem-vindo um filme começar pela linha básica do romance e ir revelando-se tão surpreendente que prende o espectador na sua cadeira à espera do próximo evento. O filme seria melhor se não tentasse unir um enredo policial à uma história de triângulo amoroso que já era complicada o suficiente para render uma história inteira. Às vezes a simplicidade por ser a melhor escolha.

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