Chak De! India (2007)

3.3.12 Carol Batista 9 Comments

Semana do Poder Feminino - Post # 2

Personagem do dia:

Seleção Feminina de Hóquei

...ou as Chak De! Girls


Meu primeiro filme indiano foi com o Shahrukh Khan. O segundo também. O terceiro e o quarto não foram, mas dos dez primeiros, seis eram com ele. Com este momento estatístico quero mostrar como ele é uma das minhas mais importantes referências em cinema indiano. Céu, terra, tudo era SRK para mim! Assisti a Chak De! India naquela época e o filme imediatamente tornou-se um dos meus favoritos. Costumava dizer que era a prova de que SRK não precisava de heroína nenhuma para fazer um filme incrível. Será que eram os hormônios dos 17 anos? Porque agora, aos 20, nunca me senti mais equivocada. Ao revê-lo, parece que vi um filme vinte vezes mais potente que aquele já conhecido por mim. E com mais heroínas do que o habitual.

Shahrukh Khan está lá, tão forte quando me lembrava. Só que desta vez vi mais - 16 vezes mais. Opa, são 16 mesmo? Além do Kabir Khan, ex-jogador de hóquei injustamente acusado de favorecer o Paquistão na final do Campeonato Mundial e condenado ao ostracismo esportivo, havia as garotas. Uau, as garotas! Sinto que eu não conseguia vê-las tão grandes quanto são.

"As garotas" são a Seleção Feminina de Hóquei, Seleção esta na qual ninguém acredita - nem suas famílias, nem o Ministério do Esporte. E nem elas mesmas acreditam, pelo menos não no conceito de "Seleção". Individualistas e vaidosas, cada uma valoriza tanto o que conquistou em sem seu time estadual que esquece de olhar para o lado e ver o talento da outra. É no desenvolvimento do espírito de equipe que Kabir aposta todas as suas fichas e a esperança de refazer seu nome no esporte.


Durante todo o tempo são ditas frases que transmitem o pensamento de muita gente: mulheres devem ficar em casa, hóquei não é um esporte importante, elas não irão a lugar nenhum. O namorado de Preeti (Sagarika Ghatge), uma das jogadoras, também pensa assim. Jogador de críquete, esporte mais importante da Índia, trata a carreira da namorada como um capricho e se incomoda com o modo como este capricho atrapalha-a a fazer o mais importante: suas vontades, claro. Até porque o que ela quer tem relevância nula na visão dele, que deu passos importantes como pedir sua mão ao seu pai e marcar a data do casamento sem informá-la. Olha que coisa maravilhosa: ela vai ser esposa de um grande jogador de críquete, não é sensacional? Para Preeti, o hóquei é aquilo que sabe fazer de melhor. Sua posição na Seleção foi conquistada com esforço próprio. Mesmo ainda não conseguindo se impor totalmente, faz questão de se dedicar àquele seu pontinho de autonomia, pontinho este que cresce juntamente com sua confiança enquanto esportista e mulher.


A situação é ainda pior para Vidya (Vidya Malvade), a competente goleira do time. Quando se casou, a família de seu noivo não apenas já sabia de sua profissão, como também estava muito feliz com os benefícios sociais (como moradia) por ela proporcionados. Entretanto, assim que Vidya se ausenta de casa para os treinos da Seleção, logo começam as cobranças: por que não está em casa para um casamento que haverá na família, cumprindo com seu dever de esposa e nora? Sua carreira só tem relevância para eles quando lhes traz vantagens. A partir do momento em que a impede de agir como o papel social da mulher exige, tudo de bom trazido pelo hóquei desaparece no ar. Vidya, a goleira, para eles não parece fazer parte de sua identidade enquanto mulher. Por sorte, a serenidade e clareza de pensamento de Vidya fazem com que permaneça firme em sua decisão de se dedicar ao esporte, sem maiores dramas. Seu treinador nota estas características e não é por menos que a nomeia capitã do time, para desgosto de Bindya (Shilpa Shukla) e seu bando.

Bindya e sua expressão habitual. Komal fofa lá atrás!

Bindya é uma das personagens mais importantes do filme. É invejosa e altamente egocêntrica, acreditando que sua história no esporte a faz mais importante que as outras. Deseja ser a líder e a todo momento instiga as outras contra o treinador, que não hesita em tirá-la do jogo caso seu ego esteja atrapalhando o treino. Erra feio, julgando mal a escolha para capitã de Kabir. Acredito que seja uma personagem fundamental por cometer tantos erros e principalmente, por sua guerra contra as outras ser no âmbito profissional. Se o time fosse composto só por boas mocinhas lutando contra o mal, soaria artificial demais. Bindya e suas colegas mostram o óbvio: nem toda pessoa é doce e maravilhosa e há mulheres que invejam outras por suas conquistas profissionais, não por uma suposta inveja que toda mulher sentiria da outra. Em nenhum momento vemos Bindya reclamando que outra é mais bonita, tem um namorado melhor, isso ou aquilo. Ela se acha a melhor e mais experiente jogadora de hóquei e quer ver todos respeitando esta tal hierarquia. Bindya é real.

Há muitas outras com diversas histórias e questões próprias. Fiquei me perguntando quem seria minha favorita e a resposta foi fácil e dupla: a centrada Vidya e a espevitada Komal (Chitrashi Rawat). Sou pequena, apesar de não tanto quanto a Komal. E o ridículo motivo de eu gostar tanto dela é essa identificação por tamanho. Sério. Não tenho como não me sentir ligada ao ver aquela moça pequena cercada por gente alta. E o melhor: sem dar a mínima para isso. Komal é muito divertida, além de uma das melhores atacantes.


Saindo um pouco da análise das meninas e partindo para o técnico Kabir Khan, seu trabalho ser voltado para construir uma identidade de time foi sensacional. Foi o primeiro filme indiano onde tive mais contato com um certo clima separatista existente entre os vários estados do país. Cada uma se identifica com seu próprio lugar de origem, enquanto Kabir se esforça para lhes mostrar que antes de tudo estão ali para lutar pela Índia - não por Andhra Pradesh, Haryana ou Manipur. Há algumas que apenas falam línguas que as outras nem entendem, outras que fisicamente parecem nepalesas e são "tratadas como estrangeiras em seu próprio país", como disseram as próprias. É toda uma montanha de coisas a se derrubar - ou ao menos contornar - para se montar um time vencedor. Kabir é implacável na busca deste objetivo, fazendo-as treinar arduamente. Neste ponto não sabia se ficava incomodada ou não porque ao mesmo tempo em que aparentava ser do que elas precisavam para se unir, ele deu pouca atenção até à uma jogadora que desmaiou durante os treinos. De todo modo, o mais encantador no personagem é a fé que deposita naquelas meninas, e seu modo de demonstrá-la é mais prático que verbal: trata-as como as atletas competentes que são e  acredita que não devam ser protegidas ou diminuídas por serem mulheres. Não faz grandes discursos, o nosso Kabir. Afinal, não há muito tempo a perder. Grande personagem do Shahrukh Khan, um dos meus favoritos dele! Sério, seguro, até mesmo um pouco ranzinza, mas isto se justifica por tudo o que treinar aquele time representa em sua vida. Nem a famosa tremedeira shahrukhaniana faltou.



Badal Pe Paon Hain e a animada Chak De! India são minhas canções favoritas da trilha, composta por Salim-Sulaiman. A primeira é a que mais gosto porque me acostumei a ouvi-la - o modo aleatório no Media Player pode ser responsável por vários favoritismos. Também gosto muito de Bad, Bad Girls porque tenho uma queda por músicas da Anushka Manchanda, a melhor para músicas mais modernas e com um toque ocidental.

O modo como Chak De! India se desenrola não tem nada de surpreendente, levando-se em conta como filmes de esportes costumam ser. Muita superação, motivação e jogos emocionantes. Um belo trabalho do diretor Shimit Amin e do roteirista Jaideep Sahni (descobri que ambos também escreveram e dirigiram Rocket Singh - fiquei fã!). Confesso que gosto do gênero, mas este é o único filme nestes termos que conseguiu ser meu favorito. Não por trazer algo de muito original, mas por ter a ousadia de colocar em contexto indiano uma história em que o esporte é utilizado como meio para proporcionar a autonomia feminina. Aproveitando a oportunidade para cair num clichê que infelizmente ainda se faz necessário, sustento que cada vez mais temos de encontrar meios de empoderar as meninas, garotas, mulheres ou como queiramos chamar. Ao contrário da Beyoncé, não acredito e nem desejo que as garotas mandem no mundo. Elas mandando em suas vidas, já está de bom tamanho para mim. 

9 comentários:

  1. Realmente esse filme tem muito poder feminino. Cada uma das garotas tem suas dificuldades a superar.
    Foi um dos meus primeiros também, a personagem que mais me marcou foi a baixinha, e fiquei muito revoltada com a família da Vidya, torci muito por ela!
    A parte que se apresentam demonstrando as diferenças entre os estados é bem interessante pra quem está conhecendo a cultura da Índia! (lembro que quando acabou eu queria saber mais sobre essas diferenças)

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  2. Eu não assisti a esse filme ainda mas você me deu serias razoes para correr para baixar esse filme. Acho que a mulher está sempre tendo que provar que é capaz , e isso é chato mas nos faz mais fortes. Eu estava vendo na Tv que o Santos acabou com o time de futebol feminino que eles tinham e que revelou todas as meninas da atual seleção brasileira e fiquei pensando se um dia eu iria ver algum time masculino acabando como fizeram com as meninas. Nesses momentos eu me sinto agredida, porque no país do futebol só porque são mulheres não merecem patrocínio, isso é o cumulo da discriminação. E ai a gente vê o quanto nosso país ainda é machista! Lindo texto Carol, arrasando como sempre.

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  3. Particularmente senti mais ligação com a personagem Bindya, não por ela ser invejosa e altamente egocêntrica, mas sim, pelo seu jeito racional de ser. Bindya é daqueles personagens que você fica se perguntando... Como era sua vida? Sua infância? Seus pais?... Personagem rico em história. Senti a necessidade de fazer um mergulho na sua vida, pois vi que muitas de suas atitudes provinham de experiências passadas. Bindya passa a sensação de que levou muito na cara e aprendeu que se não dominasse logo o pedaço ia ser mais uma vez humilhada, tanto é, que a mesma joga baixo (momento toco SRK) e não consegue nada. Uma mocinha clássica em uma sociedade que preza ‘pureza de corpo e alma’ não teria tal atitude. Acredito que no passado Bindya tenha sido jogada aos leões....volto a perguntar: Bindya, qual é sua história?

    Raquel.

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  4. Hum que sensacional!! O filme, segundo sua análise, me trouxe atitudes que admiro muito. E pelo que percebi a Vidya vai ser minha personagem favorita, amo mulheres assim que lutam que se dedicam que se mostra capaz. Carol também gosto muito desse clima de rivalidade dentro do próprio ambiente de convívio porque mostra que tudo lugar é lugar de batalha e que cada batalha deve ser vencida a partir do lugar que se vive!!

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  5. Carol, incrível o post! Realmente tem tudo a ver com o Poder Feminino.
    Concordo em gênero, número e grau com o que você escreveu. Cada dia mais me surpreende como pensamos igual!
    Parabéns pelo blog e ccontinue me inspirando.

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  6. Pri, então você também é fã da pequena Komal. Também fiquei curiosa sobre as diferenças porque também era meu comecinho. Fiquei impressionada.

    Alice, isso me lembra um texto do Escreva Lola Escreva (que estou sempre citando) em que a Lola comenta desta falta de prestígio que dão aos times femininos e chama a atenção para uma coisa: já notou que quando é uma seleção masculina, o nome é apenas "Seleção"? Por exemplo, a Seleção Masculina de Futebol é a Seleção e ponto. Já a das mulheres é a "Seleção Feminina", precisamos especificar o "Feminina" ao falarmos dela. É como se fosse apenas uma versão ou adaptação da outra, não o mesmo futebol. Sim, ainda temos muito espaço para conquistar.

    Raquel, a Bindya dá muito pano para manga mesmo, tem razão. Só que em Chak De seria perigoso mostrar um pouquinho mais que fosse de qualquer uma delas, já que o foco era em quais características de cada uma prejudicariam ou atrapalhariam a união que deveria haver para formar a tal "Seleção". E você tem razão, ela deve ter passado por muita coisa para ter uma atitude como aquela, estando tão certa de que era a única coisa que a Vidya poderia estar fazendo para levar vantagem. Acho que um passado pesado deve ter se misturado com uma auto-confiança grande demais que ela ganhou em seu time estadual para deixá-la daquele jeito. Ainda bem que o Kabir não se intimidou. Agora, comentário nada a ver e off: não era lindíssima uma menina que andava com ela, uma que tinha umas mechas vermelhas nos cabelos? Passei o filme todo falando dela para a minha mãe!

    Sara, CDI é lindoooo! Adoro a Vidya pela serenidade na luta, ela sabe que nem sempre terá de tomar as decisões mais fáceis, mas apenas vai lá e faz.

    Marina, também venho percebendo isso pelos seus textos, realmente temos muito em comum! É bom ter este tipo de novidade por perto *-*

    Muito obrigada pelas discussões, moçada!

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Preciso assistir esse filme!!!Vou assistir e depois comentar.Parece ótimo!E tem SRK!!!Ótimo post Carol!!!Parabéns!!

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  9. Nossa, adoro esse filme! O texto ficou ótimo, me deu vontade de rever. Acho que esse é o melhor filme de esporte com mulheres já feito (que são bem poucos, vamos combinar). Ele não só tem mensagens importantes para as meninas, como é realmente bem feito. Imperdível para quem curte cinema de qualquer lugar e obrigatório para os fãs do SRK.

    Agora, não me contive e ri alto com a "tremedeira shahrukhaniana"!! Uahahaha! É esse o termo que eu buscava para definir! Me permita usar em alguma resenha no meu blog, com os devidos créditos ao Deewaneando, claro! XD

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E aí, o que tem a dizer? Deewaneie!

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