Iti Mrinalini (2010)

25.3.12 Carol Batista 2 Comments

Descobri Iti Mrinalini quando buscava algum filme da Konkona Sen Sharma para assistir. Além de uma das minhas favoritas, é uma das melhores atrizes do cinema indiano atualmente. A saudade bateu, fui em sua lista de filmes e encontrei este que é bastante recente e no qual foi dirigida por sua mãe, Aparna Sen. Para quem não sabe, a Aparna é uma das cineastas mais sensíveis e talentosas de toda a história do cinema indiano. E claramente sou fã da família Sen.


Toda a história se desenrola a partir do momento em que Mrinalini (Aparna Sen), uma atriz já mais velha do cinema bengalês, senta-se para escrever uma carta de despedida antes de cometer suicídio. Enquanto escreve, vamos sendo levados por suas lembranças, nem sempre lineares. Somos apresentados à elas principalmente por meio da histórias de Mrinalini quando jovem (Konkona Sen Sharma) e os relacionamentos que pontuaram sua vida: amorosos, de amizade, familiares, com a literatura, com a imprensa.

O filme mostra uma reflexão sobre a vida de alguém, o que nunca é fácil de assistir ou comentar. Vou tentar pelo primeiro tipo de relacionamento mostrado: o amoroso. Mrinalini na segunda fase está em um relacionamento com Imtiaz Chowdhury, um jovem diretor de cinema. Ambos dividem o gosto por filmes e poesias e tudo parece bem até ele demonstrar interesse por uma atriz mais jovem, situação que leva Minnu (vamos chamá-la assim) à situação suicida. Entretanto, não é este fato em si que a faz chegar ao limite, ele foi apenas o estopim de algo que já vinha se acumulando. Minnu teve toda uma vida na qual nada pôde ser seu por completo. Durante quase ou mais de uma década manteve um romance com o diretor Siddharta Sarkar (Rajat Kapoor), com este sempre prometendo à ela que deixaria a esposa. Quando tiveram uma filha, deixou que fosse criada pelo irmão e a cunhada, tendo um ótimo relacionamento com a pequena Sohini (Ananya Kumar-Banerjee), mas não o que realmente desejava. Fez filmes de sucesso, mas nunca foi chamada para trabalhar com seu diretor favorito. Seus poucos desejos são atendidos pela vida de modo estranho, diria até que pouco satisfatório.


Para Minnu, o mais difícil é diminuir a necessidade que sente de controlar tudo. Acredito que seja a imprevisibilidade da vida o seu motivo de maior sofrimento. Parece que todos tem alguém que seja "seu", se é que isto existe. Siddharta tem sua esposa e seus filhos, não conseguindo ficar longe deles. Seu irmão tem a esposa. Seu amigo Chintan (Koushik Sen) também tem sua esposa. Já Mrinalini não tem ninguém a quem esteja presa e esta falta de um porto seguro pode ser insuportável para alguém tão controlador. Até sua carreira, algo que estava em suas mãos, mudou quando envelheceu.

Chintan disse a Mrinalini que ela não entendia que existem várias formas de amor. Foi algo que me afetou porque venho pensando bastante a respeito. Ela não parecia entender que aquele amor forte entre amigos, que quase chegava ao amor romântico que conhecemos, poderia ser tão ou mais forte que qualquer outro. No fim, foi a manifestação deste mesmo amor que a fez sentir a segurança que tanto queria. Acho que ela só queria sentir que em algum momento era a prioridade de alguém, mas focou esta necessidade no amor romântico e não percebeu que não estava só.


O que mais me marcou no filme foi uma certa falta de solidez da protagonista. As situações vão acontecendo e apesar de eu ter ficado envolvida por elas todo o tempo, não consegui formar uma boa imagem da Mrinalini em minha mente. Disse que me marcou por uma razão bem particular. Desde que saí da escola, entrei para a faculdade e comecei a crescer, a cada dia aumenta minha sensação de não conhecer realmente as pessoas. Não posso afirmar que é geral, mas me parece que quando somos crianças e adolescentes acreditamos conhecer todos os aspectos de uma pessoa. Hoje isto mudou para mim. Parece que não sei nada até mesmo de quem mais gosto. Estou deixando que me surpreendam, tanto positiva quanto negativamente. No início do filme, logo esperava ver toda a história de uma mulher forte, que se impunha. Mas não foi bem assim. Às vezes nem ela parecia saber o que queria, o que só me confundia mais. A protagonista não é uma mulher marcante à la Silk Smitha, mas foi esta normalidade que me deixou ainda mais intrigada pela história — aquela ali poderia ser qualquer pessoa. Ela começa tudo parecendo uma mulher divertida, discutindo numa mesa de bar. Mas a promessa não se mantém. Para um filme que se propôs a falar sobre imprevisibilidade, é coerente mostrar alguém sem uma personalidade previsível. Ver a Mrinalini e passar todo o tempo tentando desvendá-la me lembrou esta sensação de desconhecido que venho sentindo ao olhar para as pessoas.


Talvez Iti Mrinalini só tenha sido uma boa experiência porque o meu contexto e o meu momento pediam por algo como ele, que me oferecesse muitos elementos para refletir e deixasse as respostas (ou pelo menos as tentativas) comigo. E tudo é contextual quando se trata de ver filme. As atuações da Konkona e da Aparna estavam ótimas, mas não devo deixar de mencionar dois atores que muito me encantaram: Koushik Sen e Ananya Kumar-Banerjee. O primeiro estava simples e encantador como o sensível escritor Chintan e a segunda estava adorável como a esperta Sohini. A história dele renderia outro filme e ela merecia um pouco mais de atenção do roteiro, pois se mostrou uma criança muito livre e fiquei curiosa por saber como se desenvolveu para ser assim. Quase achei que forçaram em sua personagem, mas fez sentido quando lembrei que as pessoas não são iguais.


Recomendo o filme, apesar dos apesares.Não é o melhor da Aparna, mas é muito bom e material para reflexão sobre a vida é o que não falta. Para quem estiver precisando disto, aí está a dica.

2 comentários:

  1. Carolzita, to precisando de um filme assim. *vivendo um momento de crise existencial* filmes que questionam personalidades, e interessante porque nos faz descobrir o quanto sabemos o que somos e o que nos cerca. Talvez as descobertas nao sejam boas, mas no fundo, no fundo o que precisamos eh de um porto seguro.

    Queria comentar mais. Mas fazer isso de um tablet e horrivel. Enfim, continue incrivel e com post's maravilhosos.

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  2. Sarinha, vá atrás. De verdade. Quando a gente está precisando de algo mais sério, acaba encontrando filmes indianos maravilhosos e inesperados.

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E aí, o que tem a dizer? Deewaneie!

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