Chennai Express (2013)

24.12.13 Carol Batista 0 Comments

Mesmo em meu exílio acadêmico, sabia que em algum momento teria que voltar para assistir a Chennai Express. Faz um tempo que o diretor Rohit Shetty é meu maior “prazer culposo” em Bollywood. Adoro ver seus filmes com carros voadores, cores vibrantes, socos poderosos e piadas ridículas. O sucesso estrondoso dos últimos anos mostra que essa combinação é certeira para o público indiano. Entretanto, Shahrukh Khan parecia um elemento estranho no conjunto. Não dava para imaginá-lo como o típico herói de ação-comédia dos filmes de Shetty. E por isso mesmo, era necessário assistir a Chennai Express.


Chennai-ai-ai-ai-ai...ad infinitum.

Shahrukh é Rahul, um solteirão de 40 anos criado pelos avós. Quando o avô morre, fica encarregado de imergir suas cinzas na aldeia de Rameshwaram. Seu verdadeiro plano é ir para Goa com os amigos e imergir as cinzas do avô por lá mesmo. Rahul acaba ficando preso no trem errado e fica ainda mais enrolado ao ajudar Meenamma (Deepika Padukone) a subir no trem. Ela está fugindo dos capangas de seu pai, mas dá o azar de ver que eles também são ajudados por Rahul e conseguem subir para alcançá-la. Eles levam Meenamma e Rahul para a aldeia de Komban Kaum, onde o pai dela é o chefão local. Ele estava forçando a filha a se casar, mas desiste quando Meenamma mente que está apaixonada por Rahul. Os dois se unem para tentar fugir da aldeia, sabendo que estão cercados por todos os lados.

Faz anos que anseio por ver Shahrukh Khan na comédia, já que seus poucos momentos cômicos em outros filmes me arrancaram boas risadas. Se o romance não me convencesse, certamente haveria ao menos uma cena engraçada para guardar de lembrança. Em Chennai, a comédia estava divertida enquanto havia piadas à la DDLJ, porém ela ficou cansativa com tanto histrionismo do SRK. Ele começou a todo vapor, porém essa energia foi diminuindo ao longo da história. Um parceiro cômico para dividir as piadas poderia ter aliviado a imagem do Shahrukh, cujo Rahul ficou irritante por tanta necessidade de ser engraçado a todo custo. Os momentos de ação masala compensaram um pouco a irritação, porém só é assim para quem gosta do estilo. 



Lembra os velhos tempos (Om Shanti Om)

MOSTRANDO MEU DISHOOM

Em nenhum momento Shahrukh foi equiparado aos atuais heróis masala, como Salman em Dabangg ou Ajay em Singham. Ele não é este tipo de herói, então buscou-se uma alternativa para inseri-lo de forma coerente no universo masala. Ao apresentá-lo como um herói masala cômico, a comédia tomou conta do espaço e não sustentou a dinâmica desse tipo de filme — resultando no já comentado cansaço. Respeitando as devidas proporções, Rahul lembra bem pouco o lado cômico do Amitabh em filmes masala como Amar Akbar Anthony e Naseeb, exceto por não vivenciar o lado de ação tão intensamente quanto ocorreu nesses filmes. O herói de ação do Amitabh, alto e magro, faz pensar que pode haver espaço para novos heróis masala fora do estereótipo forte e musculoso, tão comum aos filmes do sul. 

Se por um lado Rahul não trouxe nada de novo, por outro Meenamma foi surpreendente. Mais surpreendente como expressão da maturidade artística da atriz do que enquanto personagem, de fato, mas ainda uma surpresa. Deepika está mais expressiva, conseguindo transmitir mais emoções em seus papéis. A moça da aldeia foi apresentada como uma mulher bem educada, com idéias e desejos próprios. O ponto mais alto da personagem é sua inteligência. Além de falar várias línguas, é ela quem idealiza e organiza os planos de fuga, restando a Rahul apenas segui-la. Infelizmente, a personagem é enfraquecida justamente nos momentos decisivos do filme, restando-lhe ficar apenas como espectadora enquanto os homens resolvem as coisas. Acabou sendo mais um dos filmes a inserir um discurso sobre força e independência femininas no roteiro, para depois não embasar isto com ações quando teve a oportunidade.

Mas tá uma linda!


A história do filme não é envolvente. O humor segura o espectador durante pouco tempo, sendo depois substituído pela visão de belas paisagens. Quando nem isso é suficiente, Meenamma se apaixona por Rahul e a leveza e simplicidade dos gestos e olhares encantadores de Deepika voltam a despertar o interesse pelo filme. O momento de apaixonamento é brilhantemente embalado por Titli, um dos melhores musicais românticos produzidos em Bollywood nos últimos anos. A direção do clipe é de Farah Khan, o que explica sua alta qualidade. Rohit Shetty não cria musicais marcantes, então sabia que havia algo de estranho quando vi um vídeo tão cativante.







Os outros clipes também são muito bons, com destaque para o colorido Kashmir Main Tu Kanyakumari, cuja música talvez seja minha favorita do ano. O item number 1 2 3 4 –Get On The Dancefloor não me impressionou na hora, mas como a música é do tipo chiclete, não tive como fugir. A dançarina é a bela atriz sulista Priyamani, que parecia estar se divertindo bastante. Por último, há a controversa Lungi Dance, homenagem ao superstar de Kollywood, Rajnikanth. Vishal-Shekhar, a dupla responsável pela trilha de Chennai, não queria a canção do rapper Yo Yo Honey Singh no filme. Pois bem, ela acabou entrando e fazendo um sucesso estrondoso. Ainda estou impressionada com a ardorosa tietagem de Shahrukh Khan por Rajnikanth. Acredito que seja mais uma questão de ganhar dinheiro, pois não consigo imaginá-lo vendo ação masala em casa.



Não havia entendido como Chennai conseguiu a maior bilheteria da história do cinema indiano, mas agora me parece claro. Rohit Shetty tem tido sucesso atrás de sucesso nos últimos anos, talvez devido a não ter pudor algum de fazer cinema estritamente comercial. Unindo esta máquina financeira a um dos maiores atores de Bollywood, a atriz mais bem-sucedida de 2013, bons compositores e o apelo da homenagem ao maior superstar do sul do país, temos a receita do excelente desempenho deste projeto de masala.

Torcia para que Shahrukh voltasse a ter os êxitos de antigamente, então por este lado fiquei imensamente feliz pelo resultado comercial de Chennai Express. O meu lado de fã ficou decepcionado, infelizmente. Está chato passar mais tempo torcendo pelo artista do que apreciando seus filmes.

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