Lootera (2013)

24.11.15 Carol Batista 2 Comments

Sonakshi Sinha estreou com força no cinema indiano. Dabangg fez um sucesso estrondoso e ela logo virou o principal rosto a se prestar atenção. O encanto terminou em seus próximos filmes, pois suas escolhas apenas de masalas e comédias atraíram muitas críticas da indústria. Sua opção por Lootera foi vista como a tentativa de responder a essas críticas e mostrar que também poderia fazer papéis mais sérios. O filme tem direção Vikramaditya Motwane, que ficou conhecido por fugir dos padrões convencionais do cinema comercial com Udaan.


Sonakshi interpreta Pakhi, a jovem filha de um senhor zamindar. Os zamindar representavam uma classe social aristocrática indiana com vastas posses e terras, que teve seu declínio após a independência e instauração da democracia. A história se passa exatamente durante o período de declínio da classe, quando o pai de Pakhi recebe a visita de Varun (Ranveer Singh), um jovem que se diz arqueólogo e deseja estudar algumas de suas terras. Pakhi rapidamente se interessa por Varun e não hesita em criar situações para se aproximar dele, como pedir que ele lhe desse aulas de pintura mesmo já sabendo fazê-lo. O rapaz demonstra seu interesse de forma reticente e distante, mas não consegue evitar que o amor vá crescendo gradualmente. A doença respiratória de Pakhi parece ser o único possível obstáculo à união, porém é o menor dos problemas. Varun esconde segredos que podem destruir suas vidas.

Não há pressa em Lootera. Cada toque e olhar entre Pakhi e Varun é trabalhado lentamente para mostrar a construção de seu romance. A primeira parte é totalmente dedicada a eles e também a mostrar o cotidiano de uma residência zamindar. O tempo parece suspenso nos lares zamindar, pois até eles não chega a pobreza, a revolta ou as transformações que ocorrem fora dali. A impressão de suspensão do tempo lembra o clássico Sahib Bibi Aur Ghulam, que também retrata o declínio dos zamindar e a fixação das famílias dos senhores de terra apenas nas questões referentes aos seus domínios. Pakhi ignora o que acontece fora de seu mundo. Não há nada além de seu pai e Varun, e sua determinação é tamanha que não se importa em atrapalhá-lo no trabalho para exigir que diga se a ama. Sua força contrasta nitidamente com a passividade de Varun. Ele oscila entre os sentimentos que o ligam à Pakhi e os segredos que o impedem de amá-la, e isto faz com que avance um passo para logo recuar dois.



Ranveer Singh teve que conter toda sua energia e teatralidade para viver um personagem tão sóbrio. Para tanto, fez uma escolha duvidosa: baixou seu tom de voz. Muito. O resultado foi suas falas parecerem sussurros e a prudência do personagem passar a se confundir com fraqueza. Somando isso à já citada sensação de tempo suspenso, a primeira parte do filme ficou arrastada, monótona. Nada de novo vinha do relacionamento e o ambiente zamindar também não era estimulante. O único sopro de vida estava na Sonakshi Sinha, que já era mestra em fazer personagens na tênue linha entre a discrição e a exuberância. Foi importante vê-la como um dos principais motores de um filme para confirmar o que eu já imaginava: além de boa atriz, consegue segurar um filme como ninguém. De fato, foi desperdiçada como enfeite em tantos filmes de ação.

A segunda parte de Lootera trouxe o casal sem máscaras: Pakhi cada vez mais debilitada pelo agravamento de sua condição e Varun já sem as mentiras que o sustentavam. A raiva mútua faz com que o confronto seja intenso e doloroso, mas necessário para seguirem em frente, seja para onde forem. O isolamento do casal criou um segundo mundo à parte para viverem sua história, da mesma forma que aconteceu na mansão zamindar. Assim como aconteceu antes, o amor de Pakhi e Varun só sobrevive quando está em uma redoma de vidro. O contato com a realidade sempre o sufoca. É um amor destinado a ser breve.



A fotografia bem cuidada, remetendo à épocas passadas, juntamente com as metáforas, o silêncio e a elegante trilha de Amit Trivedi fazem com que tudo pareça uma triste poesia antiga. Esta poesia nem sempre funciona e muitas vezes o filme parece perdido e até mesmo vazio no início. A segunda metade trouxe a dinâmica que faltou à primeira e revelou todo o potencial dramático do casal principal. Ranveer pôde liberar mais a vitalidade física que lhe é característica, sem perder de vista o retraimento que faz parte da personalidade de Varun. Já Sonakshi manteve a determinação de Pakhi, mas desta vez com toques da oscilação entre sentimentos opostos que havia sido marca de Varun na primeira parte.

É uma pena que o mau desempenho do filme e a falta de premiações tenha afastado a Sonakshi de novas experimentações, pois seu desempenho foi marcante. Felizmente não se pode dizer o mesmo de Ranveer, que utilizou bem a experiência para testar seus limites como ator e tem feito filmes tão diferentes quando Ram-Leela e Dil Dhadakne Do. A inconsistência e a falta de estímulos do filme provavelmente afastaram o público. O tempo de Lootera exige paciência e nem sempre é fácil tê-la, mas mesmo que não seja com o todo, certamente há algo ali com que se encantar.

2 comentários:

  1. Sabe o que é escrever um comentário, clicar em postar, ele dar erro e horas depois você perceber? Pois é.

    Bem, eu lembro vagamente o que ia dizer, então aqui vai:

    Também me incomodou essa "voz baixa" do Ranveer. Me incomodou muito, aliás. Mas ele é tão bom com a expressividade no olhar - sério, eu vejo um olhar muito comunicativo ali - que não me importei.

    Achei muito legal a sua comparação com Sahib Bibi. Nunca mesmo ia pensar nisso.

    Você conseguiu contar mais do filme do que eu e sem dar spoilers. Quero essa habilidade quando crescer. Sou 8 ou 80: ou conto tudo, ou não conto nada.

    Enfim, é engraçado como podemos ter pontos de vistas tão diferentes e ainda acabarmos por gostar da mesma obra, não é? Pela primeira vez eu me peguei refletindo em cima da 'poesia' do negócio, e você... não.

    Você é o Tico, eu sou o Teco. <3

    Ass.: Bollyma.

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    1. Sei, sim. Isso já aconteceu pelo menos duas vezes comigo quando fui comentar no MDB :(

      Me incomodou muito não ouvir o que ele falava. Acho que ele quis "desacelerar" porque geralmente tem energia demais e acabou pisando no freio totalmente. Pra mim, o olhar não compensou.

      Sahib Bibi é um dos meus filmes favoritos e já devo tê-lo visto umas três vezes. A simples menção à palavra "zamindar" já me faz pensar nele automaticamente, nem precisa de esforço! hahaha Falando sério, na hora em que eles foram para a mansão já comecei a lembrar muito de SBAG porque a sensação de que não existia nada fora dali era a mesma. SBAG só teve mais dinamismo dentro das paredes da mansão.

      Acho que não teve muito a se refletir poeticamente sobre Lootera porque a poesia desse filme é muito dada! A metáfora do papagaio, a folha representando a vida dela, tudo foi dito pelos personagens. Aí acabei olhando mais pro não-dito. Você gostou desse filme bem mais que eu, tenha certeza. Só gostei da segunda parte. Na primeira, queria dormir fortemente rs

      Ass: Deewa.

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E aí, o que tem a dizer? Deewaneie!

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