Highway (2014)

3.11.15 Carol Batista 0 Comments

Imtiaz Ali é possivelmente um dos diretores mais sensíveis do cinema comercial atual. O tratamento que dá às suas histórias mostra a preocupação com o desenvolvimento de seus personagens, que geralmente passam por várias mudanças ao longo das narrativas. Como qualquer ser humano, eles se decepcionam, apaixonam, desapaixonam, sofrem e se descobrem. É fácil se identificar com suas jornadas. 


Tive medo de não acontecer a mesma identificação quando li a sinopse de Highway. Parecia a história de alguém se descobrindo enquanto desenvolvia uma horrorosa síndrome de Estocolmo. Para me afastar do medo, lembrei de como me senti bem após cada filme do Imtiaz. Mesmo quando o filme não me agrada, saio com a sensação de que toda a equipe se empenhou muito para me apresentar os personagens. Com isto em mente, guardei o pensamento “não é só um filme sobre síndrome de Estocolmo” e encarei a obra.

Highway conta a história de Veera Tripathi (Alia Bhatt), uma jovem rica que é sequestrada na véspera de seu casamento. Ela é levada pelo bando de Mahabir Bhati (Randeep Honda), um jovem rude que tem verdadeiro ódio dos ricos. Enquanto tentam obter o dinheiro do resgate, os bandidos carregam a vítima em seu caminhão numa viagem pela Índia que acaba sendo transformadora tanto para eles quanto para Veera.

Filmes sobre viagens costumam usar a metáfora da jornada por uma estrada para representar a autodescoberta dos personagens. A ousadia do roteiro de Highway está em permitir que esse processo seja feito durante o drama de um seqüestro. O filme correu o risco de romantizar um crime e não ouso afirmar que isso não tenha sido feito. Entretanto, esse risco foi aliviado pela história de Veera. Ela não era apenas uma garota rica em busca de novas aventuras para acabar com o tédio do seu mundo de glamour. Sua história tem forte carga dramática e sua vida familiar de fato é aprisionante. Nada que possa ferir a imagem da família pode ser dito em voz alta, mesmo que isso custe a saúde mental de seus membros. O silêncio é a norma. Ter tanta dor como pano de fundo pode não justificar totalmente, porém ao menos auxilia a entender por que a jovem fica tão confortável com os bandidos. Eles têm falas sinceras. Com eles, nada é falso ou forçado e Veera sente que pode se soltar.


Além da atitude dos bandidos, as paisagens naturais da Índia também são responsáveis por transmitir a mudança em Veera. Não entendo absolutamente nada de cinema, mas algo no modo como foram capturadas as cenas de Veera ao ar livre parecia nos levar a entender que ela estava se libertando ao se unir à natureza. As cenas em sua casa eram sufocantes. Ao ar livre, ela passou a fazer parte de algo maior que a libertou. É impressionante ver Alia Bhatt conduzindo a transição da personagem com tanto cuidado. Este foi apenas seu segundo filme e o amadurecimento desde Student Of The Year provavelmente foi resultado do bom trabalho do diretor em livrá-la dos maneirismos típicos dos filmes mais populares e glamourosos e deixá-la em contato com suas emoções reais.

Descobrir o potencial de Randeep Hooda como ator foi outro presente. Ele sempre esteve escondido em papéis secundários e finalmente conseguiu mostrar que pode segurar um filme como protagonista. Mahabir é um personagem que pode causar desconforto. Seu ódio pelos ricos vem da exploração que sua mãe sofreu por parte deles durante toda a vida. Mahabir sabe que eles não se importam com pessoas como ele e também decide não se importar com suas vidas. Ver o que levou uma pessoa à vida do crime nos obriga a não fazer julgamentos fáceis. “Bandido” não é o suficiente para descrevê-lo. É apenas uma de tantas palavras possíveis para falar de um ser humano complexo. O próprio Mahabir tenta ser simplista e se definir como um bandido sem emoções, mas não consegue evitar de se encantar pelo entusiasmo bobo de Veera. Ele sabe que ela é ingênua e enxerga nas pessoas qualidades que talvez não estejam presentes, mas o que o assusta é pensar que talvez seja como ela o vê. Randeep foi hábil ao expressar o medo que isso causou em Mahabir. Ter alguém vendo através da sua “casca” e expondo sua vulnerabilidade pode voltar a trazer a dor que tanto se lutou para extinguir. Ter esperança é arriscar se decepcionar.


A trilha também é protagonista. Patakha Guddi é essencial no acompanhamento do processo de libertação de Veera, mostrando seu reencontro com a alegria. Gosto do ritmo dançante e ao mesmo tempo grandioso. A outra estrela da trilha é Maahi Ve, que traz de volta uma das vozes mais calmas e doces de Bollywood: a de A.R. Rahman, que também assina a trilha.


Qualquer pessoa que já passou por uma grande transformação ou que sente esta necessidade em sua vida pode se identificar com Highway. Apesar do uso de uma vítima de seqüestro para relatar essa transformação ser problemático, a história pregressa de Veera e sua vida familiar me fizeram dar crédito ao seu sofrimento. O trabalho sincero e visceral de Alia Bhatt e Randeep Hooda fez jus a uma história tão difícil. Com a permissão que todo amante de cinema indiano tem para ser brega, digo que é um filme tão bom porque toca o coração. A jornada de Veera e Mahabir fala sobre abraçar tudo o que há de bom e ruim em si mesmo e na própria história para ter a coragem de transformar o seu destino e assim, escolher novos caminhos. 

Profundo desde as dramáticas cenas iniciais até o delicado final, o filme é impecável e, ao menos para mim, inspirador. Há obras que nos fazem lembrar o poder que a arte tem de perturbar nossas emoções e afetar nossa forma de encarar o mundo. Highway é um dos melhores exemplos disso.

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