Ek Phool Do Mali (1969)

29.12.15 Carol Batista 0 Comments

Quem gosta de passar horas no Youtube sabe muito bem o tempo que se pode perder ali. Eu tinha mania de passar as madrugas no site, pulando de um clipe de filme antigo para o outro. Adorava conhecer artistas novos e adicionar músicas desconhecidas à minha playlist. Uma daquelas madrugadas me apresentou à uma música que até hoje me encanta, Yeh Parda Hata Do.

As cores ♥

Fã de cores, ambientes naturais e heroínas vestidas como moça da aldeia que sou, minha reação imediata foi um simples e puro desespero para assistir a Ek Phool Do Mali. Durante anos sofri encontrando ora arquivo sem legenda, ora legenda sem arquivo. Até que recentemente as pessoas passaram a colocar filmes antigos de Bollywood no Youtube e minha vida mudou. Lá estavam todos os filmes que eu queria ver! 

Ek Phool Do Mali tem um dos títulos mais doces e autoexplicativos do cinema. O significado é "uma flor, dois jardineiros". Um clássico triângulo amoroso dos anos 60, com poucas surpresas. A heroína é Somma (Sadhana), uma geniosa moça pobre que trabalha num pomar de maçãs com sua mãe. O pomar é propriedade de Kailash Nath (Balraj Sahni), um bondoso e rico viúvo que também é proprietário de uma escola de alpinismo. Nela estuda o jovem Amar (Sanjay Khan), com quem Somma inicialmente briga muito, mas obviamente acaba se apaixonando. Os dois noivam e tudo parece que vai dar certo, quando uma tragédia os separa e Somma é deixada grávida. O viúvo Kailash oferece dar seu nome ao filho de Somma e criá-lo com todo o amor. O mundo de todos cai quando o pai do menino volta seis anos depois.



Filmes dos anos 60 costumavam dedicar grande parte de sua primeira metade ao romance principal. Ek Phool Do Mali não foge à regra e traz mais uma versão da famoso romance entre gata e rato. O tom que Sadhana dá à personagem é irritante e infantil. A voz estridente não facilitou a tentativa de gostar de uma personagem mimada, que emprega a maior parte de seu tempo pregando peças em Amar e transformando a vida do rapaz num inferno. É a famosa heroína espevitada e travessa, um tipo arriscado. O risco não está só no fato de ser difícil gostar de alguém assim, como também na dificuldade de fazer a transição dessa heroína para o estado de jovem apaixonada. Esta passagem foi feita de forma abrupta e nada convincente. Em um momento havia jovialidade e travessura e no seguinte havia uma pessoa apaixonada e dramática. Como qualquer coisa colorida acaba com meu senso crítico, mesmo essa tonelada de problemas não me impediu de admirar a Sadhana em versão moça da aldeia.



Sanjay Khan é um herói eficiente, mas nada marcante. Sua participação no filme ganha peso quando volta após anos dado como morto. Desenvolve um enorme carinho pelo pequeno Bobby sem imaginar que seja seu filho. É o retorno a um tema frequente nos filmes antigos: o de que os laços de sangue falam mais alto mesmo quando não se tem consciência de sua existência. Sua interação com o menino é meiga e forma-se entre eles uma amizade genuína. Pessoalmente, gosto de histórias em que os adultos interagem bem com as crianças e gastam seu tempo com elas.

Quando Amar desaparece e Somma aceita a proposta de casamento de Kailash Nath, a personagem deixa claro que eles jamais terão uma relação amorosa e que o marido jamais irá tocá-la. Este é outro artifício muito usado em filmes antigos para quando há separação entre o casal principal. Para que a heroína não seja tocada por outro homem e seja conservada a sua pureza para o único homem que amou, ela faz um acordo com o novo marido. Desta forma, é mantida sua fidelidade a um único homem. Será que Amar aceitaria Somma se ela tivesse dormido com outro? Duvido muito. Não é digno que a mulher tenha a possibilidade de ser feliz novamente.

Nunca temos heróis alpinistas, merecemos uma foto.

Inesperadamente, o grande protagonista da história acaba sendo o pobre Kailash Nath. Tendo perdido sua esposa e seu filho há anos, o amor que dedica ao novo filho é comovente e desesperado. Somma praticamente desaparece na segunda parte do filme, dando espaço à batalha entre o viúvo e o pai biológico pelo amor do menino. Kailash Nath é um péssimo pai, que mima o menino de todas as formas possíveis, desautoriza a mãe na frente dele e tenta comprar seu amor com brinquedos. Por alguma razão isso era visto como prova de amor parental em filmes dos anos 60. A disputa dos dois homens adultos pelo amor daquela criança mimada chegou a um nível de drama e histrionismo tão grande que só me restou a saída de sempre: rir. O interessante foi que o título nos faria pensar que a flor disputada pelos jardineiros seria a Somma, mas na verdade é a criança. Ambos estão lutando pelo direito de cuidarem dele e o amarem. Como um jardineiro em seu próprio jardim.


Não se engane pela carinha fofa. Essa criança é insuportável.

Para não dizer que faltou comédia, há um núcleo cômico desnecessário. É encabeçado por Bahadur Singh (Brahmachari) e toda a família da jovem com quem deseja se casar. O núcleo é completamente destacado da história principal e suas sequências tomam um bom tempo de cena. Parecia um filme inserido dentro de outro e o resultado é estranheza por parte de quem assiste. Era uma colagem mal feita.

Yeh Parda Hata Do é o grande trunfo da trilha sonora, que não traz nada de muito mais interessante. Um outro destaque talvez seria um medley de várias canções antigas interpretado pelo núcleo cômico que acabei de destruir no parágrafo anterior. Também gosto da triste O Nanhe Se Farishte. É cantada durante a festa de aniversário de Bobby e é impossível não se comover com a voz de Mohammed Rafi em canções tristes.

Padrão Chapolin de efeitos especiais

Não tem nem o que eu possa dizer para salvar Ek Phool Do Mali. É um filme ruim, com um tom dramático acima do esperado e adultos extremamente disfuncionais fazendo uma bobagem atrás da outra. Um aspecto válido é que tem tantos estereótipos clássicos dos anos 60 que serve de aprendizado para quem se interessa por saber como eram os filmes daquela época. Minha motivação para escrever sobre essa bagunça foi homenagear a Sadhana, que eu tanto amo. Suportar filmes ruins é o que prova nosso amor por um artista e se não fosse por ela, esse drama de flor e jardineiros poderia ter sido bem pior.

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