Neerja (2016)

12.2.17 Carol Batista 6 Comments

Biografias são sempre perigosas porque levar a vida real de alguém para o cinema envolve correr os riscos de desapontar aqueles que fizeram parte daquela história, da contagem inacurada dos fatos e de a imagem da pessoa real ser soterrada pelo brilho da estrela que a interpreta. Nada disso impede que nos deparemos com histórias reais no cinema ano após ano, em especial em Bollywood, que há pelo menos cinco anos nutre uma obsessão por filmes biográficos. Somente em 2016 tivemos filmes como Aligarh, Dangal, MS Dhoni e Azhar, sendo a maioria composta por filmes sobre esportes. Neerja é um caso especial. Sua história aconteceu no final dos anos 80 e era desconhecida por grande parte da juventude indiana. Para nossa sorte, o diretor Ram Madhvani decidiu resgatá-la.



Neerja Bhanot era modelo e aeromoça da companhia aérea Pam Am. Ela tinha apenas 22 anos em 1983, mas sua jovem idade não a impediu de carregar dores profundas. Neerja havia estado em um casamento abusivo e retornou à casa dos pais após as agressões e pressões do marido para receber um dote. A jovem conseguiu emprego como aeromoça e seu primeiro dia como chefe de cabine seria no voo 73 da Pam Am, que ia em direção a Frankfurt. Uma escala foi feita na cidade paquistanesa de Karachi e foi naquele momento que terroristas palestinos da organização Abu Nidal sequestraram o avião para forçar que os pilotos os levassem para Cyprus a fim de libertarem terroristas presos. Neerja enviou o código de sequestro aos pilotos, que evacuaram a cabine. Aquele que era para ser um voo tenebroso tornou-se um inesperado sequestro de um avião que não deixou o solo. 17 horas depois, Neerja e outros 20 passageiros não mais viviam. Entretanto, graças à bravura da jovem, 340 passageiros foram salvos.

A história da aeromoça heroína era forte demais para que não nos assustássemos ao ver Sonam Kapoor como a atriz escolhida para vivê-la. Sonam tem uma carreira irregular, com poucos sucessos e atuações não muito reconhecidas por público e crítica. Algo vinha lentamente mudando em seu talento desde a comédia romântica Khoobsurat, em que demonstrou um desempenho melhor do que a sua média. Ainda assim, a pesada história de Neerja parecia um voto de confiança grande demais para o que Sonam vinha apresentando até hoje. O que foi mudando minha percepção e me fazendo crer na qualidade do filme foi sua produção. Durante os meses de gravação fui surpreendida por uma Sonam mais quieta e profunda do que o normal. Todo o drama do filme se passou em um avião construído pela equipe e as sequências foram longas e dolorosas, sendo necessária uma imersão total de todos os atores envolvidos. Sonam estava abalada, machucada pela violência física imposta pelo roteiro e impactada pela história de vida que estava representando. Para quem observava estava claro que aquela personagem estava afetando até mesmo sua forma de ver a vida.


A abordagem do roteiro apresenta Neerja como uma jovem absolutamente normal, semelhante a qualquer um de nós. Seu pai a criou com o princípio de sempre fazer a coisa certa e ser forte. É através desses princípios que somos levados a entender de onde a aeromoça tira coragem para atos discretos de enorme bravura durante o sequestro, como esconder os passaportes americanos ao perceber que os sequestradores desejavam matar cidadãos dos Estados Unidos. Foram inseridas cenas representando seu intenso pavor das explosões do marido justapostas às cenas em que sente medo durante o sequestro para expressar a ideia principal: Neerja não era uma mulher sem medo, mas sim alguém que agiu mesmo tomada por ele para fazer o que era correto. Assim como em seus episódios de violência doméstica, ela teme fazer ou dizer qualquer coisa errada. Há sequências em que a câmera é posicionada extremamente perto dos rostos. Podemos ver o terror passando pelos olhos e lágrimas de Sonam como jamais imaginaríamos.


A proximidade das câmeras deixa o espectador sem ar. Quando os terroristas agridem e apontam suas armas para a equipe e os passageiros, nos sentimos próximos o suficiente para compartilhar da tensão no ar. Mas para além do jogo de câmeras, as atuações enérgicas dos passageiros e dos terroristas foram essenciais para transmitir a atmosfera pesada. Não há como falar deste filme sem mencionar o trabalho de Jim Sarbh, intérprete do terrorista Khalil. Ele representa o terrorista impulsivo e sanguinário que está disposto a tudo pela sua causa e não tem pudor algum em ser cruel e violento com todos. Khalil já mostra seu sadismo de início, porém há uma escalada no estado psicológico do personagem que é feita brilhantemente pelo ator. Khalil perde o controle progressivamente devido ao enclausuramento e à falta de perspectiva quanto ao atendimento das demandas de seu grupo. Os terroristas ficam cansados, irritados e desesperados. A forma como saem de si é contraposta à conduta de Neerja, que jamais perde de vista seu dever: acalmar e cuidar dos passageiros.

Neerja foi autorizado pela família da aeromoça com a condição de que pudessem aprovar seu roteiro previamente. Sonam recebeu a bênção de Rama, mãe da jovem, para interpretar sua filha morta tão precocemente. A relação de profundo amor entre mãe e filha vem desde antes do seu nascimento. Diferentemente de tantas famílias indianas tradicionais, com sua obsessão por filhos homens, Rama e seu marido Harish já tinham dois filhos e decidiram engravidar mais uma vez porque desejavam ter uma menina. Neerja era a menina dos olhos de sua família, a caçula amada por todos. Sua perda é impossível de ser compensada com os vários prêmios de bravura que a família recebeu após sua morte. Shabana Azmi foi a escolha correta para interpretar essa mãe que sofre aquilo pelo qual nenhuma mãe deveria passar. Há pouco para falar sobre Shabana que já não tenha sido dito em todos os seus trabalhos impecáveis. Da mulher forte que vemos em tantos filmes, ela conseguiu facilmente flutuar para uma atuação mais assustada e dolorosa de uma mãe em completa negação sobre a possibilidade de sua filha não sobreviver.


Como esperado, nem todos ficaram satisfeitos com a forma como os eventos foram retratados. Alguns membros do voo da Pam Am disseram que a própria Neerja ficaria enojada por ter sido retratada como a única heroína da história, quando todos trabalharam em equipe para preservar a segurança dos passageiros. O sobrevivente Mike Thexton relata em seu livro sobre o evento e nesta matéria que aquela foi a equipe mais competente que já encontrou. Fica claro que houve mais participação coletiva do que a história mostra e que o conto da heroína solitária talvez seja mais interessante para o cinema do que crível na vida real. Ainda assim, é inquestionável a coragem de Neerja e seu profissionalismo ao avisar os pilotos, impedir a coleta dos passaportes, tranquilizar os passageiros e salvar crianças. Sonam Kapoor transmitiu com muita competência a dignidade e inteligência da aeromoça em momento de crise.

Não me lembro da última vez em que me tornei fã de um diretor tão rapidamente, um feito que Ram Madhvani conseguiu com maestria em Neerja. Nem mesmo a inserção de uma música desnecessária ao andamento da história tirou o brilho e, principalmente, a força da história que ele se propôs a contar. Cada membro do voo parecia ter sido dirigido pessoalmente, cada cena foi bem cuidada e nenhuma atuação pareceu fora de lugar.  O salto artístico que sua direção permitiu ao trabalho de Sonam Kapoor seria algo impossível de imaginar há alguns anos. Ram transformou a carreira de Sonam para sempre e tornou-a uma das atrizes mais procuradas e valorizadas da indústria após o filme, mas não é apenas ela que lhe deve gratidão. Neerja foi um filme que me reconectou com meus valores mais profundos e me deu a dimensão de como minha vida pode afetar às daqueles que me rodeiam. Acredito que o último filme indiano que me fez querer estar no mundo de forma mais intensa e positiva tenha sido 3 Idiots, e isso já faz sete anos. Isto mostra a raridade de um filme assim acontecer em nossas vidas. E é por esse motivo que vocês devem assistir a Neerja o quanto antes.

6 comentários:

  1. Uaaauuu que resenha,que descrição do filme,dos atores!!! Isso só me deixou com mais vontade de assistir a esse filme maravilhoso pelo que parece. Adoro filmes que nos confrontam,que nos fazem refletir a respeito da nossa existência,de qual a diferença no mundo estamos deixando,se somos alguém que seremos lembrado por nossos atos de bravura e coragem!! Parabéns,está INCRÍVEL nunca me decepciono
    #ansiosaParaVerOFilme

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    1. O filme é realmente maravilhoso, Thaynara. O mais legal foi o diretor não ter endeusado a Neerja em nenhum momento. Você a vê vulnerável e com muito medo, mas levantando para fazer o que tem que ser feito. A gente se conecta muito facilmente com ela, mesmo que o filme não tenha feito uma introdução longa à personagem. Logo depois de Neerja tomei coragem para fazer várias coisas que estava enrolando há anos por medo. Se ela pôde fazer algo daquele tamanho, não há medinho do qual a gente não dê conta.

      Muito obrigada pelo comentário! Hoje em dia a maioria dos comentários vêm pelo Facebook, mas o gostoso de receber aqui no blog é não ver as opiniões das pessoas se perdendo numa timeline :)

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  2. Triste essa história, mas vou assistir. Grata pelo texto maravilhoso.

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    1. Triste mesmo, mas daquelas que valem a pena assistir.

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  3. li a matéria que contém a versão dos amigos dela e achei bem infeliz a tentativa deles de menosprezar e em alguns casos até tomar a glória dela para si, tem coisas que eles dizem ser mérito deles que é óbvio que é mentira, principalmente pelo fato dela ser nesse maldito dia a chefe de cabine e estar a frente das ações da equipe.

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    1. Não achei que menosprezaram, mas pelo que li dos relatos de alguns passageiros, o desempenho da equipe como um todo foi impecável e eles devem ter ficado muito incomodados ao ver todo o reconhecimento sendo concedido à Neerja. No fim, só eles sabem o que realmente aconteceu.

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