Bajrangi Bhaijaan (2015)

12.1.16 Carol Batista 2 Comments

Uma das maiores dificuldades dos atores da geração dos anos 90 tem sido conseguir se reinventarem para que as imagens que os consagraram não os aprisionem enquanto envelhecem. Shahrukh era o herói romântico, Kajol era a heroína agitada, Akshay era o herói de ação. Salman Khan conseguiu dar um grande passo em 2009 com Wanted, no qual inaugurou uma bem-sucedida carreira como herói de ação masala. O filme o recolocou no patamar de um dos atores mais lucrativos de Bollywood e desde então Salman tem feito filmes muito semelhantes, como Dabangg, Bodyguard, e Jai Ho. A expectativa de inovação em sua filmografia veio já nas primeiras imagens lançadas de Bajrangi Bhaijaan. Havia uma criança nas fotos e todo um ar de inocência, o que fez com que o público quisesse conhecer um herói diferente e a história que ele contaria. Parecia que finalmente teríamos um filme comercial importante com foco em algo além de romance ou pancadaria.


A jornada de Bajrangi Bhaijaan começa na casa da pequena Shahida (Harshali Malhotra), numa pequena aldeia paquistanesa. A menina é muda e sua mãe decide levá-la até a Índia para tentar tratá-la. Shahida se perde da mãe em outro país e encontra conforto perto de Bajrangi (Salman Khan), um hindu extremamente devoto ao deus Hanuman que a protege e cuida dela. O rapaz promete que levará a menina de volta para casa e sua família - mesmo que ela não consiga nem ao menos dizer a ele onde mora.

Bajrangi é um personagem inocente ao extremo. Vê o mundo em termos simplistas: sim e não, certo e errado, verdade e mentira, hindu e muçulmano. Recusa-se a mentir terminantemente, pois é devoto de Hanuman e ele não admite mentirosos. É feita a inversão das figuras do adulto e da criança, com Shahida assumindo a posição daquela que é boa e sensível, mas entende que às vezes é necessário mentir e quebrar as regras para evitar perigos maiores. A criança é muito mais perceptiva que Bajrangi e entende que sua inflexibilidade os afasta do seu objetivo – afinal, como será possível chegar ao Paquistão pedindo permissão aos policiais da fronteira? Shahida tenta proteger Bajrangi com sua inteligência, enquanto ele faz o mesmo por ela com sua força física. Os dois se complementam na busca do seu objetivo comum.

Apesar de ser posto no lugar da criança, Bajrangi não foi colocado como um herói puro e imaculado. Sua visão de mundo está manchada pelo preconceito religioso que o faz ter medo de até mesmo pisar em uma mesquita muçulmana. É Shahida – a quem ele chama de Munni, devido à incapacidade da menina de contar seu próprio nome – quem o faz enfrentar seu medo e lidar com muçulmanos. A grande cartada da história é deixar acontecer o amor entre ele e a menina antes da descoberta de sua religião. Conhecer a religião da menina de antemão não permitiria que um homem tão centrado em sua própria crença abrisse seu coração. Quando existe amor, todo o resto é secundário.

A abertura que o amor por Shahida lhe dá faz com que Bajrangi tenha a mesma posição com outras pessoas. Isto torna-se real de forma mais marcante com Chand Nawab (Nawazudin Siddiqui), um jornalista que inicialmente deseja um furo de reportagem, mas acaba se encantado pela dupla e os ajudando a chegar ao seu destino. Chand é responsável pela inserção do filme no mundo atual, do qual a cultura da internet é parte essencial do cotidiano. É graças a ele que Bajrangi Bhaijaan não parece um filme datado. E sua contribuição não fica por aí, porque isso é impossível quando se trata de Nawazuddin Siddiqui. Não há um filme deste homem ao qual eu não assista me prometendo gritar para o mundo que é o melhor ator da Índia atualmente, que humilha a atuação dos protagonistas e que nós deveríamos beijar seus pés por afastar a mediocridade do cinema indiano. São reações bastante histéricas, mas que acredito se justificarem ao vê-lo em ação. Sua performance como Chand Nawab é emocionante, convincente, irretocável. Entra na história muito depois de seu início e não apenas se integra rapidamente a ela, como faz com que cresça e fique melhor. Seria difícil imaginar que teria química com Salman Khan, mas ela existe e é divertido ver a interação do grandalhão bobão com o baixinho abusado. Nawaz fez cenas dramáticas, neutras e até de comédia com a mesma maestria – aliás, só comecei a rir quando ele entrou em cena. Qualquer elogio é insuficiente.



Rasika não conseguiu ter a mesma importância. A personagem de Kareena Kapoor representa apenas a cota de romance que todo filme comercial importante é obrigado a ter no cinema hindi. Suas funções são lembrar a Bajrangi da importância de amar Shahida independentemente de sua religião e participar das poucas cenas românticas. E ficou apenas nisso. Tenho notado nos últimos anos que Kareena tem a tendência a escolher alguns papéis apenas pela grandeza do filme e do herói principal do que pela contribuição da sua personagem para o enredo. Dada sua proeminência no cenário de Bollywood, chega a ser esquisito vê-la num papel tão inexpressivo, feito para uma principiante com necessidade de projeção.

Não precisei de muitos minutos ouvindo as primeiras canções para identificar que a trilha do filme foi composta por Pritam – provavelmente o produtor musical de que menos gosto em Bollywood. Sempre ouvi seus trabalhos como um bando de sons modernos misturados sem inspiração nenhuma. O filme já se inicia com a péssima Selfie Le Le Re e a coisa não melhora muito. O melhor momento é a fofíssima Chicken Kuk-Doo-Koo, na qual vemos Kareena e Salman imitando frangos para animar uma criança. Se isso não é inesperado, eu não saberia dizer o que é.


É desafiador quando o cinema comercial feito para as grandes massas toca em temas espinhosos como religião e rivalidade entre nações para falar sobre lições simples. O tema principal de Bajrangi Bhaijaan é o amor  que supera idade e crenças. Um homem suspende sua vida e chega até mesmo a prejudicá-la para ajudar a alguém sem receber nada em troca além do sorriso da criança. Em meio a tanto cinismo e problemas do cotidiano, é de aquecer o coração ver uma história de amor tão pura. Salman fez o melhor trabalho possível dentro de sua atuação limitada, Nawazuddin brilhou e a se Harshali não iniciou uma bela carreira no cinema indiano, no mínimo deixou sua marca na história - pois este filme será lembrado por muitos anos como uma das pérolas dos nossos tempos. A melhor palavra para descrever Bajrangi Bhaijaan é encantador, mas me atrevo a dizer que também é apaixonante. Ele enriquece seu dia e faz você querer ser uma pessoa melhor. Se tudo isto faz deste o texto mais brega que já escrevi, que seja. Vale a pena ter coração uma vez ou outra.

2 comentários:

  1. A mensagem de amor para com o próximo foi o ponto chave para trama ser tão linda.

    Raquel

    ResponderExcluir

E aí, o que tem a dizer? Deewaneie!

Comentários ofensivos serão excluídos.