Dr. Kotnis Ki Amar Kahani (1946)

3.1.11 Carol Batista 0 Comments

Para falar de Dr. Kotnis Ki Amar Kahani é necessário fazer uma pequena viagem pela História. O filme é baseado na história real de Dwarkanath Shantaram Kotnis, um dos cinco médicos indianos que se voluntariaram a ir ajudar os chineses na Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945). Sua dedicação ao povo chinês foi tão grande que até hoje ele é reconhecido na China, tendo uma estátua sua erguida no país. Seus familiares sempre recebem homenagens, até mesmo do presidente Hu Jintao.
Ahhhh, a doce Sholapur...
Se não fosse por este filme, talvez eu ainda estivesse desanimada para explorar os anos 40. Dirigido e estrelado por V. Shantaram, começou com uma das coisas que mais gosto de ver em filmes indianos: a vida nas pequenas aldeias. Assim que se forma, Dwarkanath vai visitar sua pequena Sholapur para rever a família e informá-la de sua decisão. Ele não esperava encontrar um consultório montado por seu pai (Keshavrao Date) e fica apreensivo no momento de dizer a ele que pretender ir ajudar na guerra, mas é surpreendido pela reação recebida: seu pai fica muito orgulhoso e diz que teria feito o mesmo. É aí que fico sabendo de mais uma referência histórica: o filme faz parte de uma série de filmes patrióticos sobre heróis de guerra lançados nos anos 40. Vejam alguns outros títulos aqui.

Depois da cena com o pai, o filme ficou repleto de falas patrióticas. "Minha Índia", "nossa Índia", "orgulho do país", "minha amada Índia"...essas repetições costumam me cansar, mas o filme estava muito bonitinho e não me importei desta vez. Na cena em que Dwarka estava partindo no navio para a China, seu pai lhe dá um anel no qual está desenhado o mapa da Índia e diz que é para lembrá-lo não apenas da família, mas de que a honra do país está em suas mãos. Achei tenso.

O problema de patriotismo exagerado em filmes é que geralmente vem acompanhado de uma vilanização também exagerada de algum país inimigo; neste caso, o Japão. No filme víamos os chineses (que eram indianos, há) sorridentes e amavéis, enquanto que os japoneses só apareciam para jogar bombas ou capturar presos. É certo que imparcialidade é algo difícil, principalmente em um filme de guerra, mas...aquilo era uma guerra, oras! Todos estavam lutando, os dois lados matavam pessoas. Sei que há um que ataca primeiro, mas não há bonzinho quando as duas partes tiram a vida de alguém. Isto me lembra de uns filmes muito irritantes dos Estados Unidos sobre Pearl Harbor onde tudo o que se houve é "japoneses imundos" e daí para baixo.

Quando Dwarka estava na China, as cenas não foram muito diferentes do que já vi em filmes de guerra: gente sofrendo, o médico falando sobre como quer ajudar a todos, etc. Ao receber uma carta informando sobre a  morte de seu pai, inicialmente Dwarka pensou em voltar à Índia para ficar com a sua mãe. Pensei "agora ele vai lembrar das palavras do pai e decidirá ficar por causa da honra". E pronto, nenhuma surpresa. O legal foi pensar que aquele momento de difícil decisão realmente aconteceu com alguém.

Mini sobrancelhas: uma
 tentativa de parecer chinesa?
Aceitando que nada de diferente aconteceria, fui surpreendida por uma história de amor muito, mas muito meiga.Ching Lan (Jayashree), uma dessas infinitas pessoas chinesas que falam hindi, é uma moça que se vestiu de rapaz para poder andar livremente pelo país sendo assistente de médicos. Era engraçado ver Dwarka dando uns tapas nas costas dela: a cena clássica de todo filme em que uma mulher se veste de homem. Quando Ching Lan começa a trabalhar como assistente de Dwarka, um dia ele descobre seu disfarce. Depois disto eles começam a conversar bastante, e Dwarka descobre que a família de Ching Lan foi morta pelos japoneses malvados. Ching ama a China tanto quanto Dwarka ama a Índia (ô casal patriota). Gostei muito de como eles se apaixonaram: eles conversaram, riram um com o outro, realmente se conheceram. Os idosos da cidade querem que Ching se case com algum chinês e ela nem ao menos quer se casar, o que deixar Dwarka muito mal. Aí há a doce cena do general da missão deles dizendo que a punição por terem se apaixonado é ter de se casarem. E no casamento? Mais patriotismo, claro. Um personagem diz que o casamento uniu dois corações, duas mãos e dois países. A aliança de Ching é o anel com o mapa da Índia que Dwarka recebeu do pai, enquanto que a de Dwarka é um anel com um mapa da China. Certo, já entendi que Índia e China são amigas para sempre.


O filme vai seguindo em um ritmo muito bom: ao mesmo tempo em que as coisas não acontecem apressadamente, também não ficamos entediados. Quando os japoneses bombardeiam a área em que estavam, toda a população tem de fugir e Dwarka observa que uma estranha doença está se propagando. Desesperado para ajudar às pessoas, ele injeta o pus das bolhas em si mesmo (cena nojenta) para ver o progresso. No fim ele consegue criar um remédio para salvar as pessoas. Eu quero muito saber se isto realmente aconteceu, qual é o nome da doença e se ela ainda existe. Este parágrafo foi só para explanar a minha curiosidade.

Por ter curado as pessoas, Dr. Kotnis ("Dwarka" é intimidade demais) é homenageado por todos aqueles indianos que pensam que enganam alguém fingindo que são chineses. E lá vem musical fofo, que segundo o Youtube, se chama Dekho Aayi Bahar. Não consigo encontrar muitas informações sobre a trilha deste filme, além de que ela é de Vasant Desai. Foi a primeira trilha dele que ouvi e gostei muito.

Não sei se conto ou não o final...me parece meio bobo não contar o final de algo que é um fato histórico. Tentem acompanhar: Dwarka e a esposa tem um filho, patriotismo, Dwarka é capturado pelos japoneses e depois foge deles, patriotismo, Dwarka fica doente, patriotismo, Dwarka morre sonhando em voltar para a Índia, patriotismo. A conclusão: é um filme bom. Não gosto muito de filmes de guerra, então levem isto em consideração. Mesmo já tendo visto outras histórias parecidas, eu realmente me interessei pela vida do Dr. Kotnis e achei adorável o modo como ele ainda é respeitado na China. 

Agora vou ver mais uns dois títulos da época para ver um pouco mais do que os anos 40 guardam. Espero ver o melhor, já que comecei bem.


Para quem quiser saber mais sobre o verdadeiro Dr. Kotnis:

Até mais!

Ps: notícia estranha sobre a Segunda Guerra Sino-Japonesa aqui.

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